AÇÃO SUICIDA            

Matamos árvores tropicais que precisamos para absorver o dióxido de carbono

Florestas desempenham o maior papel no combate ao aquecimento global            

Um par de estudos mostra que o aumento de temperaturas está encurtando a vida das árvores nas florestas tropicais e reduzindo a capacidade de absorção de dióxido de carbono da atmosfera.

Esse fenômeno já está sendo observado em partes da Amazônia onde a temperatura já ultrapassou o limite crítico de 25 oC ( 77oF); até 2050, o mesmo pode acontecer na Bacia do Congo, a segunda maior floresta tropical do mundo.

Florestas desempenham o maior papel no combate ao aquecimento global, mas os autores de estudos recente dizem que nós não devemos depender excessivamente delas com uma solução, dado a sua diminuição na capacidade de absorver dióxido de carbono.

Imagem de floresta tropical
Pixabay

“Se uma árvore vive 500 anos, ela carrega o carbono assimilado e armazenado pelos últimos 500 anos”, afirma Giuliano Locosselli, um pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) no Brasil. “Se ao invés, a árvore viver 300 anos, significa que o carbono será estocado por 200 anos a menos. Então nós estamos acelerando o ciclo do carbono, e o resultado é que nós temos mais carbono na atmosfera. ”

Árvores sempre foram os nossos principais aliados na luta contra o aquecimento global, graças à sua capacidade de tirar o dióxido de carbono do ar e armazenar por dezenas ou centenas de anos nos seus troncos, galhos, folhas e raízes. Nossa imprudência, porém. Tem sabotado essa capacidade. Esse é o resultado de dois estudos publicados no final do ano passado, que mostram um aumento de temperaturas, resultante de nossas emissões descontroladas de gases de efeito estufa, que estão reduzindo a longevidade das árvores em muitas florestas selvagens, incluindo a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta.

Os estudos – um liderado por Locosselli e publicado, e outro por Roel Brienen da Universidade de Leeds no Reino Unido, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)  – examinam as ligações entre o aumento de temperatura e o crescimento das árvores e as taxas de mortalidade. Losselli e Brienen têm trabalhado juntos por muitos anos e são co-autores nos dois estudos, junto com 20 outros pesquisadores do Brasil, Chile, Argentina, Canadá, dos Estados Unidos, da União Europeia, Alemanha, França, Itália e Finlândia. Ambos estudos usam dados do Banco de Dados Internacional Tree-Ring, o maior arquivo público desse tipo do mundo, mantido pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA). Os anéis que aparecem nas seções transversais dos troncos das árvores permitem uma informação crucial sobre a idade individual da árvore, taxa de crescimento e condições ambientais prevalecentes.

Em 2015, Brienen já tinha observado uma mudança na dinâmica de crescimento e mortalidade das árvores amazônicas. Ele analisou dados coletados de 321 partes diferentes da floresta durante as últimas 30 décadas. “ Nós rotulamos todas as árvores, identificamos as espécies e mensuramos os seus diâmetros. Aí nós voltamos alguns anos depois, medimos elas novamente, calculamos o quão rápido elas tinham crescido, quantas novas árvores foram recrutadas, quantas árvores morreram “, diz ele.

Olhando para os dados, Brienen notou que as árvores cresceram rápido nos anos de 1980 e 1990. Por um lado, isso é uma boa notícia: quanto mais rápido as árvores crescem, mais carbono pode ser retirado da atmosfera. Mas por outro lado, quanto mais rápido as árvores crescem, mais cedo elas morrem. “ É o fenômeno ‘ cresce rápido, morre cedo’,” Brienen diz. “Se eles crescem muito rápido, alcançam rapidamente um certo diâmetro e uma certa altura em que morrem. Porque as folhas não conseguem bombear toda a água que eles precisam, desde as raízes até o dossel. Aí eles falecem de falha hidráulica”

Nos anos 1980 e 1990, entretanto, essa contravenção entre crescimento e mortalidade jogou a nosso favor. O crescimento acelerado compensou as mortes prematuras das árvores quando se tratava da quantidade líquida de carbono capturado. De 2000 até 2010, entretanto, a situação começou a se reverter. “ O aumento na taxa de crescimento achatou, mas a taxa de mortalidade continuou a crescer. Isso significa, que, nos últimos tempos a floresta está absorvendo menos carbono da atmosfera do que antes”, disse Brienen.

Momento decisivo

Os estudos mostram que essa mudança foi impulsionada pelo aumento das temperaturas. Cientistas compararam árvores das zonas temperadas com aquelas das zonas tropicais e notaram que, quanto mais alta a temperatura, mais rápido o crescimento. Mas há um limite além do qual a proporção de longevidade para crescimento sai do controle: 25oC (77oC Fahrenheit);

“As taxas de crescimento nos trópicos já estão operando perto do limite”, Losselli diz. “ Então se a temperatura aumenta, não tem um grande impacto nas taxas de crescimento. Mas se você olhar para a longevidade, cai drasticamente quando a temperatura vai acima de 25oC.”

