Por que, na visão espírita, os animais sofrem tanto?

           
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Muita gente se pergunta por que os animais são alvo de tanta crueldade, em todas as partes do mundo, se não possuem necessidade de “resgate” que, segundo a doutrina espírita, aplica-se somente aos humanos como uma oportunidade de corrigirem erros e evoluírem por meio de diversas reencarnações. E o que acontece com eles depois que morrem? Podemos nos reencontrar com nossos amados animais num outro plano espiritual? Eles podem reencarnar e voltar para a nossa casa?

Quem responde essas perguntas é Irvênia Prada, autora dos livros “Os Animais têm Alma?” e “A questão espiritual dos animais”, numa entrevista exclusiva para a ANDA. A médica veterinária formada pela USP é coordenadora do Nuvet – Núcleo de Medicina Veterinária e Espiritualidade de SP que, inclusive, oferece, no próximo dia 8 de julho, o evento aberto ao público “A Verdadeira Natureza dos Animais” na Federação Espírita de SP (vide cartaz abaixo). Acompanhe:

ANDA: Os animais são sencientes e têm consciência de si mesmos. Portanto, o sofrimento deles diante de situações como vivissecção, abate e torturas justificadas como “esportivas” é inegável. Uma vez que os animais não têm necessidade de resgate, por qual razão eles sofrem tanto, de tantas diferentes e bárbaras maneiras? Na sua opinião esse sofrimento também contribui para a evolução espiritual deles assim como ocorre nos seres humanos?

Irvênia: Existe um resíduo de natureza religiosa em nossa cultura, de valorização do sofrimento. Quanto mais se sofre, mais santo se é considerado. Mas, não é bem assim, pois existem pessoas que sofrem e se tornam revoltadas, se sentem injustiçadas, retendo em seu íntimo sentimentos negativos que em nada ajudam o seu crescimento espiritual.

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Em seu livro Libertação, André Luiz esclarece que existe o sofrimento-expiação, quando somos colocados de novo frente a situações mal resolvidas, como chance para melhor escolha de nosso comportamento, e existe o sofrimento-aprendizado, para todos os seres vivos, como oportunidade de amadurecimento, dependendo, entretanto, do significado que se empresta à situação e da maneira como a criatura a vivencia.

Em O Livro dos Espíritos – obra básica da codificação espírita, lemos que para os animais não existe expiação. Assim, em se tratando do sofrimento dos animais, a maneira como passam por ele representa oportunidade de aprendizado e, portanto, também de evolução espiritual. Apenas é de se lamentar que esse sofrimento, pelo menos dos animais que convivem conosco, ainda seja provocado por condutas equivocadas dos seres humanos.

ANDA: Em geral, um animal reencarna em quanto tempo?

Irvênia: O tempo de permanência dos animais na erraticidade (no intervalo entre duas encarnações) representa, em nossos estudos, uma “questão”, ou seja, uma matéria ainda em discussão. Fica muito difícil aceitar-se que não existem figuras animais na chamada erraticidade, ainda mais se considerada a diversidade de milhares de espécies animais que existem.

A literatura espírita encontra-se repleta de relatos de animais no estado de desencarnados. Em Nosso Lar, de André Luiz, são referidos cães que puxam espécie de trenós. Hermínio Miranda, em Diálogo com as Sombras, descreve a presença de chefes de falanges obsessoras que se apresentam no trabalho mediúnico, montados em animais. Esse assunto merece estudo continuado, pois não temos ainda respostas satisfatórias que sejam aceitas pelo crivo da nossa razão.

ANDA: Um animal pode ser errante, isto é, devido ao apego a sua família humana continuar vagando em espírito perto dessas pessoas? E pode um animal reencarnar perto da mesma família por quem ele tem afeto a fim de conseguir viver junto dela?

Irvênia: No meu livro “A Questão Espiritual dos Animais” faço referência a dois casos muito interessantes. Um deles foi relatado pelo amigo Divaldo Pereira Franco. Certa feita, tendo ido a Campo Grande – MS para conferência, percebe a figura espiritual de um cão da raça pastor alemão no ambiente da residência de Dona Maria Edviges (então presidente da Federação Espírita do Mato Grosso do Sul), cão esse que havia desencarnado há meses, o que fez com que a senhora se emocionasse às lágrimas.

Outra vivência aconteceu com Chico Xavier e seu cão Lorde. No momento do desencarne do animal, Chico vê o espírito de seu irmão José, já desencarnado, acolher nos braços a figura espiritual do Lorde. E Chico disse que nos meses que se seguiram, quando José lhe vinha ter à presença, em espírito, apresentava-se sempre acompanhado da figura espiritual do Lorde. Portanto, esses relatos são demonstrativos de como a morte do corpo físico, apesar de determinar a decomposição da matéria orgânica, não mata nem os espíritos nem o amor que os une – sejam seres humanos e animais, criaturas do mesmo Pai.

Com relação ao animal reencarnar perto da família que ama é quase sempre o que acontece. Tenho relato de casos sugestivos de reencarnação de animais.

ANDA: Um grande dilema das pessoas é decidir pelo sacrifício quando não há mais nada a fazer e o animal está sofrendo em razão de alguma doença ou acidente. O Espiritismo não aconselha o sacrifício em humanos porque as pessoas têm que cumprir seu tempo exato em cada vida. O que a senhora poderia falar sobre isso?

