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ESTUDO

Cientistas descobrem maior cemitério de baleias já registrado em abismo do Oceano Índico

Necrópole submarina reúne centenas de esqueletos acumulados ao longo de 5 milhões de anos e abriga espécies que podem ser desconhecidas pela ciência

11 de junho de 2026
4 min. de leitura
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Foto: Nature

Um mergulho a mais de 7 mil metros de profundidade no Oceano Índico revelou um cenário tão inesperado quanto fascinante: centenas de esqueletos de baleias espalhados pelo fundo marinho, formando o que pesquisadores descrevem como o maior, mais antigo e mais profundo cemitério de baleias já encontrado.

A descoberta ocorreu na Zona de Fratura Diamantina, uma região de fossas e cordilheiras submarinas localizada no sudeste do Oceano Índico, entre a Austrália e a Antártida. Ao longo de mais de 30 expedições realizadas com um submersível de águas profundas, cientistas identificaram 485 locais contendo fósseis de baleias, além de cinco carcaças modernas em avançado estado de decomposição.

Os restos mais antigos têm cerca de 5,3 milhões de anos e ajudam a contar uma história ainda pouco conhecida sobre a vida nas maiores profundidades oceânicas. Os resultados foram publicados na revista Nature.

Além da impressionante quantidade de fósseis, o local chamou a atenção dos pesquisadores por outro motivo. Os esqueletos funcionam como verdadeiros refúgios de biodiversidade em uma região normalmente pobre em alimento.

Quando uma baleia morre e afunda até o fundo do mar, seu corpo se transforma em uma fonte de nutrientes capaz de sustentar comunidades inteiras por anos ou até décadas. Conhecidos como whale falls — ou quedas de baleias — esses eventos criam ilhas de vida em meio ao ambiente escuro e frio das profundezas.

Na necrópole da Diamantina, os cientistas encontraram uma grande variedade de organismos vivendo sobre e ao redor dos restos dos animais, incluindo crustáceos, moluscos, anêmonas, estrelas-do-mar, ofiúros e vermes especializados em consumir ossos. Em uma única carcaça moderna, foram registrados 2.840 indivíduos de fauna profunda. As análises genéticas realizadas em parte desses organismos sugerem que muitos deles podem representar espécies ainda não descritas pela ciência.

“Esta descoberta demonstra que esses ambientes extremos e inexplorados abrigam espécies e ecossistemas ainda desconhecidos pela ciência e que, portanto, ainda estamos longe de compreender a verdadeira biodiversidade do nosso planeta”, afirmou Giovanni Bianucci, da Universidade de Pisa e coautor do estudo, ao jornal The Guardian. “Além disso, ela nos mostra que a vida pode se adaptar e evoluir mesmo em ambientes extremos, onde não há luz e a pressão é extremamente alta”, acrescentou.

A distribuição dos fósseis também intrigou os pesquisadores. Os esqueletos estão alinhados ao longo de aproximadamente 1.200 quilômetros, formando o que a equipe chamou de um possível “supercorredor” de quedas de baleias. A hipótese é que a região tenha funcionado durante milhões de anos como rota migratória para baleias de barbatanas e, ao mesmo tempo, como área de alimentação para baleias-de-bico atraídas por peixes e lulas das águas profundas.

Fósseis ajudam a desvendar a evolução das baleias

Entre os achados estão esqueletos de baleias modernas e extintas. Os pesquisadores encontraram restos de baleias de barbatanas, como a baleia-minke-antártica, mas a maior parte dos fósseis pertence a baleias-de-bico, um grupo de cetáceos conhecido por realizar alguns dos mergulhos mais profundos do reino animal.

A abundância desses animais surpreendeu os especialistas. “As baleias-de-bico são raras em vida, mas abundantes na morte neste local”, observou o paleontólogo Stephen J. Godfrey, do Calvert Marine Museum, em comentário publicado junto ao estudo.

Os cientistas identificaram ainda fósseis da espécie extinta Pterocetus benguelae e descreveram uma nova espécie de baleia-de-bico, batizada de Pterocetus diamantinae, que viveu há pelo menos 5,3 milhões de anos. Segundo os autores, esses fósseis podem ajudar a compreender melhor a evolução das baleias mergulhadoras e sua adaptação aos ambientes profundos.

Alguns desses animais podem ter morrido durante mergulhos extremos nas fossas submarinas da região, cujas profundidades ultrapassam os limites normalmente alcançados por diversas espécies. Com o tempo, os esqueletos teriam se acumulado nas trincheiras em formato de V que caracterizam a paisagem submarina local.

Para os cientistas, a descoberta sugere que outros cemitérios semelhantes podem existir em regiões profundas dos oceanos ainda pouco exploradas. “Encontrar uma ‘necrópole de baleias’ com quase 800 esqueletos por quilômetro quadrado é surpreendente”, afirmou Jon Copley, professor da Universidade de Southampton que não participou da pesquisa, ao The Guardian.

Mais do que revelar um impressionante acúmulo de fósseis, a descoberta reforça o quanto os oceanos profundos permanecem desconhecidos. Em um dos ambientes mais remotos do planeta, os esqueletos de animais que viveram há milhões de anos continuam sustentando ecossistemas inteiros — e possivelmente guardando espécies que a ciência sequer conhece.

Fonte: Um só Planeta

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