Didática da provocação

           

“Antes de Sócrates, os argumentos dialéticos não eram aceitos na boa sociedade: eram considerados de mau gosto, comprometedores. Ensinava-se a juventude que devia evitá-los. Desconfiava-se de todos quantos defendiam por esse método as suas ideias.”
(Nietzsche)

Talvez a característica mais fantástica da tal rebeldia juvenil seja a provocação. São provocativos. É nessa fase turbulenta da trajetória biográfica humana que temos um abuso do ato de provocar – às vezes até o limite –, os pais, os professores e as outras “autoridades”. Parece-me que sentem um prazer quase que orgástico com tal
prática.

Também sou um grande admirador das provocações. Porém, não sigo o estilo juvenil rebelde sem causa, do tipo vou cutucar a onça com vara curta só para ver no que vai dar.

Meu método provocativo tem outras bases, uma delas é a maiêutica socrática. Sócrates dizia que era sua missão fazer partos de almas. Isso é que é missão por excelência; provocar almas adormecidas a despertarem.

Assumi de corpo e alma a máxima socrática de que “uma vida irrefletida não vale apena ser vivida”, penso que isso é dialético. Procuro em sala de aula provocar meus alunos a acordarem desse profundo sono dogmático especista reprodutor e legitimador com tanta força todos os dias no ambiente escolar no que se refere às suas relações com os outros animais. Eles e elas dormem. O colchão, o sofá, a rede do especismo são por demais aconchegantes.

Nenhum jovem gosta de ser contrariado, mas é aí que eu trabalho, provocando-o a pensar, a repensar as suas bases especistas; ficam irritados, obviamente. Questiono também a obviedade dessa irritação. O que é? Por que é? Como é? Interrogações características da atitude filosófica. É um trabalho muitas vezes inglório, tentar fazer adolescentes dizerem não aos preconceitos e crenças do dia-a-dia, assumindo-se ignorantes, admitirem que realmente não sabem o que “achavam” saber, e depois da
admiração (segundo Platão) ou do espanto (segundo Aristóteles) causado por essa descoberta de que agora só se sabe que não sabe, buscar a mudança prática.

Pois teorizar, falar e gritar para alguns ouvirem o que é justificável do ponto de vista ético e não movimentar, agir para tal reflexão tornar-se uma práxis é a mais pura perda de tempo; “considero”, como Nietzsche, “inútil qualquer palavra que tenha sido escrita sem ter como respaldo [uma] incitação à ação”. Para os bilhões de animais não humanos que estão nesse momento sendo torturados, mutilados e assassinados de nada vale teorias, academicismos; o fundamental para eles é a prática. É a atitude de não consumi-los que os poupa de ter a vida abreviada depois de longo sofrimento psicofísico. Não tenho dúvidas de que, para quem vive no mundo das ideias, a minha apologia à prática é quase uma heresia. Tanto que foram necessários mais de mil anos de filosofia especulativa para que um barbudo alemão tivesse o seguinte insight: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é mudá-lo”.

Provocar uma alma adormecida para que ela coloque em movimento um corpo adormecido. E não existem provocações mais fortes do que as perpetradas pela filosofia crítica dialética. A irritação dos jovens alunos é devida a essa atitude crítica da filosofia (incorporada na educação vegana formal que por enquanto eu sigo) que submete seus valores, ideias e costumes especistas a um exame racional, detalhado, sem preconceitos, julgando e discernindo corretamente. Quem não ficaria irritado (incomodado) ao ser acordado com um susto, pois alguém ateou fogo em seu colchão, ou no seu sofá, ou na sua rede; tudo isso tendo ocorrido após esse incendiário ter entrado na sua caverna do comodismo onde dormia às marretadas (às vezes eu uso explosivos)?

Tenho que reconhecer que essa luta de provocadores, alunos de um lado e eu do outro, é desleal; pois quebro, inutilizo, imobilizo as provocações pueris deles com uma provocação demasiadamente profunda, séria e adulta. Às vezes me vejo usando um arsenal bélico extremamente letal contra paus e pedras. Obviamente eles relutam através da tal irritação como disse, mas não conseguem permanecer por muito tempo de pé diante do arsenal filosófico crítico dialético da educação vegana formal. Não só eles, mas o corpo burocrático escolar, os outros docentes e seus pais, todos esquizofrênicos morais.

Diariamente sou provocado no ambiente escolar com piadinhas, devolvo provocando sua cultura especista naturalizada, sua “interiorização da exterioridade”; incomodo (provoco) racionalizando uma aparente simples piadinha mostrando as implicações práticas dessa “brincadeira”. Não raro piadas sexistas redundam em misoginia e violência doméstica; piadas homofóbicas em espancamento em vias públicas, e piadas especistas em manutenção do status de coisas, propriedade, atribuído há milênios aos outros animais.

Pois bem, esse é um dos deveres da educação vegana formal; provocar a letargia, o sono dogmático especista dos adolescentes, a ignorância, o quietismo, a má-fé, o comodismo psicofísico, o espírito de seriedade herdado pelos alunos; provocar o pensamento a se repensar, a rebeldia sem causa a ter uma causa pela qual se rebelar. A didática da provocação se fundamenta na maiêutica socrática. Somente através do fundamento filosófico crítico dialético da educação vegana poderemos conduzir a atual juventude da menoridade à maioridade, da heteronomia à autonomia. Um filólogo alemão disse que “os homens necessitam constantemente de parteiras”. Educadores veganos, assumam sua missão de parteiros, precisamos fazer nascer uma nova geração genuinamente ética.

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