CICLO VICIOSO            

Mudanças climáticas tornam a agropecuária ainda mais poluente

Uma das consequências da crise climática é a redução de proteína e o aumento de lignina (substância indigerível pelos animais) no pasto. Ao consumirem a vegetação nessas condições, os bois produzem mais gás metano, que alimenta o efeito estufa e, portanto, estimula as mudanças climáticas, gerando outro ciclo vicioso e bastante perigoso            
(Foto: AFP)

O calor e a escassez de água gerados pelas mudanças climáticas tornam a pecuária ainda mais poluente. Trata-se de um ciclo vicioso no qual a agropecuária impulsiona as mudanças climáticas através da devastação ambiental promovida pelo setor e, em contrapartida, torna-se ainda mais poluente por conta do avanço das mudanças climáticas. Isso ocorre pelo aumento de substâncias no pasto que, ao serem ingeridas pelos bois, os levam a produzir mais gás metano através do processo digestivo.

O aumento da devastação ambiental causada pela agropecuária como consequência da crise do clima foi analisado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, do campus de Ribeirão Preto, no interior do estado paulista. Durante dez anos, os cientistas simularam efeitos do aumento da temperatura e da redução de água sobre o pasto usado para alimentar 90% dos bois explorados para consumo no Brasil.

Uma das consequências da crise climática é a redução de proteína e o aumento de lignina (substância indigerível pelos animais) no pasto. Ao consumirem a vegetação nessas condições, os bois produzem mais gás metano, que alimenta o efeito estufa e, portanto, estimula as mudanças climáticas, gerando outro ciclo vicioso e bastante perigoso.

Nesse cenário, a qualidade das folhas também cairá, levando a duas possibilidades: bois mais magros ou animais com alimentação complementada com grãos como soja e milho. Além disso, a redução na oferta de água se tornará um problema para a agropecuária, já que os bois precisarão cada vez mais do líquido, por conta do calor excessivo, mas sofrerão com a escassez.

“Lá na USP Ribeirão Preto, nós temos uma estrutura montada para simular o clima futuro. Basicamente: o incremento do CO2 [gás carbônico, principal responsável pelo efeito-estufa], o aumento da temperatura e a falta de água”, afirmou ao UOL o professor Carlos Alberto Martinez Y Huaman, do departamento de Biologia da USP em Ribeirão Preto.

“Nosso objetivo principal foi fazer uma simulação de como as pastagens poderiam responder às mudanças climáticas e ao aumento da temperatura em 2°C, ao aumento do CO2 em 50% e à restrição hídrica. Escolhemos para começar duas forrageiras brasileiras, uma gramínea e uma leguminosa, que foram cultivadas nesses ambientes modificados”, completou.

Em dez anos de estudos, os pesquisadores descobriram que o aumento de temperatura e a falta de água são muito prejudiciais para os pastos. “Não somente para a produção de biomassa, mas também para a qualidade das folhas, que é a parte da planta que os bois comem”, comentou Martinez. “Quando aumenta a temperatura e chove menos, as plantas vão produzir menos folhas e a qualidade da folha também muda: começa a cair o teor de proteína e nós encontramos uma queda entre 20% e 30%”, explicou.

“Com menos proteína e mais lignina – um polímero que os bois não conseguem digerir -, o aproveitamento do pasto pelo animal cai. Assim, ele ganha menos peso”, afirmou. “E se aumenta o teor de lignina, pode haver maior emissão de metano, um gás do efeito estufa que tem 20 vezes mais efeito de aquecimento que o CO2. Então pode causar mais problemas para as mudanças climáticas”, acrescentou.

Além disso, a microbiota do solo – nome usado para designar os microrganismos do ambiente – sofre modificações com a crise climática. “Surgem fungos patogênicos que causam doenças nas plantas”, explicou o pesquisador, que mencionou ainda que a emissão de metano não é o único problema nesse cenário, já que as emissões de óxido nitroso também podem aumentar. Mais perigoso para o clima, o óxido de nitroso tem capacidade 300 vezes maior do que o CO2 de contribuir para o aquecimento global.

“Quando se altera o ambiente e é aplicado, por exemplo, um adubo nitrogenado no pasto, pode haver uma perda grande de nitrogênio na forma de óxido nitroso. Isso tem impacto nas mudanças climáticas, contribuindo para o aquecimento global”, concluiu o cientista.

Combate à agropecuária não é discutido

Enquanto ambientalistas e ativistas pelos direitos animais reforçam a necessidade de se abolir o consumo de produtos de origem animal não só para preservar a natureza e proteger os animais, mas também para garantir que a vida humana tenha condições de existir no futuro, muitos cientistas insistem em ignorar essa realidade.

Atualmente, muito se fala em lutar contra as mudanças climáticas, preservar os recursos hídricos e, agora, também desenvolver plantas mais resistentes ao calor e à escassez de água para serem usadas na alimentação de animais explorados para consumo humano. O combate ao desmatamento também é pauta frequente.

Pouco ou nada se discute, porém, sobre a necessidade de conscientizar a população e de promover subsídios governamentais que incentivem e facilitem o consumo de vegetais – preferencialmente orgânicos – para promover a saúde humana ao mesmo tempo em que se garante a preservação ambiental.

Com isso, a humanidade segue pelo caminho de submeter animais à práticas cruéis para fabricar produtos de origem animal que se tornam cada vez mais elitistas – por conta do aumento dos preços em consequência da baixa qualidade do pasto e de outras questões relacionadas à crise do clima – e que produzem cada vez mais poluição, gerando um ciclo que, em algumas décadas, poderá ser responsável por extinguir recursos naturais como a água e, por consequência, gerar uma séria crise alimentar e ameaçar a sobrevivência humana, que também estará em xeque por causa de ondas extremas de calor.

A destruição causada pela agropecuária

Uma das atividades humanas que mais destrói o meio ambiente é a agropecuária. Em 2018, 81% das áreas desmatadas na Amazônia brasileira foram ocupadas por pastos para criar bois explorados para consumo humano, segundo levantamento realizado pela organização internacional Trase. Isso sem considerar os extensos territórios desmatados para o plantio de grãos usados na alimentação desses animais, como a soja.

Além do desmate, a agropecuária também polui o lençol freático e o solo com os dejetos dos animais, que por sua vez soltam flatulências que liberam gases de efeito estufa. Essa atividade também é responsável pelo desperdício de grandes quantidades de água – segundo dados da organização Water Foodprint, são desperdiçados 16 mil litros de água para a produção de um único quilo de carne.

Milhares de ativistas pelos direitos animais e ambientalistas alertam frequentemente para a necessidade da população mudar seus hábitos alimentares, optando pelo veganismo não só como forma de não compactuar com o sofrimento animal, mas também para proteger o meio ambiente.

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