Em boa parte do imaginário coletivo, o campo ainda é visto como sinônimo de ar limpo, vida simples e distância segura da poluição moderna. Mas um novo estudo realizado em Oxfordshire virou esse cenário de cabeça para baixo ao mostrar que árvores capturam microplásticos em grande quantidade e, pior, podem concentrar mais partículas em florestas rurais do que em áreas urbanas.
Em Wytham Woods, uma floresta protegida pelo seu valor ecológico nos arredores de Oxford, os pesquisadores registraram entre 12 e 500 microplásticos por metro quadrado por dia, com picos quase duas vezes maiores do que no centro da cidade. O que se pensava ser um refúgio de ar puro se revelou um sumidouro eficiente de poluição plástica atmosférica, invisível para quem caminha sob as árvores, mas mensurável em cada amostra de solo e de deposição.
O mito do ar puro no campo desafiado pelos dados
Durante três meses de monitoramento, o estudo comparou a deposição de partículas em três cenários distintos: a floresta rural de Wytham Woods, a área suburbana de Summertown e o centro urbano de Oxford. O resultado foi contraintuitivo: a floresta acumulou mais microplásticos por dia do que a própria cidade.
Não se trata de sacolas plásticas voando, copos descartáveis largados em trilhas ou lixo visível a olho nu. O foco aqui são partículas microscópicas, suspensas no ar, que se depositam lentamente sobre o solo.
Em Wytham Woods, essa deposição chegou a até 500 partículas por metro quadrado por dia, mostrando que o ambiente rural não está isolado da poluição plástica que produzimos em massa nas cidades e nos polos industriais.
Ao mesmo tempo, os centros urbanos seguiram exibindo outro tipo de protagonismo: maior diversidade de plásticos e uma assinatura química diretamente relacionada ao consumo intenso e à atividade industrial. O que muda é o “papel” da paisagem: a cidade emite, a floresta captura.
Como as árvores capturam microplásticos e concentram a poluição
O mecanismo central identificado pelos cientistas é simples e perturbador: árvores capturam microplásticos de forma extremamente eficiente.
Folhas, galhos, troncos e até a irregularidade das copas funcionam como uma malha tridimensional que intercepta partículas que flutuam na atmosfera.
À medida que o ar passa pela floresta, as árvores atuam como filtros naturais, retendo fragmentos de plástico que depois se desprendem e caem, misturando-se à serapilheira e ao solo.
O que parecia apenas benefício, remover parte da poluição do ar, vem com um efeito colateral: a concentração de microplásticos em ecossistemas que não são os principais responsáveis pela sua emissão.
Outro dado que chama a atenção é o tamanho dessas partículas. Até 99% dos microplásticos detectados eram minúsculos, invisíveis a olho nu, com dimensões inferiores a 100 micrômetros.
São fragmentos leves o suficiente para permanecer em suspensão por longos períodos, viajar grandes distâncias com as correntes de ar e atravessar fronteiras sem qualquer barreira física.
Em outras palavras, não é apenas a cidade que respira plástico. Quando árvores capturam microplásticos em áreas rurais, elas denunciam o caráter global da poluição, que alcança do centro urbano à floresta mais “intocada” do mapa.
A “impressão digital” dos plásticos no ar de Oxford
Para entender não só quanto plástico chegava ao solo, mas também que tipo de plástico estava em circulação, os pesquisadores utilizaram um espectroscópio FTIR de alta resolução.
Essa técnica permite identificar a composição química das partículas a partir da forma como elas absorvem luz infravermelha.
O resultado foi uma espécie de impressão digital química do ar:
- Wytham Woods, a floresta rural, apresentou predominância de PET (polietileno tereftalato), muito associado a roupas sintéticas e embalagens de alimentos.
- Em Summertown, área suburbana, o destaque foi o polietileno, típico de sacolas e embalagens plásticas comuns.
- No centro de Oxford, dominou o álcool etileno-vinílico (EVOH), um polímero usado em embalagens multicamadas e componentes industriais.
Ao todo, foram identificados 21 tipos diferentes de plásticos, distribuídos em quatro faixas de tamanho. Cada ambiente, urbano ou rural, carrega sua própria combinação de polímeros, refletindo padrões de consumo, descarte e circulação atmosférica.
