COP26            

Brasil critica redução de consumo de carne recomendada em relatório da ONU

Os debates foram travados durante a elaboração do sexto relatório de avaliação do IPCC, que será um dos documentos de referência na COP26            
Na imagem, gado confinado
Brasil tentou enfraquecer o relatório do clima da ONU Foto: Reprodução | Compre Rural

Em mensagens ao relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o Brasil se opôs a recomendações para reduzir o consumo de carne no mundo e rebateu críticas à política ambiental do governo Jair Bolsonaro.

Os debates foram travados durante a elaboração do sexto relatório de avaliação do IPCC, que será um dos documentos de referência na COP26, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que começa no dia 31 de outubro em Glasgow, na Escócia.

Além do Brasil, a Argentina, a Austrália, o Japão e países da OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), conhecidos por serem produtores e consumidores de carvão, petróleo, carne e ração animal, atividades ligadas diretamente ao aquecimento global, fizeram lobby para que o IPCC retirasse do relatório recomendações sobre a redução do uso de combustíveis fósseis e trechos do documento que incentivam diminuir o consumo de carne e laticínios como forma de combater o aquecimento global.

Brasil contra redução do consumo de carnes

Segundo reportagem da BBC, documentos vazados pela ONG Greenpeace UK mostra que, nas mensagens ao IPCC, o Brasil se opôs fortemente à conclusão do relatório de que a adoção de uma dieta com menos carnes e mais alimentos feitos de plantas seria necessária para combater a mudança do clima.

O argumento foi endossado pela Argentina e, em menor grau, pelo Uruguai – outros dois grandes produtores de carne.

A produção de carne é um dos principais fatores por trás do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Isso porque a vegetação nativa é muitas vezes derrubada para dar lugar a pastagens ou plantações de soja, que alimentam rebanhos.

O rascunho do relatório do IPCC diz que “dietas à base de vegetais podem reduzir as emissões em até 50% comparado com a média de emissões da dieta Ocidental.””

Ao IPCC, porém, o Brasil argumentou que a produção de carne não necessariamente emite mais gases causadores do efeito estufa do que a produção de alimentos feitos de plantas.

Tanto Brasil quanto Argentina defenderam que os autores do relatório do IPCC apaguem ou modifiquem trechos do texto que falam que “dietas à base de vegetais” cumprem um papel na gestão das mudanças climáticas ou que descrevem carne vermelha como um alimento de “alta emissão de carbono”.

O governo brasileiro citou a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uma dieta saudável, segundo a qual a dieta deve “considerar recomendações nutricionais internacionais; (e) a adaptabilidade a contextos sociais, culturais e econômicos locais”.

Segundo o governo brasileiro, tanto dietas vegetarianas quanto dietas com carnes podem gerar altas emissões na sua produção, dependendo da metodologia de produção, mas também há formas de reduzir essas emissões, segundo o governo.

O Brasil argumentou que a pecuária, quando integrada com práticas agrícolas e conservacionistas, “pode neutralizar emissões e promover um sistema de produção equilibrado e diversificado, portanto, resiliente”.

Além disso, disse que “os benefícios nutricionais da proteína animal para a saúde humana não podem ser desconsiderados”.

Segundo a USDA, agência agrícola do governo americano, o Brasil é o segundo maior produtor do mundo de carne bovina e seus derivados, só atrás dos EUA. Em 2020, 16,67% da carne bovina consumida no mundo veio do Brasil, segundo a agência.

A coordenadora de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Fabiana Alves, declarou ser “vergonhoso” que mensagens do governo brasileiro questionando a urgência de modificar o sistema econômico para conter a crise climática venham a público.

“Isso evidencia o quanto o governo Bolsonaro e seus representantes estão preocupados única e exclusivamente com seus próprios interesses e com o lucro de poucos em detrimento do sofrimento de muitos”, afirmou.

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