De encruzilhadas e restaurantes chiques: o império da tradição religiosa

           

Por um lado, vemos a ignominiosa hipocrisia em quem defende a matança de animais em seus próprios ritos religiosos, os da umbanda em algumas de suas vertentes, por exemplo, e apoia projeto de lei para abolir a tortura e matança de animais para ritos gastronômicos alheios.
Por outro lado, fazendo par com a hipocrisia religiosa, vemos um cinismo sem igual em alguém que emigra de seu país, onde a consciência está cada vez mais informada sobre o processo torturante que resulta na “iguaria” de fato sem igual, chamada patê de foie gras (que deveria ser traduzido em nossa língua para “pasta de fígado gordo e deformado de gansos e patos torturados”), para o nosso país, onde reina a ignorância sobre a dor, o tormento, o sofrimento e a morte daqueles animais, cujos fígados deformados pela dieta anômala e violenta são extraídos para fazer o tal do patê.
Somos o que comemos, é certo. A epigenética começa a reconhecê-lo. Há quem coma “iguarias” sem perguntar de onde elas vêm nem como foram produzidas. Torna-se, assim, a pessoa que é, pois ingere algo na mais perfeita ignorância.
Sem dúvida, somos o que comemos. E comemos iguarias animalizadas que, para estarem ali, resultaram do corpo de um animal dilacerado pela dor e sofrimento. Estamos mesmo completamente insensíveis ao que causamos àquele animal.
A comida animalizada é, sem exceção, da carne ao leite, do leite aos ovos e à pasta de fígado gordo e anômalo de gansos e patos torturados, feita de modo brutal. Se somos o que comemos, como esperar que não haja hipocrisia de um lado e cinismo brutal de outro, na mente e no coração dessa gente?
Os dogmas dietéticos são tão arraigados nas mentes onívoras quanto quaisquer dogmas religiosos. Essa tese é confirmada nas palavras do chef francês, Erick Jacquin (segundo noticiadas pelo Estadão online em 15/7/15), proprietário do Tartar&Co, migrado para o Brasil para melhor vender aqui a pasta de fígado anômalo, deformado e gordo de gansos e patos torturados, já um tanto ameaçada de extinção em sua comunidade, a europeia.
O que o chef francês nos diz é primoroso e confirma a hipótese de que dogmas alimentares são mais arraigados no corpo e na mente humana do que os dogmas religiosos o são: “O foie gras faz parte da minha cultura, eu não inventei nada. Faz dois mil anos que existe. Eu fui criado com isto, está dentro de mim – é uma religião, quase. Tem gente, por exemplo, que faz sacrifício de animais dentro da religião”.
Há quem viva espancando a família, e essa também é uma tradição milenar machista que nenhum espancador atual pode gabar-se de ter inventado. Há quem escravize e torture animais, outra tradição milenar que nenhum maltratador ou matador pode gabar-se de ter inventado. Há quem estupre crianças, deficientes, idosas, outra prática machista milenar que nenhum homem inventou hoje. Há quem faça tudo o que maltrata e mata outros para obter benefícios pessoais, outra tradição milenar que nenhum homem ou mulher inventou hoje.
Seguindo a lógica da “tradição milenar não inventada por mim”, defendida tanto por quem condena o consumo do foie gras (enquanto protege das vistas a matança de animais nos ritos de seu próprio credo), quanto por quem condena a matança ritual, baseada em crenças, mas defende a matança baseada em gostos e preferências gastronômicas, nada deveria ser abolido por nós, de qualquer tradição, pois somente quem inventou de fazer tais coisas é que responde por sua abolição, não quem as pratica religiosamente.
Estaríamos dando voltas ao círculo, se crêssemos que “tradição” é palavra que designa “sacralidade” ou autoridade moral digna de respeito. Não é. Vamos recuperar a sacralidade da vida quando abolirmos todas as tradições de matança de animais, sejam eles não humanos ou humanos.

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