Quando as árvores capturam microplásticos, elas também arquivam silenciosamente a história química da nossa economia.
Vento, chuva e o caminho invisível das partículas
O estudo também mostrou que o clima não é coadjuvante: ele é protagonista na forma como os microplásticos se movem e se depositam.
Em períodos de alta pressão e atmosfera estável, a deposição de partículas diminuiu, indicando menos fluxo de material sendo transferido pela coluna de ar.
Quando os ventos ficaram mais intensos, especialmente vindos do nordeste, os números dispararam, alimentando a floresta e a cidade com novas cargas de microplásticos transportados a distância.
A chuva exerceu um papel ambivalente. Em geral, reduziu a quantidade total de partículas coletadas – como se estivesse “lavando” o ar, mas, nas amostras que chegavam ao solo, as partículas tendiam a ser maiores.
A água, nesse caso, funciona como um mecanismo de arraste para fragmentos mais pesados, enquanto os menores continuam viajando.
Tudo isso reforça uma ideia incômoda: os microplásticos não só existem, eles circulam, pulando de um cenário para outro de acordo com padrões de vento, estabilidade atmosférica e regimes de chuva. Quando o clima muda, muda também o mapa de onde as árvores capturam microplásticos.
Risco de inalação: cidade e campo no mesmo problema
Se o campo recebe mais deposição em alguns momentos e a cidade concentrou maior diversidade de plásticos, o impacto para a saúde humana converge para o mesmo ponto: inalação de microplásticos não é um problema exclusivamente urbano.
As partículas detectadas em Oxfordshire são pequenas o bastante para atravessar vias aéreas superiores e alcançar regiões mais profundas do sistema respiratório. A ciência ainda investiga em detalhe o que acontece depois, mas já há preocupações claras:
- Interação com tecidos dos pulmões;
- Possível transporte de aditivos químicos presentes nos plásticos;
- Capacidade de carregar microrganismos aderidos à superfície das partículas.
O estudo sugere que, do ponto de vista da exposição respiratória, respirar ar em uma floresta onde árvores capturam microplásticos não garante proteção automática em relação à cidade.
A poluição plástica se comporta como um poluente atmosférico de alcance global, e não como um resíduo restrito a ruas movimentadas ou lixões a céu aberto.
Florestas como sumidouros duplos: carbono e microplástico
Do ponto de vista ecológico, o acúmulo de microplásticos em solos florestais abre uma frente inteira de perguntas. Esses fragmentos podem se misturar à camada de folhas em decomposição, penetrar no solo e interagir com fungos, bactérias e invertebrados que sustentam as cadeias alimentares da floresta.
Além disso, muitos plásticos levam consigo aditivos e estabilizantes químicos. Em um ambiente natural, esses compostos podem ser liberados lentamente, afetando a qualidade do solo e das águas subterrâneas em um processo de poluição crônica, silenciosa e cumulativa.
Há também uma dimensão simbólica difícil de ignorar. As florestas são vistas, com razão, como sumidouros de carbono e refúgios de biodiversidade.
Agora, o estudo mostra que elas também funcionam como sumidouros de poluição plástica atmosférica.
Em última instância, quando árvores capturam microplásticos em Wytham Woods, elas estão absorvendo um pedaço do nosso estilo de vida, mesmo que esse estilo de vida esteja centrado a centenas de quilômetros dali, em grandes cidades, cadeias produtivas e rotinas de consumo que jamais verão aquela floresta de perto.
O problema deixa de ser apenas “cidade suja versus campo limpo” para se tornar uma história de ciclos globais, onde cada embalagem, tecido sintético ou plástico descartado em qualquer lugar do mapa pode, cedo ou tarde, terminar na copa de uma árvore distante.
A pergunta que fica é direta: sabendo que as árvores capturam microplásticos e que nem o campo garante mais um “ar puro”, o que você acha que deveria mudar primeiro: os nossos hábitos de consumo diário ou a forma como governos regulam o uso e o descarte de plástico no mundo?
Fonte: Click Petróleo e Gás