Irvênia: Temos, em nossa cultura, o mito de que com a eutanásia, vamos livrar nosso amiguinho animal do sofrimento. Mas, isso é uma falácia, pois considerando-se que para o espírito humano esse procedimento é desastroso (veja-se caso de eutanásia em Obreiros da Vida Eterna, de André Luiz), quem garante que para os animais não aconteça o mesmo?

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Conforme já vimos nas questões anteriores, o sofrimento pode acontecer por expiação (para os seres humanos) ou como oportunidade de aprendizado (para todos os seres), do que podemos concluir que a vivência de uma situação difícil, como a de doença grave no animal que estimamos, e que deveremos acompanhar com carinho e cuidados, certamente irá representar para todos, se bem conduzida, chance de amadurecimento espiritual.

Portanto, na dúvida, o melhor é não optar pela eutanásia, pois é um procedimento que não tem volta! Mesmo em casos extremos e dramáticos, recomendo: o quanto lhe for possível, o quanto estiver ao seu alcance, faça opção pela vida. Hoje, com o surgimento da especialidade de “Cuidados Paliativos” em Medicina Veterinária, surge o recurso técnico de minimizar a níveis bem aceitáveis o sofrimento de nossos amiguinhos animais, “driblando”, assim, a costumeira e banalizada indicação da eutanásia.

ANDA: É verdade que os animais vêem espíritos?

Irvênia: Sim! Em O Livro dos Mediuns, temos no capitulo “Da Mediunidade dos Animais”: há evidências de que os espíritos podem se tornar visíveis e tangíveis para os animais, e que estes compreendem certos pensamentos do homem.

ANDA: Alguns animais pressentem a morte de entes queridos e a morte deles próprios? Em caso positivo, isso seria um talento da alma deles?

Irvênia: Jamais encontrei nas obras da codificação espírita, qualquer informação sobre isso. Tudo o que temos são relatos emanados de vivências populares, que podem ser sim sugestivos ou indicativos de que alguns animais tenham essa faculdade. Portanto, é um assunto que ainda merece mais estudos.

ANDA: Nós, humanos, já fomos cachorro, gato, cavalo e até formiga? Em nossas várias encarnações passamos por diversos tipos de forma animal?

Irvênia: Eu particularmente considero que a ideia de um processo evolutivo, tanto orgânico quanto espiritual, permeia toda a literatura espírita, como por exemplo em O Livro dos Espíritos (ítem 540), A Gênese, de Kardec (capítulos X e XI), Evolução em dois Mundos, de André Luiz, Gênese da Alma, de Cairbar Schutel, Evolução Anímica, de Gabriel Delanne e A Caminho da Luz, de Emmanuel, entre outras publicações.

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Particularmente em relação ao item 540 de O Livro dos Espíritos, em que se considera a evolução “do átomo ao arcanjo”, entendo que não é o átomo, como porção indivisível de matéria, que evolui e se transforma em arcanjo, mas o Princípio Inteligente é que, criado simples e ignorante, em sua caminhada evolutiva vai estagiando na matéria em diferentes representações, conforme seus diferentes graus de desenvolvimento.

Em No Mundo Maior, de André Luiz, capítulo 3, o mentor Calderaro elucida: “…as árvores que por vezes se aprumam centenas de anos, a suportar os golpes do Inverno e acalentadas pelas carícias da Primavera, estão conquistando a memória, a fêmea do tigre, lambendo os filhinhos recém-natos, aprende rudimentos do amor e o símio, guinchando, organiza a faculdade da palavra… Desde a ameba, na água tépida do mar, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecionando, invariavelmente.”

Entendo que não são as árvores que estão conquistando a memória, mas o princípio inteligente que nelas estagia. Não é a fêmea do tigre que se encontra aprendendo rudimentos de amor, mas o princípio inteligente que nela estagia. Não é o símio que organiza a faculdade da palavra, mas o princípio inteligente que nele estagia. Concluindo, não encontrei, em toda a obra da codificação espírita, informação sobre uma eventual “sequência” de espécies vegetais ou animais em que o princípio inteligente estagiaria, aqui em nosso planeta Terra. Mas, certamente ele passou sim, por várias das formas vegetais e animais que aqui existem.

ANDA: Todos os amantes de animais se confortam com a esperança de um dia reencontrarem os animais que já morreram num plano espiritual. Isso, inclusive, é mostrado em filmes como “Amor além da vida”, onde um homem revê seu cão no “céu” depois que também morre. Existe essa possibilidade?

Irvênia: Intuitivamente sentimos que essa possibilidade corresponderia à bondade e à justiça do Criador, pois nada mais desejável, de ambas as partes, do que o encontro e a convivência de seres que se amam. Em meu livro A Questão Espiritual dos Animais, registro um caso muito interessante.

Eu havia feito uma palestra sobre animais na Instituição Assistencial Meimei – IAM, em São Bernardo do Campo e, ao terminar a minha fala, veio ao meu encontro a Sra. Miltes Bonna, então presidente da entidade, e contou-me que participava de um trabalho de assistência espiritual a entidades desencarnadas. Qual não foi sua surpresa, certa noite, ao perceber, no plano espiritual, a figura de um cãozinho branco e peludo que corria em direção ao leito de uma moça à qual continuavam a prestar assistência.

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A moça havia desencarnado em situação lamentável e se encontrava tão magoada que não se dispunha a despertar. Mas, ao ouvir os latidos do cãozinho, abre os olhos, abraça-o e repete amorosamente: Xuxú, Xuxú. O fato é que, nas semanas que se seguiram, durante o tratamento espiritual, lá também se encontrava o Xuxú, em amorosa companhia à assistida. O amor venceu!

Fátima ChuEcco* é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

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