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CASO PANDORA

Tutor perde hospedagem e deve começar novas buscas em direção ao Rio de Janeiro

16 de janeiro de 2022
Vanessa Santos | Redação ANDA
12 min. de leitura
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Foto: Arquivo pessoal

Mais de um mês depois do desaparecimento da cadelinha Pandora, no Aeroporto Internacional de São Paulo – Guarulhos, o tutor do animal Reinaldo Júnior, continua em busca de sua amada cachorra. Em entrevista nessa semana, o guardião confessou que já recebeu mais de duas mil mensagens sobre o possível paradeiro da cadela.

Pandora viajava com Reinaldo de Recife (PE) para Navegantes (SC), com conexão em São Paulo, quando, segundo declaração da companhia aérea Gol, conseguiu abrir a caixa de transporte onde era levada e fugiu na direção de uma via próxima do terminal de cargas no Aeroporto de Guarulhos.

Reinaldo largou seu emprego e deixou sua casa em Recife para realizar as buscas por Pandora. Nessa semana, as esperanças do tutor foram renovadas após a possibilidade de o animal ter fugido em direção ao estado vizinho. “Eu tenho que fazer isso para tentar me acalmar. Divulgar um pouco por lá Rio de Janeiro também”, declara Júnior.

Foto: Arquivo pessoal

Desde que começou as buscas pela cachorra, Reinaldo tem se comprometido com uma exaustiva rotina em busca de Pandora. Ele conta que acorda bem cedinho e só para em torno das 23 horas. “Eu sei que deve tá muito difícil pra ela, assim como pra mim também está”. A estratégia dele se baseia em panfletar nos bairros do entorno do aeroporto, abordando as pessoas que encontra pelo caminho. “A gente fica de lá pra cá todos os dias, não tem folga”, diz ele sobre os voluntários que o ajudam diariamente.

A corretora de imóveis Márcia Chagas, 52, faz parte das equipes de buscas pela Pandora. Ela acolheu Reinaldo e a mãe dele em sua casa quando a Gol suspendeu o custeio da hospedagem.

“Começamos buscando a Pandora na fé, porque nem sabíamos se ela estava viva”, relata a corretora. Márcia se afastou do trabalho para ajudar nas buscas pela cadelinha. Os trabalhos começaram nas redes sociais, com publicações em grupos em defesa dos direitos animais no Facebook. Em seguida os voluntários começaram a fazer a divulgação pessoalmente em bairros de São Paulo e Guarulhos. Segundo a corretora, a principal suspeita é de que ela esteja aos cuidados de alguém. Por esse motivo “nós estamos focando não só em Guarulhos, mas também nos municípios vizinhos”, diz ela.

O esforço de Reinaldo em encontrar Pandora comoveu milhares de pessoas país afora. O vereador de Guarulhos Geleia Protetor do PSDB, ficou sabendo da história de Pandora e doou sete mil reais para incluir na recompensa pela cachorra. Reinaldo se indigna e declara que “a Gol não coloca nada, deixando bem claro”.

Pandora tem cinco anos e não possui raça definida. Ela pesa 19 quilos e tem porte médio. Sua pelagem é caramelo com algumas manchas brancas. A cadela tem três sinais perto do focinho do lado esquerdo e uma listra no focinho que vai até a cabeça.

Reinaldo descarta a possibilidade de a cachorra ter sido sequestrada. Para ele a responsabilidade pelo sumiço da cadela é da Gol. “Porque sequestro seria se fosse pego lá dentro do avião, e ela não foi pega de lá de dentro”. Ele tem convicção de irá encontrar sua Pandora viva e bem, e confessa esperançoso: “nem sei como vai ser quando a gente se ver”.

O guardião da cadela deu uma entrevista exclusiva para o jornal Correio Braziliense. Confira:

Reinaldo, como está sendo sua rotina desde o desaparecimento da Pandora?

Acordo e já saio pra panfletar, buscar pistas, almoço na rua. Umas 23h, 23h30, eu paro. Quando chego ainda fico conversando com algumas pessoas e tentando tirar algo que se enquadra, alguma coisa aqui que tem fundamento. Mas é cansativo dormir e acordar, não por ela, mas pelo vazio que tem de tentar procurar, sabe?
Quais os canais de comunicação que vocês mais recebem notícias?
Instagram e Facebook. Algumas são repetitivas, outras não. Algumas não têm fundamento. Alguns mandam: “ah, me dá 500 reais aí, vi a Pandora”. É muita mensagem, mais de duas mil desde que começamos a busca. E a gente não consegue acompanhar, porque nós passamos o dia abordando pessoas na rua.

Reinaldo, tem ideia em quantos lugares já percorreu?

