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BARBÁRIE

Agressão convertida em celebração: a herança bélica dos fogos de efeitos visuais e rojões

1 de janeiro de 2026
Silvana Andrade
4 min. de leitura
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Foto: Ilustrativa/IA

A queima de fogos de artifício e bombas  introduz no ambiente civil um tipo de contaminação que se aproxima mais de eventos explosivos de caráter bélico em escala restrita do que de qualquer ideia de celebração. O paralelo com a guerra não é retórico. Sustenta-se nos elementos químicos liberados, nos efeitos fisiológicos produzidos e na lógica de devastação pontual que se repete, ano após ano, sob o manto da normalidade social.

Do ponto de vista ambiental e toxicológico, os fogos dispersam no ar, no solo e na água uma combinação de metais pesados e compostos químicos amplamente documentados. Entre eles estão o chumbo, associado a danos neurológicos, cognitivos e cardiovasculares; o bário, utilizado para produzir tons verdes e conhecido por provocar arritmias, fraqueza muscular e comprometimento respiratório; o cobre, responsável por colorações azuladas, tóxico para organismos aquáticos e cumulativo no ambiente; o estrôncio, empregado nos tons vermelhos, capaz de interferir no metabolismo ósseo; o alumínio, presente como combustível e intensificador da explosão, relacionado a processos inflamatórios e impactos neurológicos; o antimônio, utilizado como estabilizador, com potencial carcinogênico; o cádmio, altamente tóxico e bioacumulativo, associado a danos renais e ósseos; e o níquel, conhecido por seus efeitos alérgicos, respiratórios e cancerígenos.

A esses metais somam-se partículas ultrafinas, óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre e monóxido de carbono. Essas substâncias não desaparecem com o fim do espetáculo. Permanecem suspensas no ar, depositam-se no solo, escorrem para corpos d’água e ingressam na cadeia alimentar.

Em termos técnicos, o cenário que se forma após grandes queimas se assemelha ao observado em áreas submetidas a detonações de artefatos explosivos em contextos militares de baixa intensidade, com picos súbitos de poluição atmosférica e deposição química persistente. A diferença está apenas no enquadramento alegórico e na escala material do impacto, não em sua essência.

Fumaça iluminada pelos fogos em Copacabana — Foto: Júnior Alves/TV Globo

O mesmo se aplica à dimensão sonora. Os estampidos alcançam níveis de pressão acústica comparáveis aos de detonações utilizadas em operações armadas, ativando respostas neurofisiológicas idênticas. O corpo humano não distingue a origem do som. O sistema nervoso reage da mesma forma, acionando mecanismos de sobrevivência, elevando hormônios do estresse e desorganizando funções vitais.

Em contextos de guerra, esses efeitos são reconhecidos como trauma acústico. Em situações festivas, são tratados como efeito colateral aceitável. A fisiologia, porém, não opera por convenções culturais.

Nos animais, o paralelismo é ainda mais evidente. Não há compreensão capaz de converter explosões em alegria. O que existe, para eles, é apenas ameaça. Na recusa instintiva ao ruído e ao impacto, talvez resida uma lição ética que a humanidade ainda precisa aprender. A audição ampliada transforma o ambiente em território hostil, produzindo fugas desesperadas, colisões, abortos, mortes súbitas, abandono de ninhos e ruptura de ciclos ecológicos.

Algo análogo acontece com pessoas autistas, idosos e indivíduos com necessidades especiais, para quem o estrondo significa ruptura, colapso sensorial e grande tormento.

O uso de fogos barulhentos revela a persistência de uma lógica de força e domínio. O estouro opera como demonstração figurada de poder e ocupação do espaço comum, suspendendo temporariamente qualquer consideração pelo outro. É um gesto que se impõe, não que acolhe.

É nesse ponto que a alegoria da caverna de Platão se apresenta como chave interpretativa. Os clarões e formas momentâneas dos fogos atuam como sombras projetadas na parede, suficientes para capturar o olhar, insuficientes para revelar a realidade. A luz artificial e ruidosa distrai, anestesia e mantém a consciência voltada para o espetáculo, enquanto os efeitos concretos permanecem fora do campo de percepção.

Sair da caverna implica suportar o desconforto da lucidez, reconhecer que aquilo que se toma por festividade reproduz, em essência, uma lógica de violência normalizada. Não é fortuito que a lucidez costuma despertar resistência e tentativas de silenciamento.

A insistência nesse tipo de festa expõe a dificuldade coletiva de reconhecer os limites éticos da própria alegria. Quando a felicidade depende da produção de medo, dor, aflição ou contaminação, ela se desloca para um campo mais próximo da dominação do que do convívio.

A explosão que ilumina o céu por segundos deixa no chão resíduos que persistem por meses. O fenômeno, em sua estrutura, é o mesmo. A comparação não é exagero. É diagnóstico.

Fogos de artifício reproduzem, em escala reduzida e socialmente legitimada, elementos centrais da experiência bélica. Detonação, poluição química, trauma acústico, devastação ambiental e sofrimento de inocentes. A única diferença é que, nesse caso, a violência recebe o nome de festa.

Uma sociedade que avança moralmente aprende a reconhecer quando certos hábitos se tornam incompatíveis com o conhecimento acumulado. Celebrar a vida por meio de ações que replicam o mecanismo da destruição constitui um atraso civilizatório.

É impreterível proibir, em âmbito nacional, a fabricação e a comercialização dos fogos tradicionais. Trata-se de um avanço moral tardio, mas inadiável. Não é o fim das celebrações, mas a evolução de todas elas.

Já existem alternativas tecnológicas e éticas capazes de produzir beleza sem violações, como espetáculos de drones luminosos, projeções mapeadas e feixes de luz que não ferem, não aterrorizam e não deixam destroços.

A paz, o amor, a empatia, a solidariedade etc. não se constroem com explosões, mesmo quando elas brilham.

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