Entre touros e toureiros, um poeta brasileiro

           

No último domingo, 22 de agosto, uma crônica publicada pela Folha de S. Paulo trouxe novamente à tona a proibição das touradas na Espanha. E, dessa vez, não pela ótica de quem apenas reproduz informação, mas de quem viu de perto um touro ser cruelmente golpeado e morto.

Com o título “Eu fui às touradas em Barcelona”, Ferreira Gullar narrou sua primeira e única experiência frente à arena, o touro em desespero, o toureiro desumano, e uma plateia que vibra a morte.

Em suas palavras, o fim do espetáculo:

“O último golpe de espada atingiu-lhe o coração. Estrebucha, estica as pernas e morre, diante da multidão que aplaude entusiasticamente o toureiro. Este, sorridente, saca de uma faca, aproxima-se do touro morto, corta-lhe uma das orelhas e a exibe, vitorioso, para o público, que então delira. Indignado, resmungo: ‘Coisa bárbara!’.

João Cabral, surpreso com minha reação, defende a tourada, que seria a vitória da inteligência sobre a força bruta. ‘Nada disso’, respondo. “É a vitória da covardia e do sadismo sobre um animal indefeso.”

Com esta última frase, poderíamos substituir o sinônimo de touradas nos dicionários.

E, ainda que não tenha sido a intenção de Ferreira Gullar, sua crônica mostrou também o que nenhuma biografia de João Cabral cita – um poeta que não conseguiu enxergar que animal não rima com sofrimento.

João Cabral, para meu espanto, é o escritor que tanto conhecemos, é de Melo Neto, é de Morte e Vida Severina. É o recifense de palavras bem ditas e bem escritas. Porém, agora sabemos, João Cabral de Melo Neto era admirador de touradas. E assim sendo, para mim, fora um ilustre pensador manco. Nem com toda a cultura conseguiu exercer ética e compaixão pelos animais.

Para ler a crônica de Ferreira Gullar na íntegra, clique aqui.

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