Material didático de apoio (parte I)

           

Durante meu ano letivo, recorro a três tipos de materiais para transmitir conhecimentos básicos sobre os direitos animais e seus fundamentos éticos, incluindo o modo de vida vegano; os três tipos de materiais são os seguintes:

1. Os filmes: Matrix (o 1º da trilogia), A Ilha, o Show de Truman, e os documentários A Carne é Fraca, Não Matarás, Earthlings e A Life Connected;
2. A Revista dos Vegetarianos e artigos não acadêmicos;
3. As obras de teóricos do movimento de direitos animais e artigos acadêmicos.

Por hora, apresentarei o uso do 1º material didático de apoio, o audiovisual.

Os três filmes são fundamentais para introduzirmos a problemática dos direitos animais na sala de aula do ensino médio. Utilizo-os como uma representação cinematográfica da alegoria da caverna – no seu aspecto político-pedagógico e epistemológico – apresentada por Platão no livro VII da República. Os personagens principais desses filmes, Neo, Lincoln Six-Echo, Jordan Two-Delta e Truman Burbank, passam pelo mesmo processo de libertação que o prisioneiro da alegoria da caverna: eles saem do mundo das aparências, das crenças costumeiras, opiniões e preconceitos sobre os simulacros que acreditam ser reais para o luzente mundo real. É o poder da aletheia; desvelamento alcançável somente pela via da dúvida, do espanto e da admiração. Admiração com o que está dado, com o costumeiro, espantar-se com o óbvio.

Dentre as opções de como trabalhar com as filosofias em sala de aula eu prefiro a temática, e dentro desta me foco nos conceitos (a especificidade da Filosofia1). A princípio quando cito, indico e passo um desses filmes no início do ano letivo, não faço nenhuma referência aos direitos animais e ao veganismo – meu objetivo são os conceitos de alienação, ideologia, realidade e verdade. Os personagens vivem em um mundo que acreditam ser real; depois de muito questionar e de passar por um doloroso aprendizado, descobrem o “deserto do real”.

Apresento, a partir desses filmes, os conceitos marxianos de alienação e ideologia e de realidade e verdade, caros a toda História da Filosofia, com o objetivo de desvelar tudo o que vemos, sentimos, tocamos e desejamos.

Quando inicio os documentários sobre o modo exploratório e desrespeitoso direcionado aos outros animais, começa, de fato, a busca pela saída da caverna. Depois de muito debate, confronto (por parte dos alunos), ‘caras e bocas’, estendidos por quase oito meses. Muitos começam a entender que Neo, Lincoln Six-Echo, Jordan Two-Delta e Truman são eles mesmos, que o mundo de aparências do qual eles precisam se libertar é o crença de que se alimentar, vestir, divertir e pesquisar às custas de outros animais, sencientes ou não, é natural. Por mais paradoxal que pareça para o senso comum, essa libertação mental não é nada fácil dentro do ambiente escolar, por se tratar de um espaço que é, por excelência, o lugar da reprodução e legitimação da ideia de que todo nosso capital cultural especista é natural.

O vômito e mal-estar de Neo após voltar da viagem a Matrix com Morpheus, após as boas-vindas ao deserto do real; o choque e espanto de Lincoln Six-Echo e Jordan Two-Delta ao descobrirem que os sorteados (os produtos) pela loteria não iam para a ilha e sim para uma mesa de cirurgia para serem fatiados, e que as mulheres (reprodutoras) eram assassinadas e descartadas após o parto; e, na sequência, as dúvidas, as crises existenciais de Truman ao montar vagarosamente o quebra-cabeça libertário sobre sua vidinha pacata e monótona ideologicamente assim planejada por um deus (Ed Harris na película). Esse processo de descoberta da verdade passado pelos personagens é relatado durante o ano pelos alunos como doloroso: “não é fácil, professor, saber o que está por trás da carne, do leite, dos produtos de higiene que usamos, do entretenimento com os animais…” comenta um estudante. Um outro, diz: “é revoltante saber que fui enganado a vida toda sobre a origem de tudo o que uso”.

Esses documentários exercem um importante papel na ilustração dos conceitos animalistas apresentados na sala de aula, como especismo, vegetarianismo, veganismo, direitos animais, experimentação animal, ética, moral, princípio da igualdade na consideração de interesses semelhantes, bem-estarismo, senciência, vulnerabilidade, agência e paciência moral, abolicionismo, dorência, valor inerente, esquizofrenia moral e outros.

