Irmãos usam as redes sociais para levar o veganismo para a periferia

           

Os irmãos Leonardo e Eduardo Santos, de 23 anos, são veganos, vivem na periferia de Campinas (SP) e usam a realidade que vivenciam diariamente para mostrar que o veganismo não é destinado apenas à elite. Por meio de rodas de conversas, eventos e, principalmente, pela internet, eles apresentam à população um veganismo acessível. No Instagram, a dupla criou o perfil “Vegano Periférico”, que já tem mais de 250 mil seguidores. Em entrevista exclusiva à ANDA, Leonardo abordou o trabalho realizado em parceria com o irmão. Confira abaixo.

Foto: Victória Cócolo/ G1

ANDA: Quando você e seu irmão se tornaram veganos?

Leonardo: Meu irmão se tornou vegano primeiro do que eu. Eu me tornei vegano dois anos depois, porque eu tinha muita dificuldade em me alimentar, em comer fruta, legumes, vegetais. Eu só comia arroz, feijão e um pedaço de bicho morto mesmo. Meu irmão já comia um pouco melhor, então quando a gente entrou em contato com a informação da questão do sofrimento animal, que aconteceu em 2015 quando tombou a carreta com as porcas no Rodoanel, a gente teve esse contato, só que eu não consegui mudar minha forma de viver por vários motivos. Um deles é que eu não conseguia me alimentar de outra forma, então acabei ignorando, e também porque eu tinha um certo preconceito com o veganismo da forma como ele é propagado. Mas o meu irmão e a namorada dele seguiram. A partir desse momento, de quando tombou a carreta, eles começaram a fazer uma ligação… “por que eu tenho um cachorro em casa e as porcas a gente come?”. Ai eles começaram esse questionamento e começaram a pesquisar muito sobre isso e nesse mar de informação eles foram mudando. E aí, depois de dois anos, eu decidi que queria mudar minha alimentação, que ia contribuir com a causa e me tornei vegano.

ANDA: Como surgiu a ideia de criar o Instagram “Vegano Periférico”? 

Leonardo: Depois que a gente se tornou vegano, começamos a frequentar mais feiras, a ir nos lugares. Aqui no bairro comecei a conversar com muita gente, só que eu também frequento locais onde está a classe média e converso com muita gente de classe média. A gente começou a ver tudo isso e perceber o quanto é difícil, na cabeça da população de periferia, assimilar uma informação como o veganismo, por toda questão estrutural de sociedade que a gente tem. E as pessoas que são veganas que vem da elite elas propagam isso de forma ainda pior, direcionado somente para a elite.

E aí um dia eu estava lendo um livro de sociologia e nesse livro tinha uma passagem que falava sobre o movimento punk na periferia e estava escrito “punk periférico”. E meu irmão teve a ideia de criar o Instagram. Ai eu postei um prato lá, com a necessidade mesmo de tentar mostrar para as pessoas que é possível você vir de uma realidade super conturbada, superdifícil, de uma realidade em que nós somos massacrados todos os dias, mas que com acesso à informação você pode pensar, você pode ter escolhas e que contribuir com o veganismo não é diferente. E depois que a Nátaly Neri fez uma menção à página, ela tomou uma grande proporção. O perfil é muito natural, a gente não pensa muito no que a gente está fazendo, não tem uma estrutura por trás, é algo muito natural, a gente vai vendo no dia a dia o que está acontecendo e vai publicando. Mas sem pretensão de fazer nenhuma revolução, a gente só quer agregar com a causa, contribuir e mostrar uma outra forma de pensar o movimento.

ANDA: Em uma publicação recente no Facebook, vocês disseram que o veganismo ainda está muito distante do povo. Agora, você mencionou isso novamente ao falar da dificuldade das pessoas da periferia em adotar o veganismo. Na sua opinião, a que se deve isso? O que torna a informação tão inacessível a população mais pobre?

