GANÂNCIA HUMANA

Mineração expõe mulheres indígenas na América Latina a altos níveis de mercúrio

           

Um estudo realizado pela Rede Internacional de Eliminação de Poluentes (IPEN, na sigla em inglês) e o Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (BRI, na sigla em inglês) analisou os níveis de mercúrio nos corpos de 163 mulheres indígenas em idade reprodutiva.

Os autores do estudo encontraram níveis consideravelmente altos de mercúrio em mulheres de dois grupos indígenas da Bolívia que baseiam sua dieta, principalmente, em peixes obtidos em rios próximos às minas de ouro.

De acordo com os pesquisadores, o mercúrio no corpo da mãe pode colocar em risco sua saúde e a de seus fetos.

Comunidades analisadas no Brasil e na Venezuela também apresentavam mercúrio em seus corpos; na Colômbia, os grupos indígenas sem mineração de ouro nas proximidades e com dietas não baseadas em peixes, tinham os níveis mais baixos de mercúrio.

Foto: Hivos

Uma investigação recente encontrou níveis perigosamente altos de mercúrio entre mulheres de diferentes comunidades indígenas em quatro países latino-americanos. Este elemento químico é uma substância neurotóxica que representa uma grave ameaça à saúde das mulheres e dos fetos.

A Rede Internacional de Eliminação de Poluentes (IPEN, na sigla em inglês) e o Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (BRI, na sigla em inglês) analisaram os níveis de mercúrio presentes em mulheres na Bolívia, Brasil, Venezuela e Colômbia que vivem perto de áreas onde a mineração de ouro é feita com mercúrio.

Os pesquisadores coletaram amostras de cabelo de 163 mulheres em idade fértil (18 a 44 anos) nesses países e as analisaram nos laboratórios do BRI em Maine, Estados Unidos.

Eles descobriram que 58,8% delas ultrapassaram o limite estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) de 1 parte por milhão (1 ppm), um nível em que efeitos prejudiciais começam a afetar o desenvolvimento de fetos, e que 68,8% das mulheres excedeu o nível de 0,58 ppm, a menor concentração na qual há impactos negativos reconhecíveis no feto.

De acordo com o relatório, “Mercury Exposure of Women in Four Latin American Gold Mining Countries”, as mulheres das comunidades bolivianas de Eyiyo Quibo (no noroeste do país) e Portachuelo (centro) apresentaram os maiores níveis de mercúrio, com uma média de 7,58 ppm.

Os pesquisadores também encontraram altos níveis de mercúrio entre as comunidades da Venezuela e do Brasil. Na cidade venezuelana de El Callao (leste), as mulheres apresentaram um nível médio de mercúrio de 1,1 ppm. Na cidade brasileira de Vila Nova (nordeste), as mulheres analisadas tinham um nível médio de mercúrio de 2,98 ppm.

O que essas comunidades têm em comum é uma dieta baseada principalmente em peixes capturados em rios que estão em contato com minas de extração de ouro.

Na região oeste colombiana de Iquira, onde, segundo os autores, existe mineração de ouro sem mercúrio e a dieta das comunidades examinadas não é baseada em peixes, foram encontrados os níveis mais baixos desse elemento, de apenas 0,25 ppm.

Possíveis soluções

De acordo com Lee Bell, consultor de política do IPEN para mercúrio e outros poluentes orgânicos persistentes (POPs), é crucial avaliar a contaminação por mercúrio em comunidades indígenas em regiões de mineração de ouro (junto com sistemas fluviais associados), pois eles são fortemente dependentes de alimentos dos rios e florestas, especialmente peixes.

“Se suas fontes de alimento estão contaminadas, eles não têm alternativa a não ser comê-los, aumentando sua carga corporal de mercúrio. Eles não possuem fácil acesso a lojas ou dinheiro para comprar outros tipos de alimento. Eles também têm uma assistência médica mínima e essa combinação os torna muito vulneráveis em comparação a outras populações,” disse Bell, por e-mail, a plataforma de notícias, Mongabay.

Bell observou que o estudo mostra que povos indígenas da Bolívia que vivem distantes (Eyiyo Quibo fica a 300 quilômetros, ou 186 milhas, de Portachuelo, por exemplo) do mesmo sistema fluvial tinham altos níveis de mercúrio dos peixes que comem.

“Isso sugere que muitos outros povos indígenas que dependem desses sistemas fluviais também podem ser afetados pelo mercúrio e sinaliza a necessidade de intervenção do governo para interromper o uso de mercúrio, avaliar os impactos na saúde dos povos indígenas e fornecer assistência médica aos afetados”, disse Bell. “Isso não se limitaria à Bolívia, mas afetaria muitos países de mineração de ouro na América Latina, onde os indígenas dependem de peixes de rios em regiões de mineração de ouro que usam mercúrio.”

“Os indígenas dependem da terra e dos rios para seu sustento e sobrevivência. Se essas terras e rios forem contaminados com mercúrio, os peixes inevitavelmente terão mercúrio elevado e impactarão as pessoas que os comem”, acrescentou. “Este estudo mostrou que você pode viver a centenas de quilômetros de distância do mesmo sistema fluvial e ter os mesmos altos níveis de mercúrio de peixes contaminados que se movem por esses sistemas fluviais.”

Quando questionado sobre as possíveis soluções ou alternativas para essas mulheres, Bell disse que embora elas não possam mudar facilmente sua fonte de alimento, elas podem reduzir a ingestão de mercúrio comendo diferentes espécies de peixes, por exemplo, espécies mais onívoras (aquelas que comem plantas e outros peixes).

“Nossas informações mostram que os peixes carnívoros apresentam os níveis mais altos de mercúrio, pois eles acumulam a substância ao comerem outros peixes. Os peixes onívoros têm níveis de mercúrio muito mais baixos e os peixes que comem apenas plantas apresentam níveis menores ainda. Se essas mulheres comerem principalmente peixes onívoros e herbívoros, podem reduzir os níveis de mercúrio em seus corpos”, disse Bell.

Ele acrescentou que outra maneira de evitar peixes com alto teor de mercúrio é comer os peixes menores e mais jovens de qualquer espécie, em vez dos peixes maiores e mais velhos, porque o mercúrio se acumula mais nestes últimos. Isso, disse Bell, é particularmente importante se as mulheres estiverem grávidas ou pensando em ter um bebê.

“No entanto, isso é um sério impacto em seus hábitos tradicionais e reduz ainda mais suas escolhas alimentares quando o suprimento alimentar já é precário. Faz mais sentido proibir o mercúrio e mantê-lo fora dos sistemas fluviais. Mas, como medida de curto prazo, pode ajudar essas mulheres”, disse Bell.

Bell também disse que o IPEN tem conduzido, por muitos anos, estudos sobre os níveis de mercúrio em mulheres em idade fértil em todo o mundo. Esses estudos incluem pequenos estados insulares em desenvolvimento no Pacífico e na América Latina, locais na África, Ásia, Alasca e Europa Oriental e muitos mais.

“Enquanto os governos permitirem o uso de mercúrio venenoso na mineração de ouro, o IPEN continuará monitorando as populações vulneráveis e expondo os impactos desse comércio tóxico de mercúrio”, disse Bell. “Estamos discutindo oportunidades para conduzir mais amostragens na América Latina e vamos mantê-los informados sobre nosso progresso.”

 

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