A morte cruel do cão comunitário Orelha, a destruição das casinhas de cães em Nova Lima e o crescimento generalizado da violência não são fatos isolados. Eles se conectam por um fio comum: a banalização do mal e o progressivo esvaziamento da empatia nas relações sociais.
Quando presenciamos uma injustiça ou uma violência e ela não nos afeta — quando uma pessoa caída na rua se torna paisagem, quando a presença de pessoas em situação de rua nos incomoda mais do que sua dor — algo em nós já adoeceu. A indiferença não é neutra: ela é um sintoma social.
Hannah Arendt, ao tratar da banalidade do mal, não falava de monstros excepcionais, mas de pessoas comuns que deixaram de pensar eticamente sobre seus atos. O mal, nesse sentido, não nasce necessariamente da perversidade, mas da normalização da crueldade, da ausência de reflexão moral e do deslocamento da responsabilidade individual em relação ao coletivo.
Christopher Lasch, em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia, amplia esse diagnóstico ao mostrar como as elites contemporâneas se afastaram quase completamente das bases sociais. Diferentemente das velhas aristocracias — que, embora distantes, ainda mantinham algum compromisso com as comunidades —, o chamado old money atual se desvincula do território, do pertencimento e do cuidado com o entorno.
O resultado é uma sociedade em trincheiras: cresce o desprezo pelo pobre, a violência contra as mulheres, o culto às armas como solução de conflitos e o despudor da agressividade cotidiana.
Somado a isso, vivemos um processo intenso de individualização, aprofundado pela digitalização da vida. O sujeito passa a existir em bolhas, cada vez mais isolado, sem espaços reais de escuta e pertencimento.
Byung-Chul Han descreve esse cenário ao falar da sociedade do desempenho: um mundo em que todos estão exaustos, pressionados a performar melhor do que os outros. A educação transforma-se em um campo de competição permanente.
Zygmunt Bauman, por sua vez, alerta para as relações líquidas: vínculos frágeis, descartáveis, sem compromisso com o cuidado e com o tempo.
Quando os laços sociais deixam de cumprir sua função ética, a crueldade emerge sem freios. O sujeito passa a habitar um mundo paralelo onde tudo é permitido, colocando em risco vidas humanas e não humanas.
Não há respostas simples para problemas complexos, mas há sinais claros de alerta. Precisamos nos perguntar: estamos vivendo em comunidade ou apenas coexistindo? Estamos cuidando ou apenas competindo?