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras; às vezes sim, outras não. Acredito que exibir documentários com massacre de outros animais apenas para chocar, com a desculpa de que está chamando a atenção para a causa animal é estupidez pedagógica. O trabalho de educação vegana formal deve fazer uso da didática da provocação. Ao apresentar os conceitos animalistas citados acima, o docente deve provocar a ignorância, o quietismo, o comodismo mental dos alunos; provocar o pensamento, a rebeldia sem causa. A didática da provocação se fundamenta na maiêutica socrática. Primeiro, introduz a temática, os conceitos. Inevitavelmente, seguem-se os debates para, só depois, entrarem os documentários. Seu objetivo deve ser ilustrar o que foi apresentado no campo das ideias na sala de aula. Chocar por chocar é nada mais do que um tiro no pé; o adolescente para de comer carne (bovina ou avícola) por alguns dias e depois volta com força total, pois faltou-lhe a base teórica ética sobre por que não consumir produtos de origem animal. Chocar por chocar pode levar ao reforço da já banalizada relação com o mal diário, da violência naturalizada e institucionalizada.

Nossa herança sociocultural especista é transmitida mimeticamente, geração após geração, como o mais natural dos ensinamentos. A educação vegana cuja base é a não violência não pode, via seus representantes – os educadores veganos – cair nesse engodo do chocar por chocar. O fundamental é o raciocínio ético. Quantas centenas de vezes ouvi alunos dizerem no início da exibição dos documentários citados que “ah! eu já vi isso, no ano passado a professora x passou isso aí”. E eu questiono, ‘e aí?’.  E os alunos respondem: “pediu um redação na aula seguinte mas não tocou mais no assunto, ficamos sem entender nada”. Ou eles repetem as respostas dos pais quando questionados sobre a realidade opressiva vivida pelos outros animais, e dizem: “eu já sabia que é assim, fazer o quê, precisamos comer, e os remédios serão testados em quem?”; ou “eu sei que carne e leite fazem mal a saúde, mas eu gosto”. A imagem exibida por si só não foi o suficiente para colocar a ética acima do paladar, pois não passou de uma imagem solta no ar2.

Recorro à seguinte reflexão da eticista Sônia Felipe para corroborar as conclusões a que cheguei em sala de aula:

“ … do mesmo modo como as imagens causam impactos à primeira vista, elas também acabam por dessensibilizar o sujeito, produzindo o contrário da reação que dele se espera: a indiferença, o desânimo, a imobilidade, a passividade. Sabemos, por outro lado, que uma imagem e a sensação que produz são facilmente substituídas por outras, além de que, imagens produzidas por um determinado órgão dos sentidos podem ser abatidas por outras mais fortes, oriundas de outro sentido. Assim, mostrar imagens de animais brutalmente assassinados em esteiras rolantes nos frigoríficos causa enorme impacto no telespectador. Mas, verdade seja dita, esse impacto apaga-se em seguida, quando o olfato capta, vindo da cozinha, o aroma das iguarias derivadas desses mesmos animais preparadas carinhosa e refinadamente pela(o) cozinheira(o). Temos visto milhares de imagens de animais em gaiolas e currais metálicos de proporções mínimas, transporte em condições degradantes, abate através de métodos cruéis, e até mesmo o processo de corte e acondicionamento de suas carcaças para a  comercialização. Tais imagens evocam emoções fortes, geram indignação, repulsa, culpa e medo, sentimentos que misturam a revolta do consumidor que observa essas imagens contra o fato de ser, sabendo-o ou não, cúmplice desse mesmo horror que condena. Não diminui, ainda assim, o consumo de carne de animal por parte dos que veem tais imagens. Mas parece que a revolta manifesta em consumidores de animais após verem tais cenas deve-se mais a um desejo de não serem confrontados com uma avaliação moral de suas práticas e costumes, do que com um sentimento moral de apreço por práticas e costumes que excluem causar dor e sofrimento a seres sensíveis. Expostos a tais realidades, os seres humanos, por mais esclarecidos cientificamente que o sejam, preferem manter-se, no mínimo, “inocentes”, para não qualificar de modo menos gentil suas reações3.

