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ALERTA

Maior felino das Américas: monitoramento aponta queda na população de onças-pintadas

Caça, perda de habitat e rodovias como a SP-250 ameaçam a espécie. Em maio, um casal de onças foi filmado atravessando a pista entre Guapiara e Apiaí (SP).

8 de junho de 2026
Larissa Pandori
8 min. de leitura
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Foto: Onças do Contínuo de Paranapiacaba/Divulgação

A onça-pintada (Panthera onca), maior felino das Américas e principal predador da América do Sul, tem enfrentado uma redução crescente de sua população e precisa lutar contra diferentes ameaças, como a caça, os atropelamentos, a perda de habitat e até os impactos das mudanças ambientais provocadas pela ação humana.

No Contínio de Paranapiacaba, o projeto de monitoramento fotográfico dos animais identificou que a população monitorada caiu pelo menos metade entre 2020 e 2023, considerado um sinal de alerta para os especialistas.

Ao g1, a bióloga e analista ambiental Beatriz de Mello Beisiegel, coordenadora do projeto “as onças pintadas do Contínuo de Paranapiacaba, explica que a perda de habitat de qualidade é um dos principais fatores que impactam a sobrevivência dos felinos.

“Um dos motivos é a diminuição de habitat e de qualidade de habitat. As estradas como a SP-250 são parte importante disso. Em 2009-2011 fizemos a primeira estimativa populacional de onças pintadas da região. Em 2020-2023 atualizamos esta estimativa, e a população da espécie diminuiu pelo menos pela metade”, comenta.

O Contínuo de Paranapiacaba é uma maiores áreas contínuas de Mata Atlântica remanescente, formada pelos parques estaduais Intervales (PEI), Turístico do Alto Ribeira (Petar), Nascentes do Paranapanema (Penap), Carlos Botelho (PECB), estes na região de Itapetininga (SP), e Estação Ecológica de Xitué (EEX), além das Áreas de Proteção Ambiental da Serra do Mar (APA) e dos Quilombos do Médio Ribeira (APA) e grandes florestas particulares.

Beatriz explica que as onças-pintadas dependem de extensos corredores florestais para se deslocarem de forma segura e manterem hábitos essenciais à sua sobrevivência.

“Para a onça-pintada é muito importante que não seja uma floresta fragmentada. Do maciço florestal até Itapetininga, até as regiões mais ao norte, tem ‘corredorzinhos’ de mato ciliar, corredorzinhos de áreas de preservação permanente, de reserva legal, que para as onças-pardas, para muitos mesocarnívoros, são usados, mas para as onças-pintadas não, porque em geral elas só usam o contínuo florestal que vai desde Tapiraí a Miracatu, até na verdade o norte do Paraná”, detalha.

Animais monitorados

Em 17 de maio, um casal de onças-pintadas foi avistado atravessando a pista da Rodovia Sebastião Ferraz de Camargo Penteado (SP-250), entre Guapiara e Apiaí (SP). Na época, a Fundação Florestal disse que os felinos são conhecidos na região e até possuem nomes de batismo, Escuro e Estrela.

Dar nome aos animais monitorados é uma estratégia utilizada pelo projeto para aproximar a população e estimular a proteção das onças-pintadas. No entanto, segundo a bióloga Beatriz, não é possível afirmar que o casal flagrado no vídeo seja, de fato, formado pelos animais conhecidos como Escuro e Estrela.

“Dar nome aos animais e contar a história de cada um realmente conquista as pessoas. Os moradores da região do Petar têm uma relação muito próxima com as onças e, por isso, logo associaram os animais ao Escuro e à Estrela. Mas não dá para fazer essa identificação com segurança, porque as imagens foram feitas de longe e nós identificamos os indivíduos pelas rosetas, que não aparecem no vídeo”, explica.

As rosetas citadas pela coordenadora são as manchas em formato de anel ou flor encontradas na pelagem da onça-pintada.

“Algumas características podem ajudar na identificação, como a região onde o animal costuma circular ou até comportamentos específicos. Mas a confirmação só acontece quando conseguimos visualizar as rosetas”, afirma.

Beatriz explica que fotos e vídeos nem sempre permitem uma identificação completa, já que o ângulo, os movimentos do animal e a incidência da luz podem ocultar parte das manchas.

A bióloga relata que a fêmea Estrela possivelmente teve um filhote no fim de 2024 e que Escuro seria o pai. Cerca de três meses antes de ela começar a ser registrada com sinais de que havia parido recentemente, o casal foi filmado acasalando diante de uma armadilha fotográfica, período compatível com a gestação da onça-pintada.

“Nós observamos uma situação muito típica de uma fêmea com filhote recém-nascido. Ela foi filmada repetidas vezes perto da SP-250, uma área perigosamente próxima da rodovia. As fêmeas costumam deixar os filhotes escondidos em um abrigo e saem para caçar nas proximidades durante os primeiros meses de vida”, explica.

Cerca de seis meses depois desses registros incomuns de Estrela, uma armadilha fotográfica captou imagens de um filhote de onça-pintada, que a pesquisadora acredita ser descendente do casal.

“Depois disso ele desapareceu dos registros, mas isso não significa que tenha ido embora. As fêmeas costumam proteger os filhotes das armadilhas fotográficas, e é muito raro conseguirmos imagens deles. Inclusive, um dos animais filmados recentemente pode ser esse filhote já crescido, porque a Estrela utiliza justamente a área onde o casal foi registrado”, afirma.