Leonardo: É uma questão de cultura, é uma questão de que a informação na periferia custa a chegar. Tem uma questão totalmente estrutural. Nós vivemos numa sociedade, principalmente no Brasil que a desigualdade é tão visível, e a população pobre de modo geral precisa trabalhar muito, se preocupar muito com a própria sobrevivência, ela vive numa realidade tão diferente do que a elite e a classe média vivem que é impressionante. Qualquer tipo de abordagem sobre causa, sobre pensamento crítico, alguma coisa que saia do senso comum, para a periferia é uma coisa um pouco mais complicada, porque ela não tá acostumada com isso. Ainda tá distante do povo porque para o povo seguir alguma coisa, acreditar em alguma coisa, isso tem que ser passado de uma forma muito clara, tem fazer muito sentido para a população.

Isso acho que é só com tempo mesmo, com uma linguagem acessível, dialogando com a galera da base mesmo, sem ficar falando de produtos caros, sem ser agressivo na hora de passar uma informação ou chamar as pessoas de assassinas. Porque, infelizmente, a periferia está dentro de uma realidade extremamente difícil e para que a gente consiga pensar algo além da nossa sobrevivência é necessário muita consciência, muito contato com a informação. É um trabalho de base muito árduo.

E a maioria das pessoas que propaga veganismo, que faz um trabalho preocupado com os animais, que é extremamente importante, não entende dessas realidades porque não vem dessas realidades. Então fala somente com seu grupinho, falando de produtos caros, com uma linguagem acessível, falando muito em inglês. Então tudo isso complica na hora da população acessar a informação sobre o movimento e a importância que tem esse momento.

Também tem a questão de que o nosso sistema capitalista ele não permite que as pessoas pensem, é uma máquina que faz as pessoas serem condicionadas a terem determinadas atitudes em tudo. Então, além da questão sistêmica, de que o sistema capitalista sabota a população pobre e bloqueia o pensamento crítico, tem a forma como propagamos o veganismo.

Foto: Reprodução/Instagram/Vegano Periférico

ANDA: Você acredita que o ativismo via internet facilita a chegada da informação sobre veganismo à população mais pobre? Porque embora existam pessoas na periferia que não tenham acesso à internet, muitas outras que vivem essa mesma realidade acessam as redes sociais.

Leonardo: Se não fosse a internet provavelmente eu e meu irmão não teríamos nos tornado veganos, porque tivemos contato com o veganismo através de vídeos que ativistas fizeram após a carreta tombar, falando dos animais, vídeos gravados por ativistas olhando para os porcos e dizendo “ele iria virar um bacon”. A internet é fundamental. Tudo que pesquisamos, as fontes que fomos atrás, foi via internet. Porém, tem o problema de que, embora a internet seja maravilhosa, as pessoas não sabem utilizar a internet. As pessoas usam de forma alienada, mesmo com uma grande quantidade de informação que tem. As pessoas não são educadas a procurar se informar. Mas a internet é excelente. Só que a gente tem que sair um pouco da internet e ir para o palpável, fazer rodas de conversa na periferia, convidar a galera para fazer bolo, oficina, comida em geral. Além do ativismo na internet é preciso ir para a realidade e se movimentar em grupos de forma prática.

ANDA: Você falou sobre levar o debate sobre o veganismo para fora da internet. Você e seu irmão começaram a participar de rodas de conversa sobre veganismo popular, uma delas na UnB (Universidade de Brasília) e outra na periferia de Campinas. Como estes eventos tem sido recebidos pelo público presente, especialmente no caso dos eventos feitos na periferia?

Leonardo: Já fiz algumas rodas de conversa no meu bairro, na casa de cultura, numa ocupação na periferia que tem aqui perto. Quando você chega com um assunto tão difícil de entender para a maior parte da população é preciso ouvir o que eles têm a dizer. A gente sempre pergunta o que eles pensam, o que eles sabem. E vão surgindo dúvidas, questões. Porque só da pessoa ir para a roda de conversa, ela já está aberta, então é mais fácil, a galera recebe bem.

