Escritora aborda a importância da literatura para o reconhecimento dos direitos animais

Escritora aborda a importância da literatura para o reconhecimento dos direitos animais
Foto: Arquivo Pessoal/ Sinara Foss

Em uma entrevista exclusiva à ANDA, a escritura Sinara Foss, que além de trabalhar como escritora, também dedica seu tempo a outras duas profissões: tradutora e professora de inglês, ressaltou a importância da literatura para uma melhor compreensão e conscientização da população sobre os direitos animais.

Sinara Foss nasceu em 1969 na cidade de Santo Antônio da Patrulha, Região Metropolitana de Porto Alegre. Em 1996 lançou seu primeiro livro “Memórias de um Cachorro Velho”. E desde essa época não parou mais de publicar seus livros, chegando a nove livros publicados. Sete deles são sobre a proteção animal como: “Sherlock Cat”, “Memórias de um Cachorro Velho” e a coleção “Em Busca de um Mundo Melhor”, que contém cinco livros.

ANDA: Qual o papel da literatura na conscientização sobre a proteção animal?

SINARA FOSS: A conscientização da proteção animal é relevante para uma vida mais justa. Os protetores de animais realizam sozinhos um trabalho árduo, sem ajuda de governantes. A própria Constituição Federal afirma que os “animais são tutelados pelo Estado”, mas infelizmente, na prática não é isso o que acontece. São os protetores que recolhem das ruas os animais que foram largados à própria sorte. São eles que realizam castrações (muitas vezes com dinheiro arrecadados de rifas, brechós e doações de terceiros).

São eles que dão lares temporários, que curam e socializam o animal para que possa ser inserido em um lar definitivo. No período de Lar temporário (LT) o animalzinho sofrido, com comportamento muitas vezes arredio ou arisco devido ao que sofreu nas ruas, se socializa, interagindo com pessoas e outros animais e se prepara para um lar. As casas dos protetores geralmente são cheias de animais que a sociedade jogou fora.

A literatura contribui no sentido de desenvolver o senso crítico e também para despertar o leitor para novas experiências e novas realidades. Com a leitura de livros onde os animais são narradores. O leitor entra na psique do animal, sentindo o que ele sente. O leitor passa a “calçar o sapato do animal” e vê onde aperta! O leitor passa a ver o animal com outros olhos, passa a vê-lo como um ser vivo, que como ele, sente dor, fome frio e medo.

Escritora aborda a importância da literatura para o reconhecimento dos direitos animais
Foto: Arquivo Pessoal/ Sinara Foss

A literatura que aborda a proteção animal ainda é pouco propagada ou já estamos avançando nessa questão?

SF: A literatura sobre proteção animal engatinha no nosso país. Acredito que o meu “Memórias de Um Cachorro Velho” publicado em 1996, foi um dos primeiros no Brasil neste sentido. Depois lancei a coleção “Em Busca de um Mundo Melhor” com a Sissi, cadelinha amarela como narradora. Ano passado, “Sherlock Cat” um livrinho bilíngue, que inicia com a mudança de residência de seis gatos, também apareceu no mercado.

Ao longo desse tempo, tenho observado aqui e ali surgirem escritores da literatura infantil e juvenil engajados com a causa, mas ainda é muito pouco, tendo em vista a relevância da questão. É preciso que surjam mais livros, mais filmes, mais peças de teatro abordando esse tema. É de suma importância que essa causa se espalhe, e brote em corações e mentes de pessoas de todos os cantos de nosso país…quanto mais histórias sobre animais e seu bem-estar, mais leitores, se engajarão nesta luta que hoje é de poucos.

Como a literatura pode incentivar políticas públicas e legislações em prol dos animais?

SF: A literatura pode ajudar na medida em que ela lança uma luz sobre o assunto. Com leituras, com personagens animais, a causa alcançará mais pessoas. Dessa forma, um número maior de pessoas vai ficar ciente do problema que muitas vezes passa despercebido, até que um dia a questão chegue nos ouvidos e nos olhos daqueles que podem efetivamente fazer alguma coisa. Na medida em que mais e mais pessoas se interessam por um assunto, os governantes terão que incorpora-lo em sua pauta.

Quem dá cargos aos políticos somos nós. Temos que exigir deles que lutem pelos nossos interesses. A criança leitora de hoje, será o vereador, o prefeito, o governador, o policial, o profissional adulto de amanhã. A criança leitora de hoje será o legislador de amanhã. Temos que plantar a semente do bem, da empatia. A literatura pode, sem dúvidas, melhorar o nosso futuro. A literatura pode melhorar o futuro dos animais. Se o hoje não nos agrada, lutemos hoje pelo futuro, ele está logo ali, ao nosso alcance.

Agora me ocorreu um fato. Alguns anos atrás eu estava no supermercado aqui em minha cidade e um homem, conhecido, me abordou com um relato interessante. Seu filho tinha retirado da biblioteca da escola o meu livro “Memórias de um Cachorro Velho”. Ele, o pai
também leu. Contou que no dia anterior ao que falava comigo, um cachorro adulto, sem tutor, amanheceu deitado na área da sua casa. Contou-me que ia enxotar o cachorro, mas no momento em que ia fazê-lo, pensou no meu livro e nas palavras do Xôlo, o personagem
narrador. Resultado: ele estava ali no supermercado comprando ração e ia adota-lo.

A verdade é que não seria preciso leis, nem regras, nem multas se todos tivessem consciência. Acho que é aqui, na conscientização, na formação de personalidades empáticas que entra a literatura.

A literatura pode contribuir para a redução do abandono de animais? 

