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Desmatamento e aquecimento podem causar mudanças irreversíveis na Amazônia até 2040

5 de junho de 2026
Sean Mowbray
6 min. de leitura
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Foto: Victor Moriyama/Climate Visuals

Desmatamento e mudanças climáticas estão rapidamente empurrando a floresta amazônica rumo a um perigoso ponto de inflexão. A transformação da selva em savana pode chegar muito antes do que se imaginava. Esse é o alerta de um novo artigo, publicado na revista Nature. Caso o desmatamento chegue a uma extensão de 22% a 28% da Amazônia, além de um aumento da temperatura entre 1,5 °C e 1,9 °C, o bioma pode alcançar um ponto sem volta já na década de 2040.

Os pesquisadores concluíram que ultrapassar esse limiar de desmatamento e temperatura global poderia fazer com que mais de dois terços da floresta se degradassem ou se transformassem em um ecossistema de savana. Atualmente, cerca de 17% da Pan-Amazônia já foram desmatados, e tudo indica que a Terra irá ultrapassar o aquecimento de 1,5 °C acima dos níveis pré‐industriais. Estudos alertam que é cada vez mais provável que ultrapassemos 2°C de aquecimento até 2050.

No pior dos casos, “esse limiar crítico [na Amazônia] poderia ser atingido já na década de 2040”, disse Nico Wunderling, autor principal do artigo e pesquisador do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, em entrevista à Mongabay. “Embora eu seja um pouco mais otimista: se as atuais tendências [decrescentes] do desmatamento brasileiro continuarem, talvez não alcancemos [o ponto de inflexão] até meados do século.”

“Podemos dizer com segurança que, quanto mais desmatamento ocorrer, mais baixo será esse limiar de aquecimento global”, disse Arie Staal, coautor do estudo e professor assistente na Universidade de Utrecht, na Holanda.

Para Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo (USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, que não participou do estudo, essa nova pesquisa serve como um alerta urgente de que o ponto de inflexão na região amazônica pode ser alcançado muito antes do que se previa. publicadas em 2016 e lideradas por Nobre apontaram entre 20 e 25% de desmatamento e um aquecimento de 2 °C como um limiar crítico para a Amazônia.

“O artigo é um avanço em relação ao estudo que publicamos há 10 anos, na mesma linha. Mostra que estamos ainda mais próximos de um ponto de inflexão”, disse Nobre em entrevista à Mongabay. “Eu acho que esse artigo é muito importante para mostrar o quanto é urgente salvar a Amazônia.”

Um “risco enorme”

Os autores do novo artigo analisaram projeções climáticas, modelagem hidrológica e transporte atmosférico de umidade para chegar às suas conclusões.

Até metade da precipitação da floresta amazônica é reciclada por suas árvores, mas o desmatamento em grande escala interrompe esse ciclo hidrológico vital que ocore em todo o bioma. A perda de árvores em grandes proporções reduz a liberação de vapor d’água para a atmosfera, diminui as chuvas e intensifica as secas. Quando o transporte de umidade deixa de funcionar, o estresse hídrico resultante pode matar árvores a centenas de quilômetros de distância, explicou Staal.

O lugar onde o desmatamento ocorre na Amazônia pode ser decisivo. Segundo as simulações da equipe, a perda projetada de floresta acontecerá predominantemente na região leste da Bacia Amazônica, próxima ao Arco do Desmatamento, contribuindo para “transições em cascata na direção do vento”, com o ar muito mais seco se deslocando para o oeste, na parte mais florestada do bioma, fragilizando o ciclo hidrológico.

No entanto, “se ultrapassarmos um ponto de inflexão, não significa que a Floresta Amazônica vá desaparecer no dia seguinte,” explicou Wunderling, já que esse processo se desenvolveria ao longo de décadas. “Mas isso significa que estaríamos em uma trajetória difícil de reverter.”

Atingindo-se o limiar, haveria menos chuva, desencadeando a transição de floresta saudável para floresta seca, savana ou ecossistemas sem árvores, embora ainda não se saiba qual seria o impacto exato. “Mas o que já se sabe”, disse Wunderling, é que a Amazônia se tornaria “um tipo de ecossistema degradado que não consegue cumprir os serviços ecossistêmicos, como reciclagem de água, que vemos atualmente.”

Segundo Nobre, esse cenário já está em andamento no sul da Amazônia, bastante desmatado, uma região que abrange áreas de Rondônia e Mato Grosso, já bem próxima de seu próprio ponto de inflexão. Lá, a estação seca já foi prolongada em 4 a 5 semanas por ano e as chuvas diminuíram muito.

As consequências de se atingir esse limiar em toda a Amazônia seriam de longo alcance, incluindo a perda da biodiversidade única da floresta, a interrupção dos ciclos hídricos regionais e, com o tempo, a liberação de bilhões de toneladas de CO₂ atualmente retidas nas florestas e nos solos da Amazônia.

“Esse é um risco enorme para a Amazônia”, enfatizou Nobre. Mas esses impactos também acabariam indo muito além da região, atingindo biomas como o Cerrado, que depende da floresta amazônica para obter umidade. Nesse cenário, a savana brasileira seria profundamente degradada e passaria a apresentar vegetação semiárida.

Conter o desmatamento, intensificar o reflorestamento

O estudo chegou a uma conclusão diferente para um cenário sem avanço adicional do desmatamento. Nesse caso, uma transição de grande escala só seria provável com níveis de aquecimento em torno de 3,7 °C a 4 °C. Ainda assim, esse continuaria sendo um “cenário altamente inseguro” para a floresta, escrevem os autores, já que até 35% da Amazônia ainda se degradariam ou se transformariam em savana.

Para Wunderling, porém, essa descoberta mostra que o atual sistema de floresta tropical é resiliente diante do aumento das temperaturas, desde que o desmatamento seja moderado. Essa conclusão dá esperanças de que a crise da Amazônia “pode ser revertida”, disse ele. “Nesse sentido, é um cenário positivo, pois mostra que precisamos alcançar um nível muito alto de aquecimento [de 3,7°C a 4°C] antes de vermos esses riscos de transição parcial da floresta amazônica em todo o sistema.”

Os autores do estudo destacam a necessidade urgente de ação para reforçar a resiliência da Amazônia diante das mudanças climáticas, protegendo a floresta atual e restaurando áreas perdidas. Eles apontam para iniciativas como a promessa do Brasil de restaurar 24 milhões de hectares de floresta tropical como passos positivos.

Wunderling observou que poderiam ser feitas novas pesquisas para determinar exatamente onde o reflorestamento traria mais benefícios, “para que esse ciclo de reciclagem da umidade atmosférica seja revitalizado”.

“Os efeitos negativos do desmatamento podem ser amplamente compensados pelo reflorestamento”, acrescentou Staal, o que “também daria tempo [ao mundo]” para se descarbonizar.

Nobre concordou com o chamado urgente à ação: “Precisamos realmente agir com muita rapidez para conter o desmatamento e a degradação totais [e] fazer uma restauração florestal maior [enquanto] evitamos que o aquecimento global atinja 1,8°C”, disse ele. “Se não fizermos isso até 2040, vamos ultrapassar o ponto de inflexão, e então será impossível salvar a Amazônia.”

Fonte: Mongabay

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