Tutores descobrem que cães comprados vieram de canis envolvidos com maus-tratos

           

Casos de maus-tratos a animais em canis que os exploram para reprodução e venda são comuns. Apenas no estado de São Paulo, mais de 4,6 mil denúncias relacionadas a criadores foram registradas em 2018, segundo dados da Polícia Ambiental. Muitos tutores que optam por comprar animais, no entanto, não tem consciência dessa realidade. Outros, passam a descobrir com o tempo.

Nanaïs34/Creative Commons

É o caso da médica veterinária Daniela Mello, que comprou um chihuahua em uma das lojas da rede Petland e, recentemente, descobriu que o animal veio de um canil fechado por maus-tratos. Hoje, ela lamenta o sofrimento dos pais de Mogli, como é chamado o cão, devido aos maus-tratos que eles sofreram para que o chihuahua nascesse.

Um spitz alemão comprado por uma mulher que preferiu não se identificar também sofreu as consequências de ter nascido em um canil que ficou conhecido por maltratar animais. O filhote foi comprado em uma pet shop nos Jardins, em São Paulo, e pouco meses depois foi diagnosticado com alopecia, uma doença de pele sem cura. Pior foi saber que o animal vinha de um canil que praticava maus-tratos. As informações são do blog Comportamento Animal, do Estadão.

“Quando soube, chorei, chorei muito, porque nunca imaginei que um dia eu poderia ter financiado aquela barbárie”, disse. “Eu fiquei muito decepcionada, sempre me preocupei com essas questões de qualidade de vida dos pais do meu cachorro, é uma sensação de profunda tristeza saber que o meu bebê vive tão bem, enquanto os pais estavam naquelas condições insalubres”, completou.

A tutora afirma que os proprietários da pet shop que venderam o cachorro também não sabiam das condições do canil. “A dona do canil os recebia em um ambiente totalmente diferente daquele encontrado pela polícia”, explicou. Lidyane, proprietária da pet shop, está avaliando se continuará vendendo cães no estabelecimento.

Ao ser questionada se recomendaria que outras pessoas comprassem animais, a mulher respondeu que prefere indicar a adoção. “Com a quantidade de cães de abrigo, tanto SRD como os de raça, eu sugeriria adoção”, afirmou.

Pikakoko/Creative Commons

Assim como o spitz alemão, o buldogue francês comprado pela gerente de Estudos Clínicos, Camila Canale, também apresentou doenças devido a forma como foi criado no canil. O animal foi comprado em uma loja da Petz, que revendia cães do canil Céu Azul, fechado por maus-tratos na última semana. Camila pretendia comprar um pug, mas decidiu antes conversar com o marido. Quando retornou ao estabelecimento, o cão havia sido vendido e ela decidiu, então, levar o buldogue. A tutora conta que os vendedores não fizeram nenhuma pergunta para ela e nem a alertaram sobre problemas que poderiam ocorrer com o animal. “Foi uma compra impulsiva. Estava muito triste pela perda do meu cachorro e pensei que outro animal poderia me ajudar neste período difícil” contou Camila, que comprou o buldogue logo após a morte de um labrador da família.

O buldogue, porém, veio muito doente. Durante os oito anos de vida dele, diversos tratamentos foram feitos para várias patologias, algumas associadas a fatores genéticos. “Conversei muito com meu marido sobre a origem dos próximos animais que teríamos e quando nos interessamos pelo filhote na Petz, tínhamos uma falsa segurança que ele viria de um criador responsável e que seria saudável. Só percebemos que algo estava errado depois de mais ou menos 2 meses com o filhote. Levamos ao veterinário e veio a confirmação de displasia femoral”, lamentou. O buldogue veio do canil Sakura Kennel, ainda em atividade.

“Hoje sou totalmente contra a venda de animais em pet shop. A forma como ele é vendido o transforma em objeto. Se alguém compra por impulso e não tem noção da responsabilidade de cuidar de um animal, certamente devolve ou ‘se livra’ de alguma forma. Acredito que hoje, as ONGs que fazem adoção, tenham mais cuidado com a escolha dos tutores de animais que os pet shops que vendem”, alertou Camila.

Foto: Camila Canale

Portas abertas para a adoção

Nas últimas décadas, a forma como os animais são tratados por empresas do ramo tem mudado. A Cobasi é um exemplo dessa mudança. Há 21 anos, a empresa começou a trabalhar com a adoção de cachorros e gatos.

“Em 1998 fiz uma viagem aos Estados Unidos e observei a forma que eles trabalham a adoção nas lojas e achei importante trazer um projeto desse para o Brasil. Assim que retornei da viagem quis implementar as adoções nas lojas e criei o primeiro centro de adoções na Cobasi Villa Lobos, primeiro dentro de um pet shop”, contou Ricardo Nassar, Sócio Diretor da Cobasi.

Atualmente, a empresa é parceira de 27 entidades de proteção animal e eventos de adoção são organizados em 28 lojas no país. O objetivo é ampliar as unidades com eventos de adoção. “Nesses 21 anos de centros de adoções já conseguimos lares para mais de 30 mil animais”, comemorou Ricardo.

Na terça-feira (19), a Petz anunciou que também não irá mais vender filhotes de cães e gatos em suas lojas. A decisão, tomada tardiamente, veio após um escândalo tornar pública a parceria da empresa com o canil Céu Azul, fechado na última semana por maus-tratos. A pressão feita por ativistas e internautas para que a empresa parasse de vender cachorros e gatos surtiu efeito.

Rex Sorgatz/Creative Commons

“É uma decisão assertiva, seguindo o caminho que a Cobasi tomou há alguns anos de não comercializar esses animais e promover a adoção”, disse Ricardo, da Cobasi.

O fim das vendas de cachorros e gatos na Petz foi cobrado durante cinco anos pela entidade Ampara Animal, que levou profissionais à empresa, apontou a existência de grandes redes, brasileiras e americanas, que não vendem animais. Porém, o presidente da Petz, Sergio Zimerman, mostrava-se irredutível. Foi necessário um lamentável caso de maus-tratos ligado à empresa ocorrer para que as vendas fossem finalizadas. Esse tipo de comércio era realizado pela Petz desde a inauguração da empresa, há 16 anos.

As últimas ninhadas que estão nas lojas permanecerão à venda, segundo o presidente. O dinheiro arrecadado com a venda dos filhotes será destinado a ONGs – prática, no mínimo, controversa, que opta por doar a entidades dinheiro adquirido com base na exploração e crueldade animal ao invés de disponibilizar os cães e gatos para adoção.

No entanto, apesar das mudanças, nem todas as lojas puseram fim às vendas. É o caso da Petland, que ainda comercializa animais, mostrando que está desalinhada com a luta pela defesa dos animais, amplamente difundida em todo o mundo. “Estamos avaliando os possíveis cenários e desdobramentos, antes de tomar qualquer decisão”, afirmou um porta-voz da empresa.

A Petland, porém, também realiza ações sociais voltadas aos animais. São mais de 150 eventos de adoção realizados por ano, parcerias com 23 entidades, doações feitas para as ONGs por franqueados e pela franqueadora através do programa sócio-colaborador & ONG Aila, além da empresa reverter parte das vendas dos produtos da PET CHOICE, marca própria, para ONGS parceiras, realizar o SRDay, no último sábado do mês de outubro, quando o valor arrecadado em royalties das lojas é destinados a três entidades parceiras e fazer o programa voluntários por um dia, no qual ONGs são visitadas para que os animais recebam amor e carinho dos voluntários. Todas essas ações, no entanto, não anulam a exploração animal perpetuada pela empresa ao comercializar seres vivos.

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