Beatriz alerta que o trecho da SP-250 onde as onças foram filmadas é considerado crítico para a fauna devido ao intenso fluxo de veículos e à ausência de passagens que permitam a travessia segura dos animais entre os fragmentos de mata.

O predador humano

Apesar do risco de atropelamentos, a caça ainda representa a principal ameaça às onças-pintadas da região. Após a divulgação do vídeo gravado em Guapiara, algumas pessoas chegaram a comentar que os animais deveriam ser mortos por supostamente representarem perigo.

Beatriz reforça que cada onça perdida causa um impacto significativo em uma população que já é pequena e vulnerável.

“Quando uma onça é morta, o prejuízo para a população [de onças] é enorme. Estudos de viabilidade populacional mostram que, em grupos reduzidos, a perda de qualquer animal altera profundamente a dinâmica da espécie. E o impacto é ainda maior quando se trata de uma fêmea em idade reprodutiva”, afirma.

A pesquisadora cita o caso da onça Soneca, monitorada pelo projeto com um colar de rastreamento. O animal foi capturado em junho de 2014 e morto quatro meses depois.

“Ela tinha cerca de seis anos quando foi monitorada e ainda poderia se reproduzir por muitos anos. Uma única fêmea pode gerar várias ninhadas ao longo da vida. Ao perdermos uma onça dessas, deixamos de ter futuros filhotes que ajudariam a manter a população”, explica.

Ela destaca que a população de onças do contínuo de Paranapiacaba funciona como um único sistema interligado. Os mesmos indivíduos registrados em parques e reservas diferentes podem percorrer grandes distâncias entre áreas protegidas.

“Muitas pessoas ainda acreditam que existem muitas onças na região, mas isso não é verdade. O mesmo animal fotografado em Carlos Botelho pode aparecer depois no Petar. Não estamos falando de populações isoladas e numerosas, mas de um grupo pequeno, conectado e extremamente vulnerável. Por isso, a morte de cada onça faz uma diferença enorme para a sobrevivência da espécie”, conclui.

Beatriz reforça que, embora a onça-pintada seja considerada o principal predador terrestre das Américas, ataques a seres humanos são extremamente raros. Segundo ela, nunca houve registro desse tipo de ocorrência no Contínuo de Paranapiacaba.

“Qualquer pessoa que tenha visto uma onça-pintada na natureza, deve saber que é é um contato à distância, porque o animal tem algo chamado distância de fuga, ou seja, é uma distância a partir da qual ele já não se sente confortável em estar perto de um ser desconhecido e a partir dessa distância ele foge. Se ele não tiver como fugir, pode atacar”, explica.

A bióloga destaca que situações de ataque costumam estar associadas a circunstâncias específicas, como quando o animal não encontra rota de escape, está defendendo alimento, filhotes ou disputando território e parceiros reprodutivos.

“Um animal lutando por alimento ataca, que teve uma proximidade forçada com o ser humano ataca, se você se aproximar de um filhote, uma mãe acompanhada por filhote é mais agressiva. Animais em situação de acasalamento ou de briga por uma parceira podem atacar”, lista.

Questionada sobre a importância da preservação da espécie, Beatriz destaca a fragilidade da população remanescente na região.

“Porque sobraram poucas. Estamos falando de uma população muito pequena e vulnerável. Conhecemos alguns desses indivíduos e dois deles foram flagrados atravessando uma rodovia extremamente perigosa, por onde passam caminhões diariamente. Elas precisam ser protegidas porque enfrentam inúmeras ameaças e correm riscos constantes para sobreviver”, conclui.

Diferença entre pardas e pintadas

Segundo a bióloga Beatriz, as diferenças entre a onça-parda e a onça-pintada vão além da aparência e ajudam a explicar por que a segunda depende mais de grandes áreas contínuas de floresta para sobreviver.

“A onça-parda tem ou pelo menos tinha uma das maiores distribuições geográficas entre os mamíferos terrestres das Américas, ocorrendo desde o norte do Canadá até o sul da Argentina. É menor que a onça-pintada, costuma pesar entre 30 e 50 quilos e tem maior capacidade de adaptação a diferentes ambientes”, detalha.

“Já as onças-pintadas ocorrem, ocorriam antigamente, até o limite norte, seria tipo Colorado nos Estados Unidos, até a Argentina, também Uruguai, Paraguai, mas elas estão bem mais restritas agora. É um animal maior, mais forte, mais poderoso, é o predador de topo”, completa.

De acordo com a coordenadora, a relação entre as duas espécies também influencia o uso do território. Como ambas podem se alimentar de presas semelhantes, elas desenvolveram estratégias para reduzir a competição por alimento e espaço.

“Em regiões onde as populações de onça-pintada são abundantes, como em partes da Amazônia, as onças-pardas costumam evitar áreas mais utilizadas pela espécie. Enquanto a onça-pintada ocupa ambientes como várzeas e florestas de terra firme, a onça-parda tende a utilizar áreas mais elevadas, como topos de morro”, aponta.

Além disso, a onça-parda pode direcionar a caça para presas menores ou diferentes daquelas preferidas pela onça-pintada. Essas adaptações permitem que as duas espécies coexistam em uma mesma região com menor disputa por recursos.

Segundo Beatriz, esse cenário ocorre principalmente em locais onde as populações de onça-pintada ainda são consideradas saudáveis. Em áreas onde a espécie está reduzida, como em parte da Mata Atlântica, a dinâmica entre os felinos pode ser diferente.

Fonte: G1

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