A liberdade animal

           

Cinco liberdades bem-estaristas foram definidas na década de 60 na Inglaterra para os animais criados para abate, animais eleitos para companhia e estima, animais silvestres e animais usados para testes. Todos os animais devem estar livres de: 1) fome, sede e desnutrição; 2) medo e angústia; 3) desconfortos climáticos; 4) dor, feridas e doenças; 5) qualquer bloqueio que impeça o seu comportamento natural normal.
Trinta anos mais tarde, com o trabalho do médico veterinário bem-estarista, John Webster (livro Animal Welfare: A Cool Eye Towards Eden, 1994), mais uma liberdade foi definida como necessária para não se torturar animais: 6) liberdade assegurada a cada indivíduo animal para exercer seu próprio controle sobre a qualidade de sua vida.
Nem as cinco liberdades bem-estaristas básicas, prescritas por lei, na Inglaterra, nem a sexta liberdade acrescentada por Webster são, de fato, respeitadas em qualquer sistema que crie um animal para explorar seu corpo ainda vivo e em seguida matá-lo, ou mesmo para servir a qualquer propósito humano: vivissecção, moda, diversão.
Sir Richard D. Ryder (livro The Political Animal), considerado o mais expressivo e não especista defensor dos animais dentro da RSPCA, não satisfeito com as seis liberdades bem-estaristas, qualificou uma sexta liberdade como liberdade para expressar comportamentos sociais gratificantes para si e para os membros de seu grupo social. Na condição de Presidente da RSPCA, incluiu uma sétima liberdade bem-estarista: 7) a de o animal fazer o que lhe inspira o espírito específico para não sofrer de tédio. Aborrecimento, monotonia e impedimento da expressão do espírito específico do animal são formas de atrofiar sua mente e de bloquear suas expressões e afetos.
Do mesmo modo que se vê em humanos, há ações que não são necessárias para garantir a expressão do espírito específico de um animal, por exemplo, brigar, agredir, obter algo de modo violento, enquanto há outras que, definitivamente, compõem o modo de ser e de expressar seu ser no ambiente natural ou social no qual o animal vive. A privação dessa liberdade implica em atrofia da mente do animal.
E assim, de liberdade em liberdade, de não passar fome, sede, medo da morte intempestiva, a ter espaço de expressão de si, ainda que nos limites de não agressão a outros animais de sua própria ou de outras espécies, o bem-estarismo – corrente animalista que defende a criação, uso e abate de animais para benefício humano – foi dando bem-estar apenas à consciência de todas as pessoas que usam animais seja para qual finalidade for. Elas creem que, porque há leis dizendo-se “protetoras” dos interesses dos animais, então os animais são usados e mortos com “todo respeito”, são “abatidos humanitariamente”. E aqui paramos. Ainda estamos na estaca zero. Tudo tão claro nos textos da lei. Tudo tão contrário nas práticas animalizadas. É certo que bebês não são trazidos pela cegonha, nem o Papai Noel nos traz presentes de Natal, aboletado num trenó, puxado por renas. Ainda bem! Seria mais um uso da tração animal para transporte de luxo.
Nenhum animal estará feliz sob o domínio humano, até que seja abolida nossa crença de que nos foi dado o poder para tiranizá-lo. Nesse dia assumiremos responsabilidade pela guarda de sua vida, sem domínio algum e sem interferência sobre ela. E daí, sim, começaremos a pensar o que seja o bem da vida de um animal, o “bem próprio” de cada vida individual, não um “bem-estar” idealizado ao nosso gosto, modo e semelhança, antropomorfizado. E quando o bem próprio daquela espécie de vida animal estiver ameaçado, sairemos em socorro dela, interviremos, jamais interferindo. Intervir: ir em socorro. Interferir: ferir ao socorrer.
Bem próprio e bem-estar são conceitos distintos. Se respeitarmos o primeiro, o segundo está garantido. Mas se respeitarmos apenas o segundo, o primeiro está perdido. Isso vale para cavalos, gatos, cães, pássaros, serpentes ou qualquer outro animal sobre o qual tenhamos controle vital.
Animastê!

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