O abandono de animais segue como um problema alarmante no Brasil, com milhões de cães e gatos vivendo em situação de vulnerabilidade. O tema ganhou atenção nacional nos últimos anos e passou a ser alvo de campanhas de conscientização, mas ainda faz parte da realidade de muitas famílias, mesmo sendo considerado crime. Em determinados períodos do ano, especialmente em épocas de férias e festas, os casos tendem a se intensificar, agravando um cenário já crítico.
Dados do Instituto Pet Brasil mostram que 4,8 milhões de cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade no país, número que inclui animais abandonados ou sem tutela definida. Desse total, mais de 201 mil estão sob responsabilidade de ONGs, que atuam no resgate, acolhimento e cuidados básicos desses animais. A diferença entre o número de animais vulneráveis e a capacidade de atendimento das organizações evidencia a dimensão do problema e os limites da atuação voluntária.
Segundo a médica veterinária Ana Lucia Baldan, mestre em Ciências pelo programa de Psicobiologia com ênfase em Etologia Animal da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, o abandono não ocorre por um único motivo, mas está diretamente ligado à forma como muitos animais são adotados. Para ela, “o abandono é multifatorial, mas está fortemente associado à adoção ou à aquisição sem planejamento”, já que muitas pessoas adotam por impulso, “sem considerar custos, tempo, mudanças de rotina ou até as necessidades comportamentais do animal”. Esse tipo de decisão, tomada sem reflexão, tende a gerar frustração quando surgem dificuldades no convívio.
Entre essas dificuldades, a especialista lista o obstáculo da inadequação do animal ao novo ambiente, algo que pode levar ao abandono. “Problemas de comportamento como medo, ansiedade ou agressividade, muitas vezes consequência do manejo inadequado, estão entre os principais motivos de abandono”, afirma. Situações comuns do processo de adaptação acabam sendo vistas como problemas definitivos, o que leva à desistência da guarda responsável.
Além disso, mudanças na vida dos tutores contribuem significativamente para esse cenário. Conforme explica a médica veterinária, “mudanças na vida do tutor como viagens, troca de residência, desemprego ou separações também contribuem significativamente para esse cenário acontecer”. Essas transformações, quando não são previstas no momento da adoção, recaem diretamente sobre os animais, que acabam sendo abandonados ou entregues a instituições.
Na ponta desse processo estão as Organizações Não Governamentais (ONGs) de proteção animal, que lidam diariamente com as consequências do abandono. Andrea Bombonato, diretora da ONG Focinhos S.A., de Ribeirão Preto, relata que há períodos em que a procura por acolhimento aumenta de forma expressiva, especialmente no fim do ano. Segundo ela, muitos animais chegam à ONG após serem deixados para trás durante viagens ou quando os tutores não conseguem mais manter os cuidados necessários, o que sobrecarrega equipes, espaços e recursos financeiros.
Para Andrea, a repetição desses casos evidencia um problema estrutural. “Muita gente ainda vê o animal como algo descartável, que pode ser deixado para trás quando vira um incômodo”, afirma. De acordo com ela, essa visão contribui para ciclos constantes de abandono, sobretudo quando os tutores não estão dispostos a lidar com responsabilidades de longo prazo.
A diretora também chama atenção para o impacto emocional sofrido pelos animais resgatados. “Além dos problemas físicos, muitos chegam extremamente assustados, desconfiados, alguns com sinais claros de trauma”, relata. Segundo Andrea, o abandono afeta diretamente o comportamento dos animais, dificultando inclusive processos de socialização e futuras adoções.
Outro ponto destacado é a falsa ideia de que entregar um animal para uma ONG não configura abandono. “Muitas pessoas acreditam que, ao deixar o animal na porta da ONG ou pedir ajuda, estão resolvendo o problema, mas isso também é uma forma de abandono”, explica. Para ela, a responsabilidade deve ser pensada antes da adoção, e não transferida quando surgem dificuldades.
Andrea ressalta ainda que o trabalho das ONGs depende quase exclusivamente de doações e voluntariado. “A gente não tem apoio fixo, não tem verba pública contínua. Tudo funciona com doações, rifas, ajuda da população”, afirma. Essa instabilidade financeira, segundo ela, limita o número de resgates e compromete o atendimento ideal aos animais.
Ana Lucia reforça que compreender o que é adoção responsável é fundamental para evitar novos casos de abandono. “Quando as pessoas vão pensar em adotar um animalzinho, tem que sempre ter em mente para fazer uma adoção responsável”, explica, ressaltando que isso envolve avaliar se aquele é o momento adequado da vida, considerando rotina, tempo disponível, condições financeiras e espaço físico. Ela também chama atenção para a decisão coletiva dentro da família, alertando que “se alguém não estiver de acordo, a possibilidade, a probabilidade desse animalzinho ser devolvido ou abandonado é maior”.
Fonte: Jornal da USP