Alimentação, ética e ativismo de um vegano

Guilherme Carvalho: debate sobre veganismo é uma discussão séria que envolve ética e valores (Foto: Arquivo pessoal)

Em pleno bairro do Derby, região central do Recife, que concentra diversas opções gastronômicas, Guilherme Carvalho, 22, encontra dificuldades para achar um restaurante que lhe ofereça opções alimentares variadas. Um problema que pode parecer estranho principalmente por ser na hora do almoço, mas que é recorrente para os veganos da cidade.

O biólogo e ativista pelos direitos dos animais que adotou o veganismo, postura de não consumir nenhum alimento de origem animal – incluídos ovos e laticínios -, já está acostumado com estes entraves quando tenta fazer refeições fora de casa. Como não existem no Recife restaurantes onívoros que possibilitem a substituição de carne por soja, a solução é comprar um tradicional prato de arroz e feijão ou procurar uma das poucas opções de restaurantes vegetarianos.

Apesar das dificuldades, a mudança de hábito de Carvalho, que começou há quase quatro anos, vem se tornando mais consistente e plena de argumentos. Suas primeiras inquietações surgiram com o filme Conheça a sua carne, mas a mudança de comportamento só veio mais tarde, quando teve acesso ao documentário A carne é fraca, no final de 2006, e se tornou vegetariano, interrompendo o consumo de carne.

Ativistas

Para além da mudança individual, o envolvimento do biólogo com o confinamento e abate de animais se tornou contínuo e, ainda na faculdade, ele ajudou a fundar o grupo dos Ativistas pelos Direitos dos Animais. Este interesse pelos estudos sobre as implicações éticas no ato de comer levou Guilherme a participar do I Congresso Mundial de Bioética Animal em outubro de 2008.

O Congresso, que reuniu grandes estudiosos do assunto tanto do Brasil (como o promotor de justiça Laerte Levai) quanto do mundo (como o filósofo Gary Francione), foi, para ele, um divisor de águas. A partir desse evento, o então estudante de ciências biológicas percebeu que o vegetarianismo ainda era eticamente frágil, já que a produção de ovos e leite também é conduzida de forma cruel na nossa sociedade. Guilherme, então, adotou o veganismo.

A escolha trouxe várias implicações na saúde e, no início, o ativista perdeu peso. Esse quadro exigiu uma reformulação madura no cardápio e estudos sobre composição alimentar. A partir daí, ele percebeu que é possível suprir todos os nutrientes necessários a uma vida saudável seguindo uma dieta vegana, exceto a vitamina B12, que precisa ser suplementada.

Receita

Atualmente, Guilherme toma uma vitamina ao acordar, preparada com leite de soja, açúcar, chocolate em pó, germe de trigo, semente de linhaça e castanha-do-pará. No almoço, além dos tradicionais arroz e feijão, também inclui soja, verduras e legumes. À noite, as opções são mais variadas, mas entre as preferidas estão o hambúrguer de soja e a sopa de ervilhas.

Essa mudança pessoal afetou sensivelmente a feira da família, pois o atual vegano era o principal consumidor de alimentos como requeijão, salsicha e presunto na casa. Os pais respeitam a opção do filho e reconhecem a consistência do argumento abolicionista – pelo fim da vida animal como propriedade -, mas não modificaram seus hábitos, apenas a feira.

O curta Atave – a avicultura escancarada, no qual o biólogo filmou as condições dos animais confinados e o abate das aves, é também um aliado na difusão do seu discurso e já mobilizou várias pessoas. Mas, ao contrário do que parece, o veganismo não tem aceitação em todos os lugares em que chega. Muitas vezes, Guilherme encontra oposição quando está exercendo seu hábito de não comer carne, mesmo que não esteja argumentando a favor. Ele entende que esse pode ser um mecanismo de defesa de pessoas que não estão dispostas a discutir o assunto e que, por isso, atacam gratuitamente.

Assista

Hoje, um ano depois de formado e trabalhando para a ONG The Humane Society of the United States, o ativista continua aberto a discutir sobre a causa. Quando questionado sobre a falta dos alimentos dos quais abdicou, hesita, mas confessa que adorava sushi e pizza. Agora, se questionado sobre o veganismo ser uma postura alimentar ideal, responde categoricamente: “Em termos éticos, sem dúvida. É a postura da não violência”.

Fonte: JC Online

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