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ESTUDO

Esperança: ainda há tempo para salvar os gibões-hoolock asiáticos

5 de setembro de 2021
Sheryl Lee Tian Tong (Mongabay) | Tradução de Cibele Garcia
4 min. de leitura
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O habitat do gibão-hoolock diminuiu nas últimas décadas, mas existem hoje áreas suficientes para garantir a sobrevivência, a longo prazo, do gênero, se conservadas apropriadamente.

Populações particulares estão em risco maior de extinção local e devem ser deslocadas, incluindo as populações ocidentais de hoolock espalhadas no Bangladesh.

Pesquisadores identificaram redutos onde um número relativamente alto de gibões-hoolock foi estimado, e os quais se encontram altamente ameaçados, a serem priorizados para conservação.

Gibões-hoolock são muito vulneráveis à fragmentação e degradação florestal, devido a certas características comportamentais, o que torna proteger áreas maiores de habitat mais efetivo do que conservar mais áreas menores e fragmentadas.

Foto: Wikimedia Commons

Balançando com agilidade de galho em galho no dossel da floresta, uma família de gibões-hoolock assobia alto para proteger seu território contra invasores. Um tipo pequeno de macaco endêmico do sul e sudoeste da Ásia, os gibões-hoolock passam a maior parte da vida no alto das árvores, raramente indo ao solo. Isso torna grandes trechos ininterruptos de floresta cruciais para sua sobrevivência – no entanto, os trechos adequados estão se tornando mais escassos, afirma um novo estudo.

Os pesquisadores, cujo estudo foi publicado em julho de 2016 na Global Ecology and Conservation, chegaram a estimativas para a área do habitat do gibão-hoolock que desapareceu entre 2000 e 2018, e a área remanescente hoje, em quatro países, Mianmar, Índia, Bangladesh e China, onde os macacos vivem.

Analisando todas as três espécies de gibões-hoolock – o gibão Skywalker hoolock (Hoolock tianxing) e o gibão-hoolock-ocidental (Hoolock hoolock), ambos ameaçados de extinção, e o gibão-hoolock-oriental (Hoolock leuconedys), que se encontra em vulnerabilidade – eles descobriram que existe hoje trechos suficientemente adequados para garantir a sobrevivência a longo prazo de cada espécie.

Apesar dessa conclusão positiva, o relatório também salientou as populações que estão em maior risco de extinção local. As populações dispersas dos gibões-hoolock-ocidental que estão vivendo em florestas degradadas e fragmentadas no Bangladesh, são as mais vulneráveis e devem ser deslocadas para garantir sua sobrevivência, exclamaram os pesquisadores.

“Os gibões não são como os outros primatas. Os gibões se movem de árvore em árvore. Eles não podem andar no solo,” o primeiro autor Ngwe Lwin, candidato a Ph.D na Universidade de Tecnologia Rei Mongkut em Thonburi, Tailândia, e diretor em exercício por Mianmar na ONG Fauna & Flora International, disse ao Mongabay. Quando seus habitats são degradados por ações humanas, eles “não podem simplesmente descer e atravessar uma estrada” para procurar um novo pedaço de floresta intacta, ele disse. Eles estão presos.

Isso torna os gibões-hoolock particularmente vulneráveis à degradação e fragmentação florestal. Enquanto os humanos continuam abrindo estradas pelas florestas e derrubando árvores para obter madeira e terra agrícola, as populações caminham para se tornar mais isoladas e restritas a ilhas de habitats em um mar de degradação – com consequências.

“Quando grupos são isolados, a diversidade genética diminui. Há mais consanguinidade e eles se tornam menos saudáveis. Eles contraem doenças com mais facilidade,” Lwin disse.

Além da consanguinidade, mais disputas por comida e território acontecerão. “Gibões são animais territoriais. Se seu pedaço de floresta é degradado, eles tentarão se mudar para uma área adjacente. Contudo, se a floresta é pequena, e a área já está ocupada por outro grupo, eles brigarão,” afirma Lwin. “Mesmo se eles dividirem [com sucesso] a área, provavelmente haverá uma escassez de alimento. Um dia, o grupo simplesmente desaparecerá.”

Baseado nesses traços comportamentais, proteger áreas maiores de floresta é muito mais efetivo do que conservar áreas pequenas e fragmentadas, alegou Lwin. “Quanto maior a área, melhor é para a sobrevivência a longo prazo dos gibões.”

Para proteger as populações remanescentes de gibões-hoolock, o estudo identificou 27 “redutos”, ou trechos grandes de habitat adequados de, pelo menos, 250km², para conservação. Atualmente, esses redutos equivalem a 165,679km² – uma área um pouco maior que Bangladesh – de floresta através de quatro países, com 22% altamente ameaçados devido à caça e perda florestal, 23.5% num nível de ameaça médio, e 55% num nível baixo de ameaça.

Entre 2000 e 2018, 7.396km² – uma área cinco vezes maior que a capital da Índia, Délhi – de áreas florestais adequadas foram perdidos, discorreram os pesquisadores. O habitat do gibão-hoolock-ocidental representava desproporcionalmente 58% desse valor, devido à expansão de terras agrícolas na Índia e Mianmar. Deparando-se com as ameaças de caçada e perda de habitat, as populações reduziram 90% a mais do que nos últimos 40 anos, com uma estimativa de 3000 gibões-hoolock-ocidentais remanescentes na natureza.

Além de um programa de translocação para populações do gibão-hoolock-ocidental dispersas em Bangladesh, os pesquisadores propuseram que os conservacionistas direcionem seus esforços aos redutos identificados, onde um número relativamente alto de grupos foi estimado, e os quais enfrentam níveis altos de ameaça com proteção legal limitada. Eles também pediram que programas de conservação transfronteiriços fossem iniciados entre os quatro países.

“Eu espero que nosso artigo seja utilizado para o planejamento de conservação dos gibões-hoolock,” disse Lwin. “Esses gibões são espécies indicadoras. Se eles existem, a floresta está em boas condições e saudável. E, se pudermos proteger a floresta para os gibões, nós podemos proteger outras espécies também.”

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