De lá pra cá todos os dias, né? Sábado, domingo, feriado, Natal e Ano Novo. Então não tem um dia de folga, até porque eu não trabalho aqui. Nem trabalho eu tenho, na realidade. bairros que percorreu Tem São João, Nova Portugal, Presidente Dutra, Haroldo Veloso, Malvina, Maria Helena, Praça 8, Paraíso, Anita Garibaldi, Ponte Alta, Santa Isabel, Cumbica, Pimentas. Tem muitos bairros e até agora nada. Tem uma recompensa aí no valor de oito mil. Que é sete mil de um vereador. A Gol não coloca nada, deixando bem claro.

Você tinha se programado para ir embora a trabalho para a Suíça com a Pandora. Então, como está a situação agora, Reinaldo? Você está em contato com o pessoal de lá?

Eu não tenho mais a vaga. A Suíça é um país sério, não é o Brasil. Desde o dia que eu deixei a vaga em aberto, eu disse que não ia ter tempo. Eles disseram: “Calma, relaxa um pouco, tem até tal dia de janeiro pra você apresentar a documentação”. Então deixei claro que o tempo é indeterminado. Poderia sim segurar até o dia que eles me deram lá, porém deixando bem claro que seria indeterminado. Se minha filha aparecesse de imediato, eu iria. Caso não, eu não ia deixá-la aqui e ir embora. O plano era eu e ela. Não tem como.

Reinaldo, você tem enfrentado problemas psicológicos devido ao sumiço da Pandora?

Isso é um fato. É muita, muita coisa. Ontem eu apaguei, consegui dormir. Mas esses dias anteriores aí descansei menos de quatro horas. E já levanto meio cansado. Eu já estou no meu extremo de superação. O sistema psicológico e emocional abala muito. Porque no dia do acontecido a pessoa virar e dizer que a cachorrinha destruiu a casinha. Você viu que é mentira. Foi provado. É mentira. Isso mexe. Você pedir câmeras pro aeroporto e pra companhia. E juntos dizerem que não existem câmeras, não existem filmagens. Ou seja, isso aí cria um bloqueio na sua cabeça de que: ou eles pensam que você tem quatro anos de idade num absurdo desse? No caso, eu vi a caixinha, a caixinha está comigo, está intacta. Eu provei também com as imagens, que quem pegou as imagens foi eu. Não foi ninguém da companhia aérea, não foi o aeroporto que me favoreceu aquelas imagens. Foi o delegado Bruno Lima que falou pra mim em particular. Ou seja, isso mexe, isso vira uma chave na cabeça da pessoa. Vão pensar que eu sou louco ou vão me tirar como louco, vai saber.

Durante esse período, você em algum momento pensou em suspeita de sequestro?

Eu não vou dizer sequestro, porque ela foi perdida. Ela foi perdida por irresponsabilidade. Então, quem estiver com ela ou quem a pegou, com certeza, eu não vou dizer que é um sequestro. Porque sequestro seria se fosse pego ali dentro do avião lá. Ela não foi pega lá de dentro. Ela está sendo cuidada por alguém.

Pelas imagens da câmera que você obteve, é possível ver que o portão foi aberto e a Pandora saiu do aeroporto, é isso mesmo?

Sim, o porteiro, ele abre o portão, isso é um fato. Eu perguntei lá, me disseram que ela tinha saído por outro portão. Achei uma contradição, né? Talvez disseram isso com medo de alguma coisa, não sei.

Reinaldo tem alguma novidade sobre o caso? Nos últimos dias, teve alguma mensagem mais concreta?

Tem várias, mas a gente só tem a certeza quando chega no local. Milhares são verdadeiras, tipo: “Olha, foi vista aqui assim?”. Quando a gente vai lá, eu pergunto se tem vídeo, alguma coisa, dizem que não deu tempo, que estavam sem telefone, que o celular estava descarregado, mas era muito parecida e cria uma esperança na gente. Então nós vamos lá pra tentar averiguar essa informação, né? Então, as mensagens são reais, porém não é a Pandora.

Você tem esperança de reencontrar a Pandora?

Todo dia, todo dia. Não queria nem dormir essas noites. Eu fico pensando que se eu dormir pode acontecer algo pior. Não sei, é um sonho que se tornou um pesadelo. Mas eu não vou embora. Vou ficar procurando, não sei como vai ser. Não sei se tem o tempo que a justiça vai determinar também alguma coisa. Mas eu vou ficar aqui em São Paulo.

Prestes a completar um mês do desaparecimento da Pandora, você tem novas estratégias de busca?