De maneira nenhuma defendo que os horrores cometidos contra os outros animais sejam mantidos em sigilo4, que fique “claro, a princípio, que não sou contra descrever o sofrimento ou mostrá-lo através de fotos ou filmes; penso que o sofrimento existe e é mascarado pelos exploradores dos animais e não devemos esconder essa verdade. O que sou contra é depositar nesse tipo de atividade (tornar conhecido o sofrimento) uma esperança grande de que, com essa atividade sozinha, as pessoas mudarão a concepção que possuem dos animais. Infelizmente (…) as questões são mais complexas do que simplesmente achar que as pessoas fazem o que fazem porque não viram o que acontece com aqueles que sofrem as consequências do que fazem5. Meu foco aqui é um público específico num contexto específico, e nesse ambiente os documentários devem ser usados como ilustração das teorias que já estão sendo discutidas, debatidas em aula. Primeiro, a temática, qual seja, os direitos animais, o veganismo e os conceitos basilares relacionados e, na, sequência os documentários, não deixando de dar continuidade à discussão após a exibição dos vídeos. Deve-se gastar quantas aulas forem necessárias para esgotar todos os prós e contras, os alcances e limites da temática, e novamente, o foco deve estar no raciocínio ético.

No último mês do ano letivo volto aos três filmes que foram usados ou somente citados no primeiro mês de aula. É o momento do fechamento, de vir à tona o porquê dos conceitos de alienação, ideologia, realidade e verdade serem os fios condutores para a apresentação e desenvolvimento da temática animalista em sala de aula. Sem eles acredito ser  (no mínimo) difícil a introdução da teoria dos direitos animais e seu fundamento ético, do modo de vida vegano de maneira mais acessível, mais palatável para um adolescente de 15 anos. Se vivêssemos em um país onde a criança e o adolescente fossem estimulados o tempo todo ao hábito de leitura, não seriam tão fundamentais filmes nem documentários para ilustrar um problema ético. Bastaria adotar uma ou duas obras para serem esmiuçadas durante o ano, e daí ficaria a cargo do adolescente, após refletir as teses éticas animalistas abolicionistas neles apresentadas, adotá-las no dia a dia. Mas vivemos em um país onde a criança e o adolescente são livrofóbicos, epistemofóbicos, e uma novela tem mais efeito formador que um tratado de ética.

Esses filmes e documentários contribuem para o processo de desvelamento da realidade, tanto dos adolescentes quantos dos outros animais, para que deixem de ser “baterias”, como disse Morpheus a Neo, alimentando o sistema (Matrix) reificador do humano e do não humano. Em outra cena, o deus do sono diz que, enquanto houver Matrix, as pessoas não serão livres – alusão clara ao dito marxiano de que, enquanto houver Estado, o ser humano não será livre. Digo que enquanto houver especismo a nossa animalidade não será vivida em plenitude. Alienação e ideologia são os dois lados de uma mesma moeda, não existe uma sem a outra. A estrutura ideológica da necessidade do uso de tudo oriundo da exploração e coisificação dos outros animais se sustenta basicamente graças ao nosso capital cultural especista herdado, preservado (pela família), reproduzido (pela escola) e legitimado (pelas mídias6). Como educador vegano, procuro usar esse audiovisual como instrumento contra-hegemônico, desalienador e desvelador do status quo, e provocando didaticamente o estado crônico de alienação em que se encontra o adolescente hodierno, para que saia da cômoda caverna especista legada pela filosofia moral tradicional.

Notas

1. DELEUZE, G., GUATTARI, F. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
2. Veja a crítica ao uso de imagens (filmes) pelos que pensam que só isso é suficiente para as pessoas deixarem de ser especistas, feita por Luciano Carlos Cunha, no artigo “Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte VIII)”, in:  http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article
&id=70:esta-tao-na-cara-viii&catid=41:lucianocunha&Itemid=1

3. FELIPE, Sônia T. Por uma questão de princípios. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2003. p. 164-165.
4. ______________. Ética e experimentação animal. Florianópolis: Ed. UFSC, 2007. p. 109.
5. CUNHA, Luciano C. Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte VIII). Artigo citado na nota 2.
6. Cf. WUNENBURGER, J-J. O homem na era da televisão. São Paulo: Loyola, 2005; GARCIA, Nelson J. O que é propaganda ideológica? São Paulo: Brasiliense, 1982 (col. primeiros passos). Segundo Tom Regan “uma barreira contra a discussão justa sobre os direitos animais é a mídia”. Cf. Jaulas Vazias. Porto Alegre: Lugano, 2006. p. 13-14 e 190-191.

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