INFERNO NA TERRA            

Território indígena sofre com o avanço da pecuária no Brasil

           
Incêndio na Ilha do Bananal em 2020
Incêndio na Ilha do Bananal em 2020 – Reprodução/Ascom/ CBMTO

Povos indígenas que vivem na Terra Indígena (TI) Parque do Araguaia, no Tocantins, sofrem com o aumento das queimadas e o avanço da pecuária, desmatamento e pesca ilegal.

De 1º de janeiro a 30 de setembro, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.358 focos de queimada no local, o que tornou o Parque do Araguaia a terra indígena que mais queima em 2021 no Brasil.

O dado representa 18% de todos os focos de queimada registrados em terras indígenas neste ano e mostra um aumento de 31,3% nos focos na mesma área em comparação com o mesmo período de 2020. 

Em entrevista ao site de notícias Brasil de Fato, moradores do terra indígena relataram preocupação com o avanço da pecuária e com a presença de invasores. 

Com 1.359 mil hectares, o Parque do Araguaia tem 3.502 habitantes de quatro povos: Iny Karajá, Javaé, Tapirapé e Avá-Canoeiro. Além do arrendamento de gado, autorizado pelos órgãos competentes, os moradores convivem com madeireiros e pescadores ilegais.

 “A gente ouve o presidente Bolsonaro dizer que os indígenas estão tocando fogo na Amazônia. O nosso povo não faz isso. Os invasores é que tocam fogo para limpar a estrada e poderem entrar com mais facilidade. Só que falta apoio do governo para fiscalizar. A gente fica pensando: O que eles querem? Será que querem tomar [a terra] de nós, pouco a pouco?”, desabafou ao Brasil de Fato o cacique Natanael Karajá, cacique da aldeia Lariwana, na Ilha do Bananal. 

Avanço da pecuária

A Ilha do Bananal é a maior ilha fluvial do mundo, com 1,9 milhão de hectares. Ela é cercada pelos rios Araguaia e Javaés, fica na tríplice divisa entre Tocantins, Mato Grosso e Pará, e faz parte da Amazônia Legal.

Os primeiros relatos de pecuária bovina no local remetem à década de 1920.  A atividade se intensificou na segunda metade do século, com a instalação de fazendas às margens dos rios Araguaia e Javaés.

Em 1969, a Fundação Nacional do Índio (Funai) decidiu cobrar taxas pelo uso das pastagens. Em vez de inibir a atividade, a medida legalizou a permanência de pecuaristas na Ilha.

Vinte anos depois, indígenas Javaé denunciaram à Procuradoria-Geral da República (PGR) a invasão de suas terras por posseiros. 

Por decisão judicial, a Funai passou a suspender arrendamentos irregulares e retirou os invasores. Após uma série de decisões contraditórias sobre o tema, a criação de gado dentro da TI Parque do Araguaia foi novamente permitida em 2009. 

Relatos obtidos pelo site Brasil de Fato em condição de anonimato apontam a pecuária como principal causa das queimadas.

“A gente sempre ouve reclamação de que os fazendeiros estão tocando fogo, mas eles dizem que fazem isso na época certa [queima controlada]. Então, a gente fica sem saber se o incêndio é culpa dos fazendeiros ou dos pescadores ilegais, que entram na Ilha do Bananal”, afirmou o cacique Natanael Karajá.

Apenas no 2º trimestre de 2021, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1,54 bilhão de animais foram mortos no Brasil pela pecuária.

Em apenas 90 dias, entre abril e junho, cerca de 7 milhões de bovinos, 13 milhões de porcos e 1,52 bilhão de frangos foram mortos exclusivamente para consumo no país. 

Invasão e aumento da pesca

Natanael explicou que a presença de madeireiros e pescadores é cada vez mais frequente no Parque do Araguaia, e os indígenas não têm ferramentas para monitorar e barrar essas atividades ilegais.

“Tem diminuído bastante os peixes que tinham antes – peixes grandes, que geralmente há em locais preservados. Tenho ouvido, na região da aldeia Boto Velho [da etnia Javaé], que tem havido muita pesca ilegal para venda de peixe e tartaruga”, explicou o indígena Kamutaja Silva Ãwa, que pertence ao povo ãwa. 

Avanço do fogo

Os maiores incêndios se concentram em uma região conhecida como Mata do Mamão, onde vivem indígenas isolados. Trata-se do maior maciço florestal da Ilha do Bananal, com cerca de 110 mil hectares.

“Até cinco anos atrás, o Ibama trabalhava com a ideia de desmatamento zero. De lá para cá, a gente passou a empregar uma técnica chamada Manejo Integral do Fogo, baseada em queimas antecipadas, prescritas ou controladas, para diminuir o material combustível e evitar grandes incêndios na época das queimadas”, explica o indígena Vantuires Javaé, que vive na porção leste da Ilha.

Em abril, o governo federal aprovou um corte de 24% no orçamento do Meio Ambiente para este ano.

Do total previsto inicialmente, as ações de controle e fiscalização ambiental perderam R$ 11,6 milhões, enquanto prevenção e controle de incêndios florestais tiveram redução de R$ 6 milhões.

Vantuires Javaé participou, por mais de 30 dias, de uma operação para conter o avanço do fogo na Mata do Mamão, considerado o local de incêndios mais crítico da Ilha.

A operação, liderada pelo Ibama e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMBio), começou em 19 de julho e é classificada como nível 3 – quando exige um monitoramento mais sofisticado e requer a convocação de brigadas de outros estados.

“Lá tem um histórico de incêndios muito grande. Quem faz a gestão da área é o ICMBio, que não tem corpo suficiente para atender essa demanda. Então, a gente busca pessoas de fora para ajudar nas operações”, relatou o indígena.

Segundo o Ibama, atuaram diretamente na operação 142 pessoas, entre servidores, brigadistas do Ibama e do ICMBio e um servidor da Funai, equipados com 17 viaturas tracionadas, um caminhão, um helicóptero, um quadriciclo, três viaturas adaptadas, entre outros veículos.

O cacique Natanael Karajá ressaltou que, sem apoio dos órgãos competentes, não há como proteger a Ilha do Bananal do fogo e dos invasores.

“Como liderança da região, a gente fica preocupado. A natureza, cada vez mais, está mudando. Não é a Ilha do Bananal que era antigamente”, pontuou. 

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