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Por que as baleias encalham? Biólogos explicam o que leva animais às praias por engano

19 de fevereiro de 2024
5 min. de leitura
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Foto: Ilustração | Freepik

Uma baleia encalhada na areia da praia geralmente dá nas pessoas duas sensações: a primeira, claro, de pena e vontade de ajudar; a segunda tem a ver com o encantamento e a surpresa, porque baleias são animais imensos, bonitos, e que a maioria dos humanos só vai ver de longe ao longo da vida, ou mesmo apenas em fotografias.

É preciso, no entanto, tomar cuidado com esses dois sentimentos quando isso acontece de fato, e uma baleia se perde de seu caminho natural e vem parar na orla, ficando presa. É que, por mais que se queira encostar nela para ou conhecê-la, ou cuidá-la, os cientistas que estudam esses animais recomendam fortemente que não se faça esse tipo de coisa.

“Não toque nem fique perto da baleia. Sei que a gente quer estar do lado dela, ver como ela é, mas por favor fique longe. Isso porque a gente não sabe por que ela encalhou”, diz Juan Pablo Torres-Florez, biólogo marinho, doutor em ecologia e coordenador técnico e científico da Sea Shepherd Brasil.

Os motivos para uma baleia encalhar são variados, ensina Juan Pablo. Para listá-los, é preciso antes fazer uma divisão dos cetáceos, grupo de mamíferos aquáticos do qual as baleias fazem parte. Há os odontocetos, que possuem dentes (golfinhos, baleia cachalote, baleia orca), e há os misticetos, que possuem barbatanas (baleia-azul, por exemplo).

Quando odontocetos encalham, explica Juan Pablo, geralmente é um encalhe de centenas de animais juntos. “Eles são animais gregários, ou seja, que andam em grupos. E costumam ser grupos matriarcais, ou seja, liderados por uma fêmea”, afirma.

“Se essa fêmea fica doente ou se perde, ela faz com que todo o seu grupo encalhe também. Claro que ela não faz isso de propósito, nem ela sabe que está indo para a praia. E os outros só a seguem.”

Uma das principais razões de encalhe são os exercícios navais que usam radares de alta frequência, e que deixam os animais sem noção do que está acontecendo. “A corrida tecnológica do ser humano pode ter efeitos nocivos à natureza, e este é um deles. Também há casos de canhões de ar comprimido usados na busca por petróleo que causam explosões no fundo do mar, e não sabemos ao certo como isso afeta os animais”, diz Juan Pablo.

Ainda dentro do grupo com dentes há as toninhas, que vêm aparecendo mortas ou encalhadas em praias —recentemente foram 30 animais no litoral do Paraná. Neste caso, explica o biólogo, o problema é a forma como a pesca é feita nas regiões em que as toninhas circulam, especialmente em São Paulo e Santa Catarina.

“É uma pesca indiscriminada [descontrolada] que faz com que pescadores coloquem redes maiores do que precisam, fechando toda aquela área e deixando as toninhas sem ter para onde ir. Se elas ficam presas, morrem quase instantaneamente. Se não pararmos com a pesca como estamos fazendo, terminaremos extinguindo as toninhas”, afirma Juan Pablo.

Já no grupo dos misticetos, em que ficam as grandes baleias, o biólogo diz que os encalhes costumam acontecer por doença ou acidentes com embarcações. “Nos lugares com grandes portos, por exemplo Santos (SP) e Rio de Janeiro, circulam muitas baleias e navios. As colisões acontecem quando elas estão dormindo, e muitas vezes os navios nem percebem e arrastam o animal pelo trajeto.”

Juan Pablo também lembra que há alguns anos muitos animais encalharam no Brasil por terem passado fome, ficando muito magros. “Todos os anos, as baleias migram das águas mais quentes, onde se reproduzem, para águas mais frias, onde se alimentam. Se não há alimento lá, elas ficam fracas porque não acumulam a gordura necessária para voltar, e acabam morrendo”, afirma.

Onde observar baleias no Brasil?

A época mais propícia para se avistar baleias no Brasil é nos meses de julho, agosto e setembro, ensina Sergio Cipolotti, biólogo, mestre em ecologia e conservação da biodiversidade, e porta-voz do Instituto Baleia Jubarte, que colabora com a preservação destes animais desde 1988. “Elas usam a nossa costa de águas quentes para ter sucesso reprodutivo e dar cria a seus filhotes”, afirma.

Antigamente, diz Sergio, as jubartes se concentravam no Banco de Abrolhos, no extremo sul da Bahia. Mas, com a recuperação da população destes animais, elas foram ocupando toda a costa baiana em lugares como Salvador, Itacaré, Porto Seguro e Arraial d’Ajuda. Agora, já estão na região sudeste, em cidades como Vitória (ES) e Ilhabela (SP).

Para o biólogo, entre as coisas legais quando se avista baleias está prestar atenção aos borrifos, que é a respiração delas (com aquele jato d’água para cima), e aos comportamentos sociais, como as batidas de cauda. Não há um horário específico para vê-las, elas podem aparecer a qualquer hora.

“Elas são animais que não ficam muito distantes da costa, porque se sentem mais seguras para proteger os filhotes em águas mais rasas”, diz.

“As baleias são protegidas por lei. Tem uma lei que proíbe qualquer molestamento, perseguição, e caça desses animais. Então, para avistamento turístico ou recreativo, você precisa saber dessas normas. Em resumo, você não pode se aproximar a menos de 100 metros, não pode mergulhar com elas, o motor dos barcos não pode estar com a hélice girando, e você só pode permanecer nessa distância por no máximo 30 minutos.”

Cuidados parecidos valem para o caso das baleias e golfinhos encalhados, como lembra o biólogo Juan Pablo. No caso de animais mortos, ele explica que eles podem ter feridas no corpo causadas por barcos, e nestes machucados pode haver bactérias perigosas para os humanos.

Caso o bicho ainda esteja vivo, também é importante manter distância da respiração dele, que pode transmitir doenças pela via aérea. Também não se recomenda ficar jogando água, a menos que um especialista tenha feito essa recomendação.

“É claro que todo mundo quer ajudar o animal, mas ele pode ficar estressado com isso. Uma nadadeira de uma baleia de 80 toneladas tem potencial para machucar uma pessoa”, diz Juan Pablo. O certo em todos os casos é telefonar para o Projeto de Monitoramento de Praias (PMP) local, que mandará uma equipe de pessoas preparadas para lidar com o problema.

Fonte: Folha SP 

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