EnglishEspañolPortuguês

PRIVADAS DE LIBERDADE

Destino decidido: sobreviventes do maior caso de tráfico de girafas do Brasil continuarão aprisionadas em zoológicos

Mesmo após condenações por maus-tratos, contrabando e falsidade ideológica, as vítimas ainda serão realocadas em diferentes zoos do país, prolongando a exploração e o sofrimento.

26 de junho de 2026
Redação ANDA
2 min. de leitura
A-
A+
Foto: Divulgação/PF

As girafas sobreviventes do maior caso de tráfico internacional de animais já registrado no Brasil terão um novo destino, mas não a liberdade. O Ibama definiu que parte dos animais resgatados do BioParque do Rio será transferida para o Zoológico de Brasília, onde permanecerá confinada em recintos preparados especialmente para recebê-las. Embora o número de indivíduos ainda não tenha sido divulgado, a medida da continuidade do sofrimento imposto a esses animais que já foram vítimas de uma longa sequência de abusos.

Segundo o Zoológico de Brasília, as adaptações começaram no antigo recinto da girafa Yaza, que morreu em 2025, aos 21 anos. No entanto, ampliar cercas ou reformar instalações não altera a essência do problema, que é manter animais selvagens privados de liberdade para viver em espaços artificialmente limitados, muito distantes da complexidade ambiental e social que encontrariam na natureza. Uma girafa percorre quilômetros diariamente em busca de alimento, estabelece relações sociais complexas e explora vastos territórios, comportamentos impossíveis de serem reproduzidos dentro de um recinto, por mais moderno que ele seja.

As girafas que agora serão distribuídas entre zoológicos brasileiros carregam uma história marcada pela violência desde a chegada ao país. Em 2021, dezoito animais foram importados da África do Sul para um projeto ligado ao BioParque do Rio. Durante o período de quarentena em um resort em Mangaratiba (RJ), quatro morreram em circunstâncias relacionadas a falhas de manejo durante procedimentos de contenção e transporte, provocando indignação nacional e uma investigação da Polícia Federal.

As apurações concluíram que o caso representou o maior crime de tráfico internacional de fauna já registrado no Brasil. Os animais foram trazidos de forma irregular e submetidos a maus-tratos. Quatro anos após o indiciamento, três pessoas foram condenadas por crimes como maus-tratos, contrabando, falsidade ideológica e inserção de informações falsas em parecer técnico.

Apesar das condenações, a responsabilização continua muito aquém da gravidade dos fatos. Enquanto quatro girafas morreram e as sobreviventes tiveram suas vidas completamente transformadas, profissionais e gestores ligados ao caso seguiram exercendo funções normalmente. Mesmo diante de mortes amplamente documentadas e de intenso sofrimento sofrido por elas, as consequências permanecem limitadas.

Agora, as 14 sobreviventes voltam a ser submetidas a novos deslocamentos. A redistribuição entre zoológicos prolonga o confinamento iniciado com uma importação que jamais deveria ter ocorrido. Depois de passarem anos sob tutela do Ibama em Mangaratiba, elas seguem sendo tratadas como indivíduos passíveis de realocação entre instituições, sem qualquer possibilidade de recuperar a liberdade.

A sensação é de que as vítimas continuam pagando pelos crimes cometidos contra elas. Primeiro, foram arrancadas de seu continente de origem por interesses comerciais. Depois, enfrentaram uma importação marcada por irregularidades, perderam companheiras durante procedimentos desastrosos e passaram anos vivendo sob incerteza. Agora, em vez de terem sua história tratada como um impulso para romper definitivamente com a exploração de animais silvestres, tornam-se novamente objetos de transferência entre zoológicos.

    Você viu?

    Ir para o topo