SF: A literatura engajada com a causa animal pode dar o exemplo. Os animais personagens, os animais narradores podem dar seu testemunho do que é bom e do que é ruim. Acredito que um leitor, quando lê uma narrativa que o coloca no lugar do animal, narrador ou personagem, jamais será indiferente a ele. A literatura é um portal imprescindível nesta causa pois é a forma mais fácil de alcançar a todos através da escola.

Escritora aborda a importância da literatura para o reconhecimento dos direitos animais
Foto: Reprodução/ Facebook/ Sinara Foss

É sobre a guarda responsável, o quanto a literatura pode contribuir?

SF: A literatura é fundamental na formação do ser humano. Uma pessoa consciente de seus direitos e deveres certamente será um ser responsável. Vou usar o verbo adotar, para responder essa pergunta. Sou radicalmente contra a compra e venda de animais. Vidas não tem preço. É preciso haver a abolição de compra e venda de animais… Tenho nojo de gigolôs de animais. Essas pessoas deveriam arrumar um emprego de verdade ao invés de explorar vidas.

Ninguém pode adotar sem antes responder mentalmente às perguntas. Vou castrar? Vou ter espaço adequado? Vou ter tempo para passarmos juntos? Onde vai dormir? Vou levá-lo ao veterinário para vacinas e vermífugos periódicos, banhos e anti-pulgas? Quando eu sair de férias, vai junto, vai ficar com quem? Vou cuidar dele como um membro da minha família até sua morte? essas são as perguntas a serem respondidas antes de adotar um animal.

A literatura também ajuda porque ela mostra a cena. O leitor visualiza dentro de sua cabeça. A cena pode ser ruim e triste, ou alegre e aprazível. Uma história, por exemplo, onde um cão sofre por irresponsabilidade, sem cuidados básicos, ou mesmo amarrado numa corrente curta, sem carinho e sem atenção… O leitor pode se compadecer e pensar algo como, “Nossa eu não quero que meu gato ou meu cão sofra assim.

Se por outro lado, a literatura abordar uma situação de felicidade, de alegrias, uma aventura divertida, o leitor também pode pensar: “É isso, é assim que eu quero criar os meus. É assim a vida que os meus vão ter.

Foto: Reprodução/ Facebook/ Sinara Foss

Após a pandemia tivemos um aumento de abandono de animais no Brasil. Ainda falta conscientização das pessoas sobre a proteção animal?

Abandono de animais no Brasil é um problema muito sério. Falta sim, muita conscientização. Falta empatia, o colocar se no lugar do outro. Falta fazer-se pergunta: Eu gostaria de ser tratado dessa maneira? Eu gostaria que me tratassem assim? Impossível destratar alguém se essa pergunta fosse feita. Ninguém gosta de ser maltratado, malquisto. Parece que as pessoas não pensam. O livro ajuda neste sentido. O livro faz pensar. Acredito que falte também interesse dos governantes sempre tão egoístas e centrados em seus umbigos em resolver esse problema.

Esse questão do abandono de animais nem seria um problema se cada um fizesse um pouquinho. Se cada um se responsabilizasse e cuidasse do seu animal não haveria animais nas ruas. Se cada um castrasse o seu próprio animal, não haveria crias indesejadas… Sem abandono não há dor. Sem abandono não há sofrimento.

Qual é a importância da educação ambiental e da literatura sobre os direitos animais nas escolas?

SF: As escolas têm papel fundamental. Infelizmente muitas escolas seguem burocracias e elas não tem autonomia para trabalhar o assunto. Direitos animais têm entrado nas escolas apenas através da literatura”. Temos que lutar para acrescentar ao currículo das escolas uma disciplina própria para animais e natureza. O mundo só vai melhorar quando a natureza e os animais forem respeitados.

Além de publicar livros sobre proteção animal, como você atua na causa?

SF: Eu ajudo compartilhando posts de amigos nas páginas do Facebook que eu administro. Doo muitos livros para rifas e brechós de amigos protetores que precisam. E ajudo mensalmente a ONG Animal Shelter, instituição que eu e alguns amigos criamos, que visa a proteção animal na cidade de Santo Antônio da Patrulha.

Foto: Reprodução/ Facebook/ Animais Shelter

Quanto o nosso país ainda precisa avançar na questão dos direitos animais?

SF: Infelizmente agora estamos passando um período de retrocesso em relação a fauna e a flora em nosso país. Animais de todos os tipos estão mais sujeitos a violência devido ao discurso do governo atual. Precisamos avançar muito. Primeiramente escolhendo governantes que tenham mais simpatia com a causa animal e com nossas florestas e menos com lucros.

Deixe uma mensagem sobre a importância proteção animal. 

SF: Minha mensagem é ainda a mesma do Xôlo e da Sissi nos meus livros. Vamos todos ajudar! Se cada um fizer a sua parte não vai ficar ruim para ninguém. Ao ver um animal precisando de ajuda, não ligue para outro, ajude você! Faça você mesmo! Não terceirize uma situação que é sua! Deixa-me terrivelmente triste alguém se deparar com uma situação, não fazer nada além de tirar uma foto e postar nas redes sociais.

“Ah, mas eu não tinha dinheiro pra recolher” Não tinha? O protetor também não tem. Mas ele ajuda, ele resgata, ele cuida e depois sim, o protetor posta foto para pedir.

Vamos plantar árvores. Vamos criar praças! Vamos criar parques! O pássaro vem se tiver galhos para fazer ninhos. O beija flor aparece no meio das flores! Nascentes brotam em meio a raízes de muitas árvores! Vamos, cada um de nós, fazer a nossa parte! Não vamos esperar por prefeitos, governadores ou presidente! A vida não pode esperar.

Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho da escritora Sinara Foss, pode entrar em contato com ela acessando o site ou pelo e-mail: sinaragfoss@gmail.com.

Ou pela página oficial da escritora no Facebook.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

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