Só que aconteceu um caso interessante em Brasília. Não deu certo na UnB, por causa de uma greve, então a gente propôs que fosse numa escola pública na periferia. Tinham uns 200 alunos. No começo, fizeram piadinhas. Só que aí a gente percebeu que já foi ignorante e começou a se colocar na situação para ganhar campo e amenizar os ânimos. Falamos de como funciona a ignorância, de como a escola pública é sabotada e somos criados para não pensar e os alunos começaram a ficar quietos e a prestar atenção. No meio da palestra, várias perguntas surgiram sobre veganismo.

Acho que a gente primeiro, antes de falar de veganismo em qualquer lugar, a gente precisa entender onde a gente está e entender com quem a gente está falando, para não chegar com tanta euforia e ser rejeitado. A experiência na escola foi muito boa. No começo, ninguém respeitava, era uma gritaria. Comecei a explicar detalhe por detalhe, até brincamos e falamos que se estivéssemos do lado deles na época da escola também estaríamos gritando e não dando ouvido a algo importante. As pessoas recebem bem se elas conseguirem ter uma base para poder pensar.

ANDA: Você contou que os alunos a princípio demonstraram resistência ao tema. Quando o evento na periferia de Campinas foi divulgado numa página que leva o nome da região onde o evento foi realizado, houve comentários de pessoas debochando. Você acredita que a informação sobre o veganismo é capaz de conscientizar até mesmo pessoas que apresentam esse tipo de discurso? 

Leonardo: Na verdade, as pessoas nem sabem que o veganismo é uma causa justa. Não entra na cabeça de muita gente isso, é algo muito novo. Eu vi que teve muita gente fazendo piadinha sobre o evento. Assim aconteceu também quando a gente saiu no G1. Mas eu vejo assim, o veganismo está com uma imagem muito defasada, o veganismo aparece para as pessoas de uma forma muito nebulosa. E é justamente pela forma que ele é propagado pela maior parte dos veganos, sem perceber que estão propagando assim.

O nosso trabalho é também ajudar para mostrar uma outra forma de olhar para esse movimento. A gente tenta fazer nossa parte para ser exemplo, mas acho que mesmo assim é muito difícil que essas pessoas que falam tão mal conseguir olhar de outra forma. Mas uma coisa que acontece no nosso Instagram é que muitos adolescentes, principalmente homens, entram na página e mandam mensagem do tipo “ah, carne é gostoso, vamos matar um animal sim”. Aí a gente responde, pergunta se a pessoa está bem, e a pessoa desarma e pede desculpa por ter mandado a mensagem. Essa questão de desarmar as pessoas, perguntar por que ela gosta de carne, no nosso perfil tem funcionado. Não teve nenhum que não respondeu preocupado com a mensagem que mandou. Acho, então, que é uma questão de conversar, de fazer a pessoa se enxergar na própria ignorância. É possível, por mais difícil que seja.

ANDA: Como mostrar para as pessoas que não é preciso ser rico para ser vegano?

Leonardo: Não tem uma solução, tem caminhos. Acho que a gente precisa ser mais simples, compreensível ao passar a mensagem. Precisa entender que as pessoas estão totalmente desconectadas do veganismo. É necessário que a gente não tenha essa ansiedade e não seja imediatista. Precisamos entender que cultura, mentalidade, tudo isso vai mudando geração pós geração. E o nosso trabalho é fazer um trabalho de base agora. Falar fácil, simples, não usar expressões em inglês, não falar de produtos industrializados e caros. O trabalho é diário, a gente ser um exemplo, fazer nossa parte e conversar com as pessoas de forma educada.

ANDA: O Instagram de vocês tem mais de 250 mil seguidores, o que significa que as publicações de vocês, com refeições simples, acessíveis e nutritivas, atingem muitas pessoas. Vocês têm recebido um retorno positivo dos internautas?

Leonardo: O retorno é muito grande. É muita gente mandando mensagem para a gente falando que mudou a forma de enxergar o veganismo, que tinha preconceito e viu que estava equivocado. Recebemos muitas mensagens todos os dias. A galera parabenizando o trabalho, agradecendo, e para gente isso é o que faz sentido continuar na causa, ver o retorno, ver que a galera está se movimentando, está se mobilizando e que a página tem algum sentido.

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