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ESTUDO

Marsupial escondido há milhões de anos é descoberto em fragmentos da Mata Atlântica no RJ

Cuíca-de-três-listras-do-Rio-de-Janeiro vive em áreas florestais isoladas e já preocupa pesquisadores devido ao risco de extinção.

26 de maio de 2026
Giovanne Cury
3 min. de leitura
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Foto: Pablo Rodrigues Gonçalves

Pequena, rara e pouco visível em meio a fragmentos da Mata Atlântica do Rio de Janeiro, uma nova espécie de marsupial passou milhões de anos desconhecida pela ciência. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram a espécie recentemente.

Batizada de Monodelphis semilineata, a cuíca-de-três-listras-do-Rio-de-Janeiro foi encontrada em áreas florestais dos municípios de Macaé, Silva Jardim e Paracambi.

As pesquisadoras Carina Azevedo Oliveira Silva e Isabelle Chagas Vilela Borges realizaram a descoberta. Elas foram orientadas pelo pesquisador Pablo Rodrigues Gonçalves, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação da UFRJ. O estudo foi publicado na revista científica Journal of Mammalogy.

Inicialmente, o animal parecia ser apenas mais uma cuíca conhecida da Mata Atlântica. A diferenciação da espécie, no entanto, foi revelada após exames de DNA. Até então, os animais eram confundidos com espécies fisicamente parecidas.

A confirmação definitiva ocorreu somente após análises anatômicas detalhadas e estudos moleculares comparativos.

“Percebemos que existia uma divergência genética surpreendentemente grande entre os animais analisados e os de outras localidades do Sudeste”, explicam os pesquisadores.

A linhagem evolutiva da nova espécie surgiu há cerca de 1,78 milhão de anos, durante o período conhecido como Pleistoceno. Apesar da origem muito antiga, a espécie levou muito tempo para ser descoberta e descrita pela ciência.

Descoberta em áreas pequenas e desprotegidas

O local onde estes animais habitam chamou a atenção dos cientistas: pequenos fragmentos florestais cercados pela ocupação humana.

“Encontrar uma espécie inédita justamente nesses locais prova que até os menores remanescentes florestais podem abrigar uma biodiversidade única e insubstituível”, afirma a pesquisadora Carina Azevedo Oliveira Silva.

A situação, no entanto, acende um alerta. Até o momento, nenhum registro da espécie ocorreu dentro de unidades de conservação de proteção integral. Todos os indivíduos conhecidos foram encontrados em locais desprotegidos e em áreas particulares.

Os pesquisadores já consideram a espécie vulnerável. O principal motivo é a destruição histórica da Mata Atlântica de baixada, que abrange áreas costeiras abaixo de 50 metros de altitude.

A equipe agora defende a ampliação de áreas protegidas e a criação de novas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Estas unidades de conservação de domínio privado são criadas voluntariamente por proprietários de terras nas regiões de ocorrência do marsupial. A medida visa evitar que a espécie desapareça pouco tempo após a sua descoberta.

“Ainda sabemos pouco sobre a biodiversidade”

Para o pesquisador Pablo Rodrigues Gonçalves, a descoberta evidencia que até regiões consideradas amplamente estudadas ainda escondem espécies desconhecidas.

“Descobertas como essas reforçam o valor que as universidades públicas têm para a produção de conhecimento científico e para a formação de pessoas qualificadas para lidar com os problemas ambientais que enfrentamos como sociedade”, diz ele, valorizando o papel das universidades públicas.

Isabelle Chagas Vilela Borges também ressalta que a pesquisa e a descrição de novas espécies são “urgentes e necessárias”.

Ela alerta, ainda, para a falta de estudantes dispostos a atuar na área:

“Precisamos de estudantes entusiasmados nessa área que, infelizmente, está cada vez mais escassa de alunos … fazer parte da descoberta dessa nova espécie foi uma experiência incrível e fundamental para a minha formação”, completa.

Como é a nova cuíca

A cuíca-de-três-listras-do-Rio-de-Janeiro (Monodelphis semilineata) possui hábitos predominantemente insetívoros, ou seja, alimenta-se de insetos.

Uma das características usadas para diferenciá-la foi a listra escura nas costas, mais curta do que a observada em espécies similares.

Os pesquisadores analisaram 20 indivíduos ao longo do estudo e chegaram às seguintes descrições morfológicas:

  • Corpo pequeno e alongado;
  • Focinho pontudo e olhos pequenos;
  • Pelagem marrom-acinzentada;
  • Três listras escuras no dorso, que seguem até a região dos olhos;
  • Cauda relativamente curta, com distribuição específica de pelos usada na identificação da espécie;
  • Diferenças anatômicas no crânio e na dentição em relação a espécies parecidas.

Fonte: G1

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