Tráfico de animais: um crescente mercado facilmente driblado pela lei

           

O tráfico de animais continua apelando para algumas estratégias de impressionar seus consumidores. Répteis e anfíbios como lagartixas, pítons, sapos, jiboias e até tartarugas são, muitas vezes, espécies extremamente raras e com grande variedade de cores, o que aumenta a procura desses animais para venda.

Répteis e anfíbios são vistos como exóticos e portanto, são de grande procura do tráfico de animais. (Foto: Gareth Harris)
Répteis e anfíbios são vistos como exóticos e portanto, são de grande procura do tráfico de animais. (Foto: Gareth Harris)

Esses animais exóticos começaram a ter sua popularidade crescente ainda na década de 90, principalmente em grandes países da Europa, nos Estados Unidos e no Japão.

A União Europeia importou mais de 20 milhões de répteis e anfíbios apenas em um intervalo de dez anos, já nos EUA é estimado que ao menos 4,7 milhões de domicílios possuam um réptil como animal doméstico.

A popularidade desses animais selvagens gerou um comércio ilegal gigante, conforme dizem os conservacionistas. Na grande maioria das vezes, os animais foram criados em cativeiro de forma ilegal, assim como a venda deles. Inclusive a captura desses animais na natureza é feita de forma irresponsável e não legalizada.

Em entrevista para o The NY Times, o antropólogo Vincent Nijman, da Oxford Brookes University, comentou: “É a escala que importa, e a escala é enorme, muito maior do que as pessoas imaginam. A maioria dos conservacionistas está apenas se concentrando em espécies carismáticas, mas este comércio provavelmente está tendo um enorme impacto sobre os ecossistemas e populações de animais menos conhecidos.”

A mentira da criação em cativeiro

A Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas é um tratado com objetivo de regulamentar o comércio de animais silvestres e garantir os menores impactos possíveis sobre tais espécies selvagens. Ano passado, a convenção identificou 18 casos em que os animais são exportados como criados em cativeiro, mas provavelmente não é essa a realidade.

Como exemplo, tartarugas-marinhas indianas, da Jordânia e rãs-de-olhos-vermelhos, da Nicarágua, ambas espécies ameaçadas de extinção. Ainda, “estes são os casos mais flagrantemente questionáveis”, e que devem ser tratados com urgência”, conforme Mathias Loertscher, presidente do comitê de animais da Cites, disse para o NY Times.

A Indonésia é destaque no tráfico de animais, principalmente de répteis, que junto com outros animais selvagens são rotulados como criados em cativeiro, mas em alguns casos é quase certo que os animais foram capturados da natureza.

Ao menos 80% das mais de 5 mil pítons verdes exportadas anualmente da Indonésia como criados em cativeiro foram, na realidade, capturadas ilegalmente, esgotando algumas populações da ilha, conforme citado um estudo publicado na revista Biological Conservation.

As autoridades da Indonésia, agora, são obrigadas a provar que certos animais comercializados são genuinamente criados em cativeiro. Se não houver provas, a Cites poderá impedir o comércio internacional dessas espécies.

Mais de quatro milhões de animais ‘criados em cativeiro’ foram autorizados de ser exportados somente em 2016 na Indonésia.

Pesquisas em instalações de reprodução de répteis podem, inclusive, funcionar como “lavagem de animais” que foram, na realidade, capturados em estado selvagem. “Na maioria dessas instalações, simplesmente não havia evidências de reprodução em cativeiro acontecendo”, disse Mark Auliya, biólogo de conservação do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, em Bonn, Alemanha, para o NY Times.

Retirar animais da natureza é a maneira menos custosa de montar uma operação de criação de animais selvagens. O baixo lucro da captura ilegal de animais acaba compensando posteriormente, já que a comercialização de répteis geralmente são muito caras ou em grandes quantidades.

Tráfico de animais (Foto: Divulgação/Polícia Federal Rodoviária Brasil)
Tráfico de animais visa animais como tartarugas, lagartixas, cobras e sapos para o comércio ilegal. (Foto: Divulgação/Polícia Federal Rodoviária Brasil)

Tráfico de animais: claramente prejudicial, porém facilmente driblado pela lei

O tráfico de animais e a comercialização dos mesmos é driblada pela lei: ainda é amplamente permitida pelo abuso da própria Cites. O tratado proíbe que espécies ameaçadas de extinção sejam comercializadas através de fronteiras, a menos que sejam criadas em cativeiro.

Sendo assim, comerciantes enviam os animais para exportação com a documentação que foram ‘criados em cativeiro’. E como comerciantes antiéticos sabem que as cobras, os lagartos e as tartarugas não são uma prioridade para as autoridades policiais e alfandegárias nos países ocidentais, muitos animais são traficados.

Por ano, autoridades de países exportadores de animais selvagens emitem cotas para milhões de animais como aves, anfíbios, pequenos mamíferos, insetos e corais criados em cativeiro. Muitos são protegidos em seus países de origem e seu comércio é regido pelo tratado.

Além disso, muitos animais utilizados como domésticos que são exóticos são de origem de nações ainda em desenvolvimento, isso significa que as autoridades locais podem não ter o conhecimento, motivação ou recursos para verificar se os animais prestes a serem embarcados foram, de fato, criados em cativeiro.

Mas retardar o tráfego em animais roubados da natureza não deve ser responsabilidade exclusiva dos países em desenvolvimento. Sandra Altherr, co-fundadora da Pro Wildlife, um grupo de conservação sem fins lucrativos em Munique enfatizou para o NY Times: “Não podemos apenas apontar os dedos para a Ásia e a África se formos um dos principais destinos”.

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