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ESTUDO

55% da vegetação original do Cerrado foi perdida, estima estudo

Bioma, que armazena até 90% de seu carbono no subsolo, está ameaçado pelo desmatamento, pelo fogo e pela expansão agrícola

21 de janeiro de 2026
Carina Gonçalves
5 min. de leitura
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Vista aérea de vaqueiros pastoreando gado em Goiás, no Cerrado brasileiro. Foto: Getty Images

Uma nova revisão científica publicada na revista Nature Conservatioem 9 de janeiro alerta para a dimensão da crise ambiental que o Cerrado brasileiro atravessa. Segundo o estudo, mais de 55% da vegetação nativa do bioma foi perdida nas últimas cinco décadas, principalmente devido à expansão da agricultura.

O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional, e desempenha um papel central no equilíbrio ambiental do país. Embora historicamente tenha recebido menor visibilidade no debate ecológico em comparação a outros biomas. O bioma abriga as principais bacias hidrográficas brasileiras e sustenta aquíferos estratégicos para o abastecimento de água, a produção de energia e o agronegócio.

Uma das características mais singulares do Cerrado é o que os pesquisadores chamam de “floresta invertida”. Diferentemente das florestas tropicais, onde a maior parte da biomassa está acima do solo, aproximadamente 90% do carbono do Cerrado é armazenado no subsolo, em sistemas radiculares profundos e extensos. Essa estrutura faz do bioma um importante regulador hídrico e um dos principais sumidouros de carbono do país.

O problema, segundo os autores, é que a degradação causada pelo desmatamento, pelo uso inadequado da terra e por incêndios provocados pela ação humana libera rapidamente esse carbono armazenado, agravando a instabilidade climática.

Fogo fora de controle

Embora parte da vegetação do Cerrado seja adaptada a ciclos naturais de fogo, o estudo destaca que quase todos os incêndios atuais têm origem humana. A intensificação dessas queimadas provoca um processo de degradação cumulativa que ameaça diferentes formações do bioma.

Essa dinâmica afeta também as espécies de animais, como você vê abaixo. Estima-se que pelo menos 8,6% das plantas nativas, 11,3% dos mamíferos, 5,09% dos pássaros, 5,14% dos anfíbios, 4,77% dos répteis, 2,5% dos peixes e 0,5% dos invertebrados estejam ameaçados.

Distribuição percentual das espécies ameaçadas no Cerrado entre diferentes grupos biológicos, com base em dados adaptados de fontes nacionais e internacionais, incluindo a Lista Vermelha da IUCN, o portal Flora e Fungos do Brasil, a lista oficial do MMA, estudos recentes sobre vertebrados terrestres e peixes de água doce, além de informações sobre invertebrados da Embrapa. Foto: Walisson Kenedy-Siqueira, CC BY

“O Cerrado não é uma savana única, mas um mosaico interdependente de campos, savanas e florestas, cada um com estruturas, processos ecológicos e vulnerabilidades distintas”, afirmam os autores ao blog da editora Pensoft.

Outro ponto central da pesquisa é a crise hídrica que avança de forma menos visível, mas com impactos crescentes. A expansão da agricultura irrigada, o uso de agrotóxicos e a construção de barragens têm alterado o equilíbrio natural da água, reduzindo a vazão dos rios e degradando áreas essenciais para a regulação hídrica, como as veredas. Entretanto, o estudo também relata que os setores do agronegócio e da energia, responsáveis por parte significativa da pressão sobre o Cerrado, são também os mais dependentes desses recursos hídricos, hoje cada vez mais escassos.

Conservação insuficiente

A revisão também evidencia um padrão: apesar da enorme biodiversidade do Cerrado, plantas e invertebrados, os grupos mais ameaçados, são também os menos estudados e monitorados. Atualmente, apenas cerca de 8% do Cerrado está protegido por Unidades de Conservação, e menos de 3% conta com proteção integral.

Como parte do estudo, os autores elaboraram um inventário detalhado das 706 Unidades de Conservação existentes no bioma, com o objetivo de subsidiar políticas públicas e estratégias de preservação.

“A conservação eficaz exige o reconhecimento do Cerrado como um hotspot de biodiversidade, com instrumentos legais específicos capazes de proteger toda a sua heterogeneidade ecológica”, afirmam os autores.

A exigência atual de 20% de Reserva Legal, prevista no Código Florestal, não contempla a complexidade do bioma. Entre as recomendações estão o aumento desse percentual para pelo menos 35%, a adoção de sistemas agrícolas regenerativos e o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, cujo conhecimento tradicional tem sido fundamental para a manutenção do equilíbrio ecológico do Cerrado ao longo de milhares de anos.

Fonte: Um só Planeta

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