O abandono de animais segue como um problema recorrente no Brasil, com impactos que vão além do sofrimento individual e alcançam a saúde pública e a segurança. Em Alagoas, sem a estrutura suficiente estatal, o atendimento a casos de maus-tratos tem recaído sobre iniciativas pontuais, que operam com recursos limitados, como é o caso da unidade de Viçosa da Ufal (Universidade Federal de Alagoas).
No local, o Grupo de Pesquisa e Extensão em Equídeos (Grupequi) vem realizando atendimento veterinário a animais vítimas de abandono, violência e negligência. Em três anos, foram mais de mil atendimentos, sem contar as cerca 400 castrações realizadas como tentativa de controle populacional.
Segundo o fundador da grupo, Pierre Escodro, professor do curso de Medicina Veterinária da Ufal, dezenas de animais permanecem sob cuidados contínuos, sem apoio financeiro regular do poder público. O cenário inclui desde casos de abandono doméstico até episódios de violência extrema.
“Animais deixados em correntes após mudança dos donos, vítimas de atropelamentos intencionais ou de agressões físicas, e até casos de abuso sexual aparecem entre os registros”, relata. Parte deles exige tratamento de longo prazo ou cuidados permanentes, o que amplia os custos e a pressão sobre as equipes.
Além do impacto direto sobre os animais, os especialistas da Grupequi associam esse tipo de violência a um padrão mais amplo. A chamada “teoria do elo” indica que agressores de animais frequentemente também cometem violência contra pessoas, incluindo mulheres e crianças.
A relação tem sido observada em investigações policiais e reforça a necessidade de tratar o problema como questão de segurança pública. Segundo o professor Escodro, levantamento realizado a partir dos atendimentos e de necrópsias feitos na UFAL revela dezenas de registros de envenenamento, negligência, afogamento e agressões. A maioria dos casos envolve animais de pequeno porte, mas há também equinos e outros animais maiores em situação crítica.
“Apesar de o abandono e os maus-tratos serem crimes previstos em lei, com possibilidade de multa e prisão, a aplicação das normas ainda é irregular. Na prática, a resposta depende de denúncias e da atuação de redes locais formadas por universidades, polícia e organizações da sociedade civil”, diz.
Para os integrantes da Grupequi, a solução passa menos pela criação de abrigos e mais pela estruturação de políticas públicas contínuas, com foco em educação, prevenção e controle populacional. “Sem isso, iniciativas isoladas tendem a operar no limite, absorvendo uma demanda crescente sem conseguir interromper o ciclo de abandono”, conclui o professor.