Esses achados não são somente um instantâneo do que está acontecendo agora, eles também destacam um padrão de longo prazo. No Brasil, as maiores taxas de mortalidade são observadas em árvores no norte e centro da Amazônia que podem se espalhar para a porção sul da floresta tropical até 2050. A previsão também é preocupante para a Bacia do Congo na África Central, lar do segundo maior país do mundo em extensão de floresta tropical, onde as temperaturas em toda a região são esperadas em ultrapassar 25oC em 2050. “ Significa que a capacidade das florestas em tirar o carbono da atmosfera e armazená-lo pode diminuir com o tempo,” diz Brienen.

Para Locosselli, a mensagem mais importante é que nós não devemos apostar todas as nossas fichas de solução climáticas nas florestas. Árvores e florestas ainda têm o maior papel no controle e na qualidade de carbono na atmosfera, mas a sua capacidade de manter o dióxido de carbono tem reduzido pelo aumento de temperaturas e mudanças nos padrões de chuvas”, diz ele. “Então nós temos que reflorestar e proteger nossas florestas? Sim. Mas também que reduzir as emissões.”

Impactos no Acordo de Paris

Esses achados não afetam somente o futuro de países tropicais, como Brasil e a República Democrática do Congo, mas todas as nações comprometidas com o Acordo de Paris, que visa conter o aumento médio da temperatura global em 1,5oC (2,7oF) acima de níveis industriais em 2100.

Gustavo Pinheiro é o coordenador da carteira de economia de baixo carbono no Instituto do Clima e da Sociedade (ICS), organização sem fins lucrativos que promove a indústria sustentável no Brasil. Ele diz que o aumento da mortalidade de árvores mostra que os objetivos do Acordo de Paris deviam ser mais ambiciosos e cumpridos em um tempo mais curto. “Há uma urgência em cumprir esses objetivos desde que já estamos vendo os efeitos nos ciclos hidráulicos e nos aumentos de temperaturas”, diz ele.

Mas o Brasil, sob administração do presidente Jair Bolsonaro, tem ido em direção oposta. Enquanto países como China e Reino Unido têm lançado metas mais ambiciosas, o governo Bolsonaro não apenas reduziu as metas para a redução de emissões mas as condicionou a pagamentos de 10 bilhões de dólares por ano. “ Ainda mais, a nova contribuição brasileira determinada nacionalmente – ou NDC”, que é a meta de redução que o país se comprometeu a cumprir com o Acordo de Paris – “é totalmente incerta, pois não apresenta como o país vai cumprir suas metas”, diz Pinheiro.

O Brasil está falhando também em realizar o que seria a principal contribuição para o Acordo de Paris: um fim para o desflorestamento. De 2004 a 2012, começando sob administração do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil viu sua taxa de desflorestamento cair de 27,772 quilômetros quadrados (10,722 milhas quadradas), mais da metade da Flórida, para 4,571 km² (1,765mi²). Isso foi principalmente graças  ao Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desflorestamento na Amazônia Legal (PPCDAM), implementado por Marina Silva, ministra do meio ambiente de Lula.

Mas as taxas subiram de novo em 2013, sob a presidência de Dilma Roussef, que cortou o orçamento do PPCDAM. Em 2019, o primeiro ano da presidência de Bolsonaro, o desflorestamento excedeu 10,000 km² ( 3,900 mi²), e o resultado foi o aumento de 9,6% em emissões de carbono no país. O líder da extrema direita promoveu o desmantelamento das agências ambientais e convocou as forças armadas para fazer o trabalho. Ele também encorajou mineração ilegal e desflorestamento em sua retórica. INPE, o instituto nacional responsável por monitorar a Amazônia, ainda está calculando a taxa oficial de desflorestamento de 2020, mas é esperado em ser mais de 11,000 km² (4,250 mi²).

Citações:

Locosselli, G. M., Brienen, R. J. W., Leite, M. D., Gloor, M., Krottenthaler, S., de Oliveira, A. A., … Buckeridge, M. (2020). Global tree-ring analysis reveals rapid decrease in tropical tree longevity with temperature. PNAS, 117(52), 33358-33364. doi:10.1073/pnas.2003873117

Brienen, R. J. W., Caldwell, L., Duchesne, L., Voelker, S., Barichivich, J., Baliva, M., … Gloor, E. (2020). Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs. Nature Communications, 11(1), 4241. doi:10.1038/s41467-020-17966-z

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