LANÇAMENTO            

Livro aborda os impactos éticos das ações humanas que afetam os animais

           
Foto: Divulgação

Em julho de 2021 foi lançado pela editora Appris o livro “Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente“, de autoria de Luciano Carlos Cunha, membro da Ética Animal.

O livro apresenta de maneira detalhada em uma linguagem acessível os principais tópicos que estão em discussão quando se trata das implicações éticas de nossas decisões que afetam os animais não humanos. Esse é o objeto de estudo da ética animal, um campo da ética aplicada que tem passado por um desenvolvimento crescente nas últimas décadas. Um dos objetivos do livro é que as questões centrais da ética animal possam ser compreendidas por quem nunca ouviu falar do assunto. Outros dois objetivos são: (1) propor uma nova abordagem aos problemas centrais dessa área e, (2) apresentar questões importantes que começaram a ser discutidas apenas nos últimos anos e a maioria das pessoas (incluindo boa parte dos ativistas da causa animal) ainda desconhece.

Três questões centrais permeiam todo o livro. A primeira diz respeito a saber se os animais não humanos deveriam receber consideração moral direta. Isto é, diz respeito a saber se o bem dos animais não humanos importa por si, ou se o modo como são afetados só importa na medida em que afetar outras coisas, como os interesses humanos ou o meio ambiente. A segunda questão diz respeito ao seguinte: “se os animais não humanos devem receber consideração moral direta, qual deveria ser o grau dessa consideração?”. A terceira questão, por sua vez, diz respeito a saber quais são as implicações práticas das respostas que deveríamos dar às duas primeiras perguntas.

O livro é dividido em nove capítulos. No primeiro capítulo é descrita a situação típica da qual padecem os animais não humanos, e são apresentadas definições de alguns conceitos chave em todo o debate sobre ética animal, dentre os quais o conceito de especismo. O especismo pode ser definido como um tratamento desfavorável injusto contra quem não pertence a certa espécie ou a certas espécies. Estariam os animais não humanos a sofrer uma discriminação análoga ao racismo e ao sexismo, ao terem os seus interesses considerados em menor grau, em comparação aos interesses similares de humanos? Esse primeiro capítulo ainda não oferece uma resposta a essa questão (ela é apresentada em capítulos posteriores). Em vez disso, o capítulo apresenta uma definição detalhada do que é o especismo, para, nos capítulos seguintes, serem discutidas as formas pelas quais o especismo tem sido defendido e as razões para se rejeitá-lo.

O segundo capítulo apresenta as principais maneiras pelas quais tem-se tentado defender o especismo, e também os problemas com essas defesas. O terceiro capítulo apresenta os principais argumentos a favor da igual consideração de todos os seres sencientes (isto é, todos os seres capazes de ter experiências positivas e/ou negativas), independentemente de espécie, capacidades cognitivas, grau de proximidade conosco etc. O quarto capítulo aborda várias objeções à proposta de se dar igual consideração a todos os seres sencientes e as respostas que poderiam ser dadas a essas objeções.

O quinto capítulo discute questões relacionadas ao dano da morte para os animais não humanos. Algumas pessoas afirmam que os animais não humanos, embora sejam prejudicados com o sofrimento, não são prejudicados com a morte. Já outras pessoas reconhecem que os animais não humanos são prejudicados com a morte, mas afirmam que o são em menor grau do que são os humanos. Já uma terceira perspectiva também reconhece que os animais não humanos são prejudicados com a morte, mas, defende que seres com maiores capacidades cognitivas (humanos e não humanos) são sempre mais prejudicados com a morte do que seres com menores capacidades cognitivas (humanos e não humanos). Esta última posição é defendida normalmente com base na “Abordagem dos Interesses Relativos ao Tempo”, que defende que a magnitude do dano da morte depende do grau de conexão psicológica que alguém mantém ao longo do tempo. Assim, no quinto capítulo são abordadas duas questões: (1) “os animais não humanos são prejudicados com a morte?” e (2) “como medir a magnitude do dano da morte?”. Em relação à primeira questão, é defendida a tese de que todo e qualquer ser senciente com possibilidade de uma vida significativa pela frente a ponto de estar vivo ser melhor para ele do que estar morto é prejudicado com a morte. Já em relação à segunda questão, é defendido que a magnitude do dano da morte é uma função do quanto alguém teria pela frente para desfrutar ainda se não morresse (quanto mais teria, mais a morte lhe prejudica) e também do quanto já desfrutou (quanto menos desfrutou até agora, mais a morte lhe prejudica) e que, levando em conta esses parâmetros relacionados ao futuro e ao passado, é falso que humanos sejam necessariamente mais prejudicados com a morte do que animais não humanos, e também é falso que seres com maiores capacidades cognitivas sejam mais prejudicados com a morte do que seres com menores capacidades cognitivas.

O sexto capítulo discute algumas implicações práticas de se rejeitar o especismo e aceitar a igual consideração de todos os seres sencientes, dentre as quais: a exploração animal deveria ser abolida? Se sim, isso inclui a experimentação animal? Temos deveres positivos em relação aos animais (dever de ajudar) ou apenas deveres negativos (dever de evitar práticas que os prejudicam)? Os animais deveriam ter direitos legais?

No sétimo capítulo são abordadas as diferenças entre aquilo que é proposto pelo ambientalismo e aquilo que é proposto pela consideração moral dos animais não humanos. Apesar de frequentemente confundidas, essas perspectivas partem de fundamentos radicalmente diferentes. Enquanto a defesa da consideração pelos animais é centrada na preocupação pelo seu bem enquanto indivíduos sencientes, capazes de ter experiências positivas e negativas, o ambientalismo é centrado na preocupação com determinadas entidades não sencientes. Certas perspectivas ambientalistas consideram totalidades, como espécies ou ecossistemas, enquanto outras consideram cada organismo vivo individualmente, senciente ou não (cada planta, cada fungo, cada animal etc.). O capítulo cita alguns exemplos de como essa divergência teórica dá surgimento a conflitos na prática, particularmente no caso de práticas promovidas por defensores do ambientalismo que são extremamente prejudiciais para os animais, como a defesa da exploração animal desde que seja ecologicamente sustentável, a experimentação animal para fins ambientalistas e a chacina de animais classificados como membros de “espécies invasoras. No capítulo é defendido que práticas desse tipo seriam consideradas inaceitáveis se as vítimas fossem humanas. Quando humanos são afetados, o que os ambientalistas normalmente defendem é limitar os interesses humanos não básicos (recreativos, estéticos, econômicos, por exemplo) para preservar as entidades valorizadas no ambientalismo. Não defendem chacinar os humanos em massa para tal fim, mesmo que os humanos sejam a maior ameaça às metas do ambientalismo. Em contrapartida, defendem chacinar animais não humanos para alcançar as metas ambientalistas. No capítulo, é defendido que essa disparidade de julgamento dependendo de se as vítimas são humanas ou não humanos é um sinal de que as perspectivas ambientalistas são normalmente subordinadas ao antropocentrismo.

O oitavo capítulo aborda quais são as implicações éticas da situação dos animais que vivem fora do controle humano (por exemplo, os animais na natureza). O debate em ética animal, por muitas décadas, foi centrado quase que exclusivamente na situação dos animais que são explorados pelos humanos. Por um lado, isso é compreensível, uma vez que tais animais passam por uma vida de sofrimento extremo e há uma enorme quantidade de animais mortos. Contudo, nos últimos anos, vários autores e ativistas têm começado a discutir as implicações éticas da situação dos animais selvagens. Esse tema começou a ser discutido porque, ao contrário do que muitas pessoas pensam, os animais não humanos já são prejudicados em alto grau pelos processos naturais, independentemente de ação humana (fome, sede, doenças, desastres naturais, condições meteorológicas hostis etc.). Em especial, o modo como acontece a dinâmica de populações resulta em que nasça uma quantidade gigantesca de animais e que as taxas de sobrevivência sejam sempre muito pequenas, sendo que a imensa maioria nasce geralmente apenas para experimentar sofrimento extremo e morrer pouco depois (geralmente, de inanição). O argumento central do capítulo é o de que os argumentos que fundamentam que devemos dar consideração moral aos animais implicam que essa consideração não depende de se aquilo que ameaça o bem dos animais surge de práticas humanas ou de processos naturais: deveríamos nos basear na magnitude do dano que é possível evitar com certa quantia de recursos, e não na origem do dano. O capítulo também discute uma série de objeções à proposta de ajudar os animais que são vítimas dos processos naturais, dentre as quais, a de que tal postura seria arrogante por envolver intervir em processos naturais; a de que a atitude de ajudar esses animais seria antropocêntrica; a de que não somos moralmente responsáveis por tal situação; a de que a tentativa de ajudar poderia resultar em danos maiores em longo prazo; entre várias outras.

Por fim, o nono capítulo aborda duas questões: “qual a importância da causa animal em comparação a outras causas também importantes?” e “em que critérios deveríamos (e em quais não deveríamos) nos basear para tornar o mundo um lugar menos pior da maneira mais eficiente possível?”. Em relação à primeira questão, são apresentados alguns critérios para se medir a importância de um problema (como a escala de dano, a tratabilidade do problema, o grau de negligência e a efetividade na ajuda). Em relação à segunda questão, são discutidos vários vieses que impedem que consigamos produzir o maior bem possível, e também é sugerido o que fazer para superar esses vieses. Além disso, o capítulo também aborda a importância de se levar em conta em nossas deliberações morais os seres sencientes que existirão no futuro. Nesse contexto, é apresentada a discussão sobre riscos-S, que são riscos de no futuro existirem novas tecnologias que prejudicarão uma quantidade gigantesca de seres sencientes (um exemplo no passado foi o surgimento da pecuária industrial). O capítulo conclui investigando o que poderia ser feito agora para se tentar diminuir a probabilidade desses riscos-S se tornarem uma realidade.

Por abordar esses temas de maneira detalhada, mas ao mesmo tempo didática e com uma linguagem acessível, Uma Breve Introdução à Ética Animal será útil não apenas para quem deseja trabalhar esse tema no meio acadêmico, mas para qualquer pessoa que se preocupe em agir de modo justo para com aqueles que serão afetados por suas decisões.

O livro pode ser adquirido aqui.

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