O legado de uma loba

           

Lobinha, um lobo-guará resgatado e reintroduzido no meio ambiente. Ela foi atropelada e morreu cerca de um mês após ganhar a liberdade (Foto: Rogerio Cunha de Paula)

No início deste ano dois renomados conservacionistas, Maria Tereza Jorge Pádua e Marc Dourojeanni, visitaram o Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. O casal criou mais de 10 milhões de hectares em Unidades de Conservação pelo mundo e viu de perto maravilhas naturais que poucas pessoas conseguirão apreciar na vida.
Ambos saíram de lá horrorizados com o estado de abandono do Parque, que de um dos lados (o Sul) sequer é manejado como tal. Entre os motivos da indignação está a falta de regras para atividades de turismo, permitindo que, por exemplo, praticantes de motocross percorram a UC causando transtorno para a fauna e alto impacto para o frágil ecossistema, com erosões e voçorocas, entre outros. Como justificativa, moradores dessa região alegam que como nunca foram indenizados pelo poder público por suas terras, têm o pleno direito de utilizá-las para outros fins. A despeito da razão quanto a falta de indenização para regularização fundiária, da falta de educação e conscientização ambiental, quem perde é a já maltratada biodiversidade do Cerrado.
Aproximadamente duas semanas depois da visita dos conservacionistas, a Lobinha, um dos maiores símbolos de esperança para o lobo-guará no Brasil morreu atropelada em uma estrada de terra vizinha ao Parque, atingida por uma motocicleta.
O Parque Nacional da Serra da Canastra é uma das joias não lapidadas do Brasil. Uma verdadeira ironia, uma vez que é exatamente no seu subsolo que se encontra um dos maiores veios de diamantes do mundo, colocando esta unidade de conservação em constante ameaça, que sofre com frequentes tentativas de diminuir sua área para exploração dessa riqueza. Em geral, as tentativas de redução para esse fim são camufladas pelo discurso de que a presença do Parque impede o desenvolvimento econômico e coloca a população da região à beira da miséria.
Para dificultar ainda mais a situação, o órgão gestor, o ICMBio, não parece capaz de concluir a regularização fundiária da UC, há mais de 30 anos sendo debatida, o que inflama ainda mais os discursos contra o Parque e seu papel de elefante branco regional.
Na via contrária, do ponto de vista da biodiversidade a situação não poderia ser mais diferente: berço da principal nascente do Rio São Francisco, sexta maior Unidade de Conservação do Cerrado, lar de uma das últimas populações do ameaçadíssimo pato-mergulhão e o local com a maior densidade populacional de lobo-guará do mundo, o Parque Nacional da Serra da Canastra dispensa apresentações e referências. A joia de Minas impacta o visitante já na chegada, que, ao se deparar com a majestosa forma que lhe confere o nome, canastra, não consegue desviar os olhos. Avistar ainda de longe a Casca d’Anta, a primeira cachoeira do São Francisco, com seus 180 metros de altura, é uma experiência de pura apreciação. Quando finalmente o visitante chega ao Parque e percorre os campos do alto da Serra, vive uma experiência de profunda conexão com a natureza, raras vezes encontrada em outro lugar.
No centro disso tudo, o lobo-guará, espécie símbolo do Cerrado, o maior canídeo das Américas, que encontra justamente nesse cenário um dos últimos recantos selvagens para sobreviver. Não por acaso, é neste local que, há mais de 20 anos, um dos trabalhos mais fantásticos de conservação da espécie, no mundo, é desenvolvido. Não por acaso, essa região está sendo transformada graças ao trabalho de uma equipe altamente comprometida, que com afinco, carinho e conhecimento está criando uma verdadeira legião de “Amigos do Lobo”, ensinando moradores a manejar corretamente suas criações domésticas para evitar que o lