Por décadas, cientistas acreditaram que o segredo para transformar uma larva comum em rainha estava principalmente na alimentação à base de geleia real. Mas um novo estudo publicado na revista científica Nature indica que a realeza das abelhas é resultado de um processo muito mais sofisticado.
Pesquisadores descobriram que as futuras rainhas são criadas em estruturas especiais conhecidas como “berços reais”, construídas por operárias jovens que atuam como verdadeiras cuidadoras da monarquia da colmeia. Esses espaços possuem características físicas e químicas próprias e funcionam como ambientes cuidadosamente projetados para favorecer o desenvolvimento da nova líder.
“O modelo antigo era relativamente simples: pega-se um ovo, coloca-se em uma célula de rainha, alimenta-se com geleia real e obtém-se uma rainha”, afirmou o entomologista Boris Baer, um dos autores do estudo. “O que descobrimos é que existe toda uma engrenagem por trás desse processo. É muito mais sofisticado do que imaginávamos.”
Rainhas e operárias surgem de ovos praticamente idênticos. Ainda assim, as rainhas crescem mais, amadurecem mais rápido e podem viver anos, enquanto as operárias sobrevivem por apenas algumas semanas ou meses. Além disso, são as únicas responsáveis pela postura de ovos na colônia.
‘Geleia real’ é apenas parte da explicação
Com o uso de câmeras térmicas, análises químicas e monitoramento comportamental, os cientistas verificaram que as células onde as rainhas se desenvolvem diferem significativamente dos tradicionais favos hexagonais usados para criar operárias.
As estruturas, que lembram pequenos amendoins pendurados, são feitas de uma cera menos densa e mais maleável, capaz de reter melhor calor e umidade. A composição química também é diferente, criando condições específicas para o crescimento das futuras rainhas.
Para testar a importância desse ambiente, os pesquisadores criaram larvas destinadas a se tornar rainhas em células feitas com cera comum de operárias. Mesmo recebendo a mesma dieta, elas apresentaram maior mortalidade e se desenvolveram em rainhas menores.
Outro achado foi a identificação de um grupo de operárias jovens especializado na construção e manutenção desses berçários. Batizadas de “construtoras de células reais”, elas mantêm temperaturas corporais mais elevadas enquanto cuidam das larvas.
O calor extra parece acelerar o desenvolvimento. Uma rainha leva cerca de 16 dias para atingir a fase adulta, enquanto uma operária precisa de aproximadamente 21 dias — uma diferença crucial quando a colônia necessita substituir rapidamente sua líder.
Os cientistas também observaram que as abelhas não apenas reutilizam a cera disponível. Elas selecionam materiais de outras partes da colmeia, modificam sua composição e os incorporam às células reais. Em experimentos com partículas de grafite adicionadas aos favos, a equipe conseguiu rastrear esse processo de coleta e transformação de materiais.
Para Baer, a dinâmica lembra mais uma corte real do que um simples berçário de insetos.
“É possível pensar nisso como uma espécie de Palácio de Buckingham. Existe um grupo dedicado exclusivamente a criar a rainha e, se esse trabalho não for feito corretamente, a colônia não consegue se reproduzir”, disse.
O padrão foi observado tanto em espécies europeias quanto asiáticas de abelhas melíferas, sugerindo que essa estratégia evolutiva surgiu há milhões de anos.
Além de revelar novos detalhes sobre a vida das abelhas, os pesquisadores afirmam que a descoberta pode ampliar a compreensão sobre como fatores ambientais e sociais influenciam o desenvolvimento dos organismos. A conclusão é que uma rainha não nasce apenas da dieta que recebe, mas do esforço coletivo de toda uma sociedade trabalhando para moldar seu futuro.
Fonte: Um só Planeta