Eu recebi a informação que possivelmente ela estaria no Rio de Janeiro, é possível. Porque o cachorro anda em torno de 20 a 30 quilômetros por dia. E como eu conheço a Pandora, ela anda muito. Então, como já são mais de 20 dias. Quinze quilômetros para 20 dias, dá bastante. Disseram que ela foi vista na rua, sentido Rio, muitas informações assim. Como está muito expandido no caso e sem resultado nenhum, mesmo com uma boa recompensa, então dá pra pensar sim que ela tá seguindo aí a minha procura. Pode ser que sim, então dá pra tentar aí, dois dias, não sei. Tá se enquadrando onde eu não queria. Então eu tenho que fazer isso para tentar me acalmar. Divulgar um pouco por lá também e depois retomar.

Reinaldo, vocês conseguiram criar uma rede de apoio muito grande aqui em São Paulo, sejam pessoas engajadas na rede social ou indo para as ruas em busca da Pandora, como a Marcia. Me conta um pouco como está sendo.

A Marcia é uma pessoa que Deus colocou na vida, não só ela, mas os outros também. A Marcia abraçou a causa, colocou dentro da casa dela uma pessoa que ela não conhecia de lugar nenhum. Sem palavras, o pessoal de Guarulhos também, né? Porque eu pensei que ia ter resolvido rapidamente, mas não teve o apoio que deveria ter tido, né? Não das pessoas, o povo me ajuda a toda hora. Agora fica difícil ter alguma direção que a gente nem sabe? A gente não pode ficar usando o cão pra estar por aí. No começo, o cheiro dela ainda estava ali no aeroporto de Guarulhos, dava pra fazer alguma ligação. Mas não teve atenção nenhuma da minha cachorra andando dentro do aeroporto. Talvez porque ela não é uma cachorra de raça definida, se ela fosse talvez tivesse chamado mais atenção. Mas ela já chamou a partir do momento que está andando no aeroporto, aquilo não é normal. Aquela imagem ali não é normal ou é normal e não passam pra gente, né? Disseram que estavam atrás da Pandora, jogaram até a redinha nela, mas ela escapou. Mas é pra se pensar que é mentira, porque tem imagem dela de 7h55. Eu fui avisado às 8h15 da manhã. Faltavam dez minutos para voar. Eu desci por conta própria e fiquei detido lá. Até quase às onze da manhã. Talvez se eu não tivesse descido eu não ia saber de nada disso, ia acreditar que a casinha foi destruída. E que minha cachorra fugiu que nem mágica. E na minha cabeça ia pensar que ela estava morta. E aí, eu ia ficar mais conformado, talvez, né? Ia viver um luto.

Se possível, pode descrever como é a Pandora fisicamente e a personalidade dela?

Ela é tímida, dócil, muito protetora, amorosa. O que eu venho pensando esses dias e não queria acreditar que ela poderia sim estar no centro Rio de Janeiro. Porque o cachorro anda sempre pra frente quando está assustado. E minha cachorra, ela é linda, ela é uma filha, no caso. A cama dela era uma cama de solteiro, ela tinha uma cama dela, mas ela dormia com a gente na cama. Ela fez cinco anos no dia 22 de dezembro de 2021. Porém, como já tem mais de vinte dias ela pode ter ativado o modo de sobrevivência dela que eu não sei como é. Mas eu sei que deve tá muito difícil pra ela, como pra mim tá de continuar.

E fisicamente, Reinaldo?

Ela é magra, é uma cachorrinha de dezenove quilos. Alta, porte médio. Caramelo, mecha branca, uma listra no focinho que vai por cima da cabeça e onde se espalha esse ponto branco, né? Ela tem três sinaizinhos perto do focinho do lado esquerdo. Tem dois sinais também com pelos na bochecha, um de cada lado.

Quando os dias estão mais angustiantes, qual lembrança você rememora da Pandora para se manter firme?

Me fortalece olhar os vídeos, apesar de que muitas vezes não, mas eu sei como vai ser quando a gente se ver.

A Gol Linhas Aéreas emitiu uma nota sobre o caso da Pandora quase um mês depois do sumiço da cadela. O motivo do pronunciamento se deu na ocasião da intervenção do Tribunal de Justiça de São Paulo, que determinou que a companhia cumpra com a contratação de empresas especializadas em buscas de animais, e que dê continuidade ao pagamento das diárias do tutor do animal em determinado hotel. “A GOL se solidariza com o sofrimento do tutor da Pandora. Entendemos a dor de alguém que se vê subitamente separado de seu animal e sabemos que os laços de afeto que desenvolvemos com os cães são algo extremamente importante em nossas vidas. Assim, lamentamos profundamente o incidente ocorrido, no qual a cachorrinha Pandora escapou da caixa de transporte durante a conexão entre dois voos. Imediatamente após a constatação deste triste episódio, passamos a empreender uma série de medidas para, ao mesmo tempo, amparar e reduzir o sofrimento do tutor do animal, além de acionar diferentes meios para tentar localizar o paradeiro da Pandora”, declarou a empresa.

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