Reeducação alimentar deve começar com aula de Ética

           

“Já existem várias normas regulamentando o que as cantinas podem vender, mas falar da importância da boa alimentação é papel da escola”. Essa é a epígrafe que dá início ao artigo “Comer bem é de lei”, de Ava de Freitas, na revista Nova Escola nº 233, de junho/julho.

Alguns pontos me chamaram atenção neste artigo. O primeiro foi a afirmação na epígrafe de que “falar da importância da boa alimentação é papel da escola”. O que as nutricionistas entrevistadas pela autora do artigo querem dizer com “boa alimentação”? O que os professores entendem por “boa alimentação”? A resposta, infelizmente, todos nós sabemos.

É papel da escola falar da importância de se manter um “bom” hábito alimentar. Hábito que é recente, mas travestido de tradicional. E popularmente tradicional quer dizer antigo. A escola fala da importância de se manter um “bom” hábito alimentar, às vezes abertamente, às vezes através de seu currículo oculto. Um exemplo de “boa alimentação” a ser passado é expressado na indicação em uma ilustração do artigo que diz: “leite e derivados contam com altas doses de cálcio, fundamental para os ossos. O iogurte natural traz ainda mais proteínas. O queijo branco tem mais cálcio que o leite. Nos queijos amarelos sobram as vitaminas A e D”.

O segundo ponto é a crítica leve, singela, que o artigo faz aos alimentos industrializados vendidos nas cantinas das escolas. Em nenhum momento propõe sua abolição para o bem da garotada. Em um trecho temos: “por questão de praticidade, custo e armazenamento, é mais fácil encontrar produtos industrializados, que tem prazo de validade maior – mas causam mais danos a saúde que os alimentos in natura”.

Mais danos. Como assim mais danos que os in natura?

Após dissertar sobre os exemplos de cantinas que trocaram os produtos comercializados por outros “mais saudáveis” e a maneira como as crianças burlam essa nova opção, na maioria das vezes com o consentimento dos pais, vemos o terceiro ponto que é o apelo a coerência nos seguintes termos:
“É por isso que bons exemplos fazem toda a diferença na promoção da alimentação saudável… A chave para o sucesso é a coerência”, indicando em um box algumas ações que toda as escola pode fazer:

“- Definir com a Associação de Pais e Mestres (APM) o que pode ser vendido e o que deve ser vetado na cantina e zelar pelo cumprimento do acordo. – Esclarecer os pais sobre a importância da boa alimentação e estimulá-los a cuidar da rotina alimentar dos filhos.
– Trabalhar para conscientizar docentes e funcionários sobre a necessidade de oferecer bons exemplos aos alunos.
– Incluir alimentação saudável como um conteúdo transversal permanente das áreas do conhecimento.”  

Partindo do óbvio, alimentação saudável para 99,9% da população brasileira é proteína animal. Portanto, o máximo que a APM pode vetar são alguns poucos produtos industrializados seguindo a modinha gorduras trans. O que esperar de pais e mestres especistas? O que os pais de pelo menos 99% dos estudantes brasileiros entendem por “boa alimentação”?

O(A) caro(a) leitor(a) deste artigo já tentou explicar para um grupo de pais em uma reunião pedagógica que alimentação, para ser considerada saudável, deve ser exclusiva dos reinos vegetal e mineral? Antes de estimular os pais a cuidar da rotina alimentar dos filhos, eles devem aprender a mudar sua própria rotina alimentar.

“Conscientizar docentes e funcionários”. Alguém já tentou conscientizar um professor? A tarefa não é nada fácil. No momento que escrevo este texto, meus companheiros docentes e funcionários da escola em que leciono estão fazendo uma churrascada na escola para fechar o bimestre de aulas. É a velha confraternização cadavérica. O pretenso almoço festivo está mais para um velório, ou melhor, um crematório, já que os defuntos estão sendo queimados. Esses são os bons exemplos oferecidos aos alunos. Para satisfazer meu palato e lazer, pouco importa o valor inerente da vida de outros seres sencientes.  Bons exemplos e coerência estão longe do ambiente escolar.

Sobre a inclusão da “alimentação saudável” como tema transversal é fácil de ocorrer em qualquer escola. Pois não vai passar de discurso vazio, uma crítica ‘meia boca’ aos industrializados (aqui fugimos da tal coerência, porque os professores irão criticar aquilo que consomem) e uma proposta de substituição por lanches naturais (exemplo: um pão de fôrma recheado com atum ou peito de peru, uma folha de alface, uma rodela de tomate e mussarela) sucos naturais (de caixinha ou em lata, algo bem natural) e porções de saladas de frutas (se possível acompanhadas com um creminho de leite ou leite condensado).

Do que adianta oferecer um suco natural (natural de verdade, feito de fruta batida no liquidificador com água ou algum leite vegetal) acompanhado de um salgado frito composto por algum pedaço de um animal não humano assassinado?

Do que adianta oferecer um lanche natural (pão integral recheado com tomate, alface, PVT, vegarela, tofu ou geleia de frutas) acompanhado de uma coca-cola?

Incluir alimentação saudável verdadeira, a livre de proteína animal e exclusiva dos reinos vegetal e mineral como tema a ser desenvolvido pelas disciplinas nas escolas, não é nada fácil, quem acompanha meu trabalho sabe o que estou dizendo.

O quarto e último é a citação que fecha o artigo: “é preciso ver as crianças e os jovens em sua plenitude e colaborar com seu crescimento, desenvolvimento e potencial. Para que isso ocorra, todos têm de estar preparados e ajudar os estudantes a fazer opções saudáveis nas refeições”. Bom, pela minha curta experiência com adolescentes, acredito que todos os pais e professores se acham bem preparados para ajudar os jovens no seu contínuo consumo de vidas, ou melhor, de mortes. Somente em uma sociedade insana ensinamos que fazer opções saudáveis é trocar um pedaço de boi por outro de frango ou de peixe, é trocar um refrigerante por um suco naturalmente (quimicamente) encaixotado.   

São necessárias normas (leis) para dizer o que deve ou não ser vendido nas cantinas escolares? Com lei ou não, com industrializados ou “alimentos saudáveis”, o mais-do-mesmo do biocídio alimentar continua, e não duvidamos de que ele colaborará com o desenvolvimento e crescimento do potencial cancerígeno, do diabetes, da hipertensão, anemia, osteoporose, obesidade e cardiopatias.  

Se o principal papel da escola fosse o desenvolvimento da reflexão ética nos alunos não precisaríamos de aulas de “boa alimentação”, pois a coerência no dizer e fazer traria isso embutido.

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