EXTINÇÃO

Chifres de rinocerontes-brancos são removidos para protegê-los de caçadores

Especialistas afirmam que ainda há grandes preocupações com essa espécie considerada “quase ameaçada” de extinção
Foto: Casey Pratt | Love Africa
A equipe trabalha com agilidade. Assim que um rinoceronte está seguramente sedado, eles ligam a serra elétrica e começam a cortar os chifres que são a assinatura do animal. Pedaços brancos de queratina voam pelo ar como neve, sujando o chão. Quando eles desligam a serra elétrica, sobra apenas um pedaço do que era o chifre do rinoceronte.
“É uma experiência traumática para nós – não para o rinoceronte”, Mark Gerrard, diretor administrativo da “Wildlife ACT”, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para proteger animais selvagens, disse a Mongabay em uma entrevista. “É colocado no animal uma máscara em seu rosto para cobrir sua visão, tampões de ouvido em sua orelha… então isso reduz o trauma no animal. Nós temos que lembrar que isso [o chifre do rinoceronte] é só queratina – realmente são só unhas.”
Semana passada, indivíduos da “Ezemvelo KZN Wildlife”, uma organização governamental da África do Sul, trabalharam junto com a “Wildlife ACT” para retirar os chifres de toda a população de rinocerontes-brancos ( Ceratotherium simum) da Reserva Natural de Spioenkop, localizada na província de KwaZulu-Natal na África do Sul. Esse esforço visa impedir os caçadores de matar os rinocerontes por seus chifres, um destino muito comum para essa espécie quase ameaçada de extinção.
Gerrard diz que não pode dizer o número exato de rinocerontes brancos em KwaZulu-Natal por questões de segurança. Ainda assim, ele diz que há um número significante deles na área – e que foram feitos de alvo no passado pelos caçadores.
“Através da retirada dos chifres, você está reduzindo o incentivo para os caçadores entrarem na reserva, porque efetivamente a recompensa que ganham será muito menor, ou possivelmente nenhuma, mas ainda assim eles teriam o mesmo custo de entrar na reserva e praticar uma atividade ilegal, e ainda, obviamente tem que enfrentar grupos anti-caça”, ele disse.
Rinocerontes usam seus chifres para várias razões, incluindo defesa do seu território, motivo pelo qual é essencial remover os chifres da população inteira, diz Gerrard. Dessa forma, alguns rinocerontes não terão vantagens injustas sobre outros.
MIichael Knight, conselheiro da “IUCN SSC Afrincan Rhino Specialist Group”, afirma que retirar os chifres de uma população inteira é também a melhor forma de dissuadir caçadores.
“Você tem que fazer na imensa maioria dos animais na área [senão] os caçadores vão dizer ‘ok, eles só tiraram os chifres de um ou dois, mas têm muitos outros lá que podemos caçar”, Knight disse a Mongabay em entrevista. “Então isso tem que ser feito de forma bem organizada”.
Conservacionistas retiram os chifres do rinocerontes em KwaZulu-Natal desde 2015, o que levou a uma significante redução em incidentes com caçadores, diz Gerrard. Mas somente remover os chifres não conseguem proteger os rinocerontes – também é necessário que haja forte proteção a lei e esforços com monitoramento, cercamento adequado ao redor das reservas, e programas de educação continuada nas comunidades locais, ele acrescentou.
2014 foi um dos anos mais letais para os rinocerontes africanos, com 3000 incidentes com caçadores registrados no continente; 1175 somente na África do Sul. Mas desde então, a caça de rinocerontes na África do Sul tem diminuindo gradualmente, com apenas 594 rinocerontes mortos por seus chifres em 2019 e 394 em 2020.
Elise Serfontein, diretora fundadora da “NGO Stop Rhino Poaching”, diz que a caça ilegal na África do Sul diminuiu durante o lockdown causado pela COVID-19, mas aumentou assim que as restrições foram retiradas pelo governo. Ela acrescentou que as reservas de vida selvagem no país estão sofrendo para manter seus animais seguros sem a renda gerada pelo turismo, a qual eles dependiam antes.
“Nós não podemos baixar a guarda”, Serfontein disse a Mongabay em um e-mail. “Os chefes do crime e o mercado ilícito continuam, e mesmo perdendo um rinoceronte por dia significa que eles estão deteriorando o que sobrou do nosso rebanho nacional”.
“Eu acredito que retirar os chifres é uma boa solução a médio prazo, combinada com uma segurança efetiva”, ela acrescentou. “Sim, animais sem os chifres ainda serão caçados, mas o incentivo diminui. Reservas estão fazendo o que podem para manter os animais vivos e nós precisamos apoiar suas decisões e esforços”.
Knight também apoia a retirada dos chifres dos rinocerontes, mas aponta que será necessário fazer o processo repetidamente para manter seus efeitos positivos. (Leva entre 18 a 24 meses para os chifres dos rinocerontes crescerem novamente.) Devido ao custo de retirar os chifres, talvez só seja possível de ser feito em populações pequenas, ele diz.
“Quando você começa, você tem que continuar – e você também tem que fazer propaganda do trabalho”, Knight disse. “Você precisar mandar a mensagem e dizer: ‘Minha população não tem chifres, não perca tempo vindo aqui’.”
A África do Sul tem a maior população  de rinocerontes brancos da África, ostentando mais de 15600 rinocerontes, baseado numa estimativa de 2017.
Esse também foi o ano que a África do Sul tornou legal vender chifres de rinocerontes dentro do país, uma atitude criticada por alguns conservacionistas que disseram que isso pode piorar a caça ilegal. Contudo, Knight diz que ele não acha que tem necessariamente prejudicado as populações selvagens de rinocerontes no país.
“É bem limitado,” disse Knight. “E quem vai comprar de qualquer forma? As pessoas podem estar comprando como investimento, mas isso é um risco que essa pessoa corre porque é dependente de venda internacional, e nesse momento, é ilegal vender internacionalmente chifres de rinocerontes.”
Quando perguntado em como o sucesso do esforço para retirar os chifres será mensurado, Gerrard é definitivo em sua resposta: “Nenhum animal caçado.”
“Sucesso para mim seria em dois anos não ter ocorrido nenhuma captura de animais em Spioenkop”, ele disse. “E eu acho, principalmente, que o sucesso seria que a demanda por chifres de rinocerontes começasse a diminuir, para que em 2 anos nos não precisaríamos retirar os chifres novamente. Mas eu acredito não estamos nessa posição agora.”

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