TRAGÉDIA            

Incêndios no Pantanal mataram mais de 17 milhões de animais em 2020

           
Amanda Perobelli | Reuters

Um estudo realizado por 30 pesquisadores de órgãos públicos, de universidades e de organizações não-governamentais estima que, ao menos, 17 milhões de animais vertebrados morreram em consequência direta das queimadas no Pantanal no ano passado.

As vítimas recorrentes foram as pequenas cobras, principalmente as aquáticas: mais de 9 milhões de mortes.

O estudo que ainda não teve a sua publicação em revista científica, foi submetido ao periódico Scientific Reports, do grupo Springer Nature, e está sob análise de outros cientistas. Os pesquisadores dizem que esse estudo é precursor no uso da “técnica de amostra de distâncias em linhas” para o cálculo de mortes dos animais em queimadas.

O método é baseado nos transectos: trilhas em linha reta através de áreas pré-determinadas pelos focos de incêndio no bioma. Cada linha percorrida tinha entre 500m e 3km. Ao todo, o grupo percorreu 114 km de transectos.

Nos trajetos lineares, as carcaças avistadas eram registradas com datas e coordenadas geográficas, assim como a distância perpendicular de cada uma delas em relação à linha de referência.

Quanto mais longe do transecto, menor a quantidade de animais encontrados. Possuindo a ciência do comportamento dessa probabilidade, os pesquisadores conseguiram criar um modelo matemático para avaliar o número de carcaças presentes na área. Dessa maneira, possibilitou a modelagem de estimativas que o grupo considerou confiáveis para o cálculo da densidade de animais mortos.

“O método é diferente, ele se baseia no conhecimento da probabilidade de detectar um animal a diferentes distâncias da linha. É uma estratégia moderna para corrigir o erro de “detectabilidade”, que é a probabilidade de enxergar o animal quando ele está presente na área em que se passa”, explica Walfrido Moraes Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal e coordenador do estudo.

Os 17 milhões de animais vertebrados são uma subestimativa, porque muitos animais que vivem em tocas ou dentro de ocos de árvores podem ter morrido nesses locais sem terem sido avistados. Há também o caso de vertebrados muito pequenos que podem ter sido completamente calcinados pelo fogo intenso.

A busca em campo era realizada em até 72 horas após o início de cada foco do incêndio, mas a maioria dos casos foi catalogado entre 24 e 48 horas. A estimativa abrange o período entre janeiro e novembro de 2020. No ano passado, o Pantanal foi consumido pela maior tragédia de sua história, com a destruição de cerca de 4 milhões de hectares (26% da área de todo o bioma).

No levantamento os animais foram divididos em dois grupos, de acordo com o tamanho da carcaça: pequenos vertebrados (menos de 2kg), como anfíbios, pequenos lagartos, cobras, pássaros e roedores; e médios para grandes vertebrados (2kg ou mais), como queixadas, capivaras, mutuns, grandes cobras, tamanduás e primatas.

Foto: Reprodução | G1

As serpentes aquáticas representaram 60% das vítimas.

“Esses animais possuem baixa capacidade de locomoção, o que dificulta a fuga durante um incêndio. Durante a estação seca costumam ficar enterradas em áreas de campo inundáveis. Quando o fogo atinge uma área úmida seca é bastante comum ocorrer o incêndio de turfa, que consome a espessa camada de matéria orgânica. Esse tipo de fogo é de difícil combate e detecção, podendo queimar por semanas e atingir os animais que habitam esses ambientes”, explicou a bióloga Gabriela do Valle Alvarenga, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), participante da pesquisa.

A biodiversidade do Pantanal é composta por mais de 2 mil espécies de plantas, 269 peixes, 131 répteis, 57 anfíbios, 580 aves e pelo menos 174 mamíferos. O número de invertebrados é desconhecido.

Os grandes vertebrados como cervos, veados, antas e onças não foram observados a partir dos transectos dada a baixa densidade populacional dessas espécies no Pantanal. Mas foram frequentemente encontrados durante o trabalho de combate aos incêndios, mortos ou feridos perto de estradas.

O estudo alerta que as transformações climáticas provocadas pelas ações do homem têm influenciado a frequência, a duração e a intensidade das secas na região. O resultado de seguidas queimadas pode ser trágico e empobrecer ainda mais o ecossistema, que já é frágil durante o período sem chuvas. O fogo faz parte da dinâmica natural do Pantanal, mas não nessas proporções.

Foto: Reprodução | G1 

Diante da possibilidade de novos desastres na região, os pesquisadores esperam com o estudo ajudar a dimensionar os impactos cumulativos causados por incêndios recorrentes no bioma.

“Esses números dão uma ideia do cenário das mudanças climáticas. A probabilidade de ter incêndios como esses é alta. Isso pode acontecer, acontecer, e acontecer, destruindo o ecossistema”, comenta o coordenador Walfrido Moraes Tomas.

O estudo teve a colaboração de pesquisadores da Embrapa Pantanal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), Universidade do Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundação Meio Ambiente do Pantanal, Instituto Smithsonian (dos Estados Unidos), entre outras instituições.

Também tiveram  apoio logístico e suporte financeiro de ONGs como WWF Brasil, ONG Panthera, Instituto Homem Pantaneiro, Ecologia e Ação (ECOA), Museu Paraense Emílio Goeldi, além da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul e da colaboração de voluntários.

Foto: Amanda Perobelli | Reuters

Logo no começo dos levantamentos no ano passado, a falta de verbas trouxe um grande impacto no planejamento e as ações no campo, e pesquisadores precisaram trabalhar voluntariamente. Com a repercussão da força-tarefa, chegaram depois recursos de governos estaduais e ONGs.

O trabalho no Pantanal foi retomado a pouco tempo em 2021, mas não tem tido suporte financeiro. O ICMBio conta com recursos próprios para enviar equipes, enquanto outras instituições dependem de doações.

O veterinário Diego Viana, integrante do Projeto Felinos Pantaneiros do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), explica que, em um “cenário de guerra” como o do ano passado, o apoio das pessoas, inclusive financeiro, é muito importante.

“Precisa-se de combustível, barcos, e carro para deslocamento a grandes distâncias até locais remotos. No ano passado teve gente doando R$ 2, R$ 5, e isso ajuda. O que importa, além do recurso, é a vontade de se envolver e colaborar de alguma forma. Isso nos dá força para continuar. Para nós que trabalhamos com a conservação do Pantanal, é muito importante fazer parte de pesquisas assim e ter essa dimensão do quanto o nosso trabalho foi impactado. O Pantanal é sinônimo de abundância. Desastres como os do ano passado acabam ameaçando todo o equilíbrio”, afirma.

Por sorte, as queimadas registradas até agora no Pantanal nos últimos meses não tiveram as mesmas proporções do ano anterior, cerca de 10% do que queimou em 2020. Os focos de incêndio em agosto foram poucos e controlados por bombeiros, proprietários de terras e a população pantaneira. Porém, a época de seca na região se estende até outubro.

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