'ENCONTRANDO PRESAS'

Filme expõe comércio ilegal que está matando onças-pintadas da Bolívia

           
Foto: Ilustração | Pixabay

Elizabeth Unger, 25 anos à época e graduada em biologia, estava trabalhando em seu doutorado como assistente de pesquisa para projetos na América Latina sobre o clima e o grande felino, quando ouviu que as autoridades bolivianas tinham interceptado dezenas de pacotes contendo presas de onças-pintadas que cidadãos chineses estavam enviando para diversos lugares na china.

“Eu fiquei completamente chocada com o fato [da história] ocorrer despercebidamente”, ela diz. Seis anos depois, ela está fazendo a sua estreia como diretora com um filme sobre o comércio que está contribuindo para a redução da população do icônico felino na América Latina.

Há entre 64.000 e 170.000 onças-pintadas remanescentes no mundo, uma fração de sua população anterior, fazendo-as entrar na lista vermelha de animais quase ameaçados da UICN. Perda de habitat, o conflito homem-vida selvagem e o mercado local de animais de estimação e de pele, assim como o tráfico contribuíram para uma queda no número de onças-pintadas.

Tigre Gente, que estreia este mês no festival de filmes de Tribeca, acompanha um guarda-florestal boliviano e uma jovem jornalista de Hong Kong que se disfarça para investigar o comércio de presas das onças-pintadas.

O filme percorre cenários desde as ravinas cobertas de névoa do super diverso parque nacional boliviano Madidi, até os arranha-céus e o comércio movimentado de Hong Kong e Guangzhou.

Unger, 31 anos, disse ao The Guardian que, assim como tinha vontade de contar a história do comércio de onças-pintadas, “eu queria muito fazer com que as pessoas pudessem se identificar com esse animal. Seu misticismo; o mistério, a poesia do maior predador das Américas e o símbolo para tantas culturas.”

Uma das estrelas do filme é Marcos Uzquiano, diretor do Parque Nacional Madidi, que lidera uma equipe de guardas-florestais à procura de caçadores ilegais que matam onças-pintadas para extrair seus dentes e pele e vendê-los por centenas de dólares no mercado negro. Uzquiano, nascido e criado nas redondezas do parque, o qual contém uma das populações de onças-pintadas mais saudáveis do continente, compartilha do mesmo respeito e reverência de Unger pelo grande felino. Ele as chama de “símbolos de vida e força”, que carregam um status místico para a população local.

No outro lado do globo, no leste asiático, as partes do grande felino foram historicamente usadas na medicina chinesa tradicional. Hoje, as onças-pintadas e suas partes do corpo ainda estão sendo traficadas em números perigosamente altos.

Um estudo do tráfico de onças-pintadas entre 2012 e 2018, publicado na revista científica Conservation Biology ano passado, descobriu que “as apreensões de onças-pintadas ao longo do tempo e a maioria das partes capturadas das mesmas era caninos”. Cerca de 34% dos relatórios sobre a apreensão das partes das onças-pintadas estavam relacionados à China.

A repórter investigativa Laurel Chor, 31 anos, nativa de Hong Kong, filmou secretamente os mercados de vida selvagem e falou com cidadãos chineses, incluindo sua própria família, com o intuito de determinar a ânsia por trás da alta demanda.

“Ela é demais”, Unger diz sobre sua protagonista feminina. “Ela tinha um histórico de investigações e pesquisas sobre tráfico e um olhar profundo e com mais nuance sobre a mentalidade chinesa por trás da demanda.”

Há sequências de ação de disparar o coração; uma perseguição de barco ao longo de um rio enquanto os guardas-florestais perseguem supostos caçadores ilegais que tentam atingir o barco deles. Os guardas também se disfarçam e usam câmeras escondidas para rastrear os traficantes.

“Eles realmente são heróis e se importam,” Unger afirma sobre os guardas-florestais com quem ela passou 3 anos filmando. “Eu fiquei muito grata por eles terem permitido que os seguíssemos por tanto tempo, especialmente em situações que com certeza estávamos atrapalhando.”

Unger diz esperar que o filme, parcialmente financiado pelo National Geographic, ajude a combater “equívocos ocidentais” sobre as atitudes chinesas a respeito do consumismo da vida selvagem.

“Há somente uma pequena fração da população chinesa que ativamente compra essas coisas, mas é um grupo grande de pessoas uma vez que a China é enorme,” ela realça, acrescentando que leis anti-tráfico estão começando a ter um impacto.

No fim do filme, Chor conversa com crianças de uma escola de Hong Kong sobre conservação. Ao levar o filme às telas de cinema, os cineastas esperam que ele acrescente ímpeto à luta pelas onças-pintadas.

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