Uma nova revisão científica publicada na revista Nature Conservation em 9 de janeiro alerta para a dimensão da crise ambiental que o Cerrado brasileiro atravessa. Segundo o estudo, mais de 55% da vegetação nativa do bioma foi perdida nas últimas cinco décadas, principalmente devido à expansão da agricultura.
O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional, e desempenha um papel central no equilíbrio ambiental do país. Embora historicamente tenha recebido menor visibilidade no debate ecológico em comparação a outros biomas. O bioma abriga as principais bacias hidrográficas brasileiras e sustenta aquíferos estratégicos para o abastecimento de água, a produção de energia e o agronegócio.
Uma das características mais singulares do Cerrado é o que os pesquisadores chamam de “floresta invertida”. Diferentemente das florestas tropicais, onde a maior parte da biomassa está acima do solo, aproximadamente 90% do carbono do Cerrado é armazenado no subsolo, em sistemas radiculares profundos e extensos. Essa estrutura faz do bioma um importante regulador hídrico e um dos principais sumidouros de carbono do país.
O problema, segundo os autores, é que a degradação causada pelo desmatamento, pelo uso inadequado da terra e por incêndios provocados pela ação humana libera rapidamente esse carbono armazenado, agravando a instabilidade climática.
Fogo fora de controle
Embora parte da vegetação do Cerrado seja adaptada a ciclos naturais de fogo, o estudo destaca que quase todos os incêndios atuais têm origem humana. A intensificação dessas queimadas provoca um processo de degradação cumulativa que ameaça diferentes formações do bioma.
Essa dinâmica afeta também as espécies de animais, como você vê abaixo. Estima-se que pelo menos 8,6% das plantas nativas, 11,3% dos mamíferos, 5,09% dos pássaros, 5,14% dos anfíbios, 4,77% dos répteis, 2,5% dos peixes e 0,5% dos invertebrados estejam ameaçados.
“O Cerrado não é uma savana única, mas um mosaico interdependente de campos, savanas e florestas, cada um com estruturas, processos ecológicos e vulnerabilidades distintas”, afirmam os autores ao blog da editora Pensoft.
Outro ponto central da pesquisa é a crise hídrica que avança de forma menos visível, mas com impactos crescentes. A expansão da agricultura irrigada, o uso de agrotóxicos e a construção de barragens têm alterado o equilíbrio natural da água, reduzindo a vazão dos rios e degradando áreas essenciais para a regulação hídrica, como as veredas. Entretanto, o estudo também relata que os setores do agronegócio e da energia, responsáveis por parte significativa da pressão sobre o Cerrado, são também os mais dependentes desses recursos hídricos, hoje cada vez mais escassos.
Conservação insuficiente
A revisão também evidencia um padrão: apesar da enorme biodiversidade do Cerrado, plantas e invertebrados, os grupos mais ameaçados, são também os menos estudados e monitorados. Atualmente, apenas cerca de 8% do Cerrado está protegido por Unidades de Conservação, e menos de 3% conta com proteção integral.
Como parte do estudo, os autores elaboraram um inventário detalhado das 706 Unidades de Conservação existentes no bioma, com o objetivo de subsidiar políticas públicas e estratégias de preservação.
“A conservação eficaz exige o reconhecimento do Cerrado como um hotspot de biodiversidade, com instrumentos legais específicos capazes de proteger toda a sua heterogeneidade ecológica”, afirmam os autores.
A exigência atual de 20% de Reserva Legal, prevista no Código Florestal, não contempla a complexidade do bioma. Entre as recomendações estão o aumento desse percentual para pelo menos 35%, a adoção de sistemas agrícolas regenerativos e o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, cujo conhecimento tradicional tem sido fundamental para a manutenção do equilíbrio ecológico do Cerrado ao longo de milhares de anos.
Fonte: Um só Planeta