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AÇÃO HUMANA

Macacos da Amazônia contraem hepatite B humana em áreas degradadas, diz estudo

Pesquisadores da Inglaterra e do Brasil encontraram evidências de que primatas adquiriram o vírus em regiões fortemente impactadas pela atividade humana

13 de junho de 2026
Sarah Macedo
3 min. de leitura
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Foto: Michele Moraes Zanette/Wikimedia Commons

O avanço do desmatamento na Amazônia pode estar criando uma nova ameaça para os primatas da região: doenças transmitidas por humanos. Uma nova pesquisa identificou, pela primeira vez, a presença do vírus da hepatite B humana (HBV) em primatas neotropicais selvagens, sugerindo que a destruição ambiental e a invasão humana nos habitats desses animais estão favorecendo a transmissão da doença entre espécies.

O estudo, publicado em 3 de abril na revista EcoHealth, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Salford, na Inglaterra, e da Universidade Federal do Amazonas, no Brasil. A equipe analisou amostras de sangue e tecido hepático (fígado) de 88 primatas de 28 espécies diferentes em duas regiões da Amazônia brasileira. Uma delas estava localizada em áreas impactadas pela presença humana, nos estados de Rondônia e Mato Grosso. A outra ficava em uma região remota no alto rio Japurá, no Amazonas, considerada pouco afetada por atividades humanas.

Os resultados mostraram uma diferença marcante entre os dois cenários. Entre os 49 animais coletados nas áreas impactadas, 17 apresentaram infecção pelo HBV. Já entre os 39 primatas da região remota, nenhum caso da doença foi comprovado.

Além disso, os pesquisadores identificaram uma relação entre a densidade populacional humana e a probabilidade de infecção nos primatas. Quanto maior a presença de pessoas na região, maior era a chance de os animais estarem infectados.

Os cientistas também analisaram geneticamente parte das amostras positivas. Os vírus encontrados nos macacos pertenciam aos genótipos A e D do HBV, os mesmos que circulam entre populações humanas da região estudada. Segundo os autores, isso reforça a hipótese de que o vírus tenha sido transmitido de humanos para os primatas.

Esse fenômeno é conhecido como transmissão antroponótica, ou zooantroponose, — quando doenças infecciosas passam de seres humanos para animais domésticos ou silvestres. Mesmo que a ciência geralmente se concentre em doenças que passam de animais para pessoas, pesquisadores alertam que o caminho inverso também representa riscos importantes para a conservação da biodiversidade.

“Este é um enorme sinal de alerta”, afirmou o pesquisador Jean Boubli, da Universidade de Salford, em comunicado. Segundo ele, os resultados da pesquisa indicam que macacos que vivem mais próximos de populações humanas apresentam maior probabilidade de contrair o vírus da hepatite B.

“Sabe-se que o HBV é transmitido apenas por meio de sangue, saliva ou outro contato íntimo. Ainda não sabemos a via de infecção em macacos, e isso é algo que precisamos investigar”, afirmou.

O estudo também cita a caça de subsistência e o comércio de animais silvestres. Na Amazônia, milhões de primatas dos gêneros Alouatta, Ateles e Sapajus são consumidos anualmente por comunidades locais e povos indígenas. Algumas espécies, especialmente os macacos-de-cheiro (Saimiri), também são comercializadas com frequência como animais domésticos.

Outra questão ainda sem resposta é o impacto da infecção sobre a saúde dos primatas. Em estudos experimentais realizados com chimpanzés, a hepatite B já foi associada a sintomas como letargia, icterícia (amarelamento da pele e mucosas, urina escura e fezes brancas) e perda de apetite. No entanto, não existem estudos clínicos semelhantes envolvendo primatas neotropicais.

“Ainda não sabemos se o vírus está causando doenças nos macacos infectados. Eles não apresentam sinais clínicos, mas precisamos verificar se os macacos estão sendo afetados. É provável que sim, pois é uma doença muito grave tanto para humanos quanto para grandes símios [primatas].”

Para os autores, o fato de nenhum animal da região mais preservada ter apresentado o vírus fortalece a hipótese de que a presença humana seja o principal fator por trás das infecções observadas. Eles defendem uma maior vigilância e medidas preventivas em áreas de contato entre humanos e a vida silvestre para reduzir o risco de transmissão de doenças.

Fonte: Revista Galileu

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