O litoral do Rio de Janeiro é rota migratória de diferentes espécies de baleias. Hoje, quando elas aparecem, atraem olhares e cliques — e até drones! Mas as águas cariocas quase as levaram à extinção, em uma história marcada por muito sangue e covardia.
No corpo desses cetáceos flui um óleo que à época do Brasil Colônia era tão cobiçado quanto o petróleo é hoje. Da banha das baleias se extraía um azeite que servia para iluminar ruas e casas.
As francas eram o alvo dos baleeiros e dos arpoadores. Como têm mais gordura do que outras espécies, como a jubarte, boiavam quando mortas, ao invés de afundar.
‘Caçadas ao extremo’
“As baleias-franca foram as mais abundantes na zona costeira do Rio de Janeiro. Com a chegada dos europeus, logo pelos idos de 1600 e 1700, estabeleceram armações baleeiras na costa do Brasil. Essas populações foram caçadas ao extremo”, afirmou o oceanógrafo José Laílson.
O historiador João Daniel Almeida destacou que a “economia da baleia”, por ser muito rica, foi uma política de Estado. “A Coroa manteve o monopólio. Marquês de Pombal chegou a criar uma ‘Companhia de Baleação’ para tentar estimular isso”, ensinou.
A temporada de pesca durava 2 meses. Eram geralmente duas embarcações pequenas com 8 homens. Um barco ficava mais afastado e outro ia mais perto para dar o bote.
Um par de baleeiros conseguia até 40 animais no período — cada uma rendia cerca de 8 mil litros de óleo. Pouco importava o meio ambiente, o equilíbrio da fauna ou o bem-estar do animal.
Não sobrava nada
Uma indústria da riqueza que ficou eternizada nos registros da época, como mostrou a historiadora Maria Isabel Lenzi. No fim do século 18, Leandro Joaquim pintou, a pedido do vice-rei Luis de Vasconcelos, um oval que retrata, em diferentes momentos, o destino de uma franca.
“É a mesma baleia, não são várias. Ela entra, é arpoada, o sangue jorra. Acaba levada para a armação, o local onde a destrincham e tiram tudo dela”, descreveu.
Não era só o óleo. A banha fervida deixava como resíduo uma goma altamente aderente que serviu de argamassa para muitas construções da época. Pedregulhos envoltos nessa cola, misturada a água, cal e areia, formavam blocos super-resistentes.
Caminho da alforria
A “economia da baleia” não ajudou só a iluminar e a ampliar o Rio de Janeiro: também foi o caminho para que muitos escravizados ganhassem a liberdade.
“Você tinha um grande número de pessoas escravizadas que compravam a sua alforria e criavam redes de solidariedade para melhorar de vida — ou vendendo carne, ou vendendo óleo”, explicou João Daniel.
A atividade foi perdendo impulso no começo do século 19, muito em parte porque a população das baleias caiu drasticamente no litoral, mas também por causa da concorrência do óleo de peixe norte-americano.
“Já em meados do Brasil Império, a gente começa a importar óleo de peixe, porque a produção interna já não é mais suficiente” disse João Daniel.
O insumo mudou, mas pesquisadores acreditam que até hoje algumas espécies, como a franca, ainda não conseguiram se recuperar totalmente da carnificina de séculos atrás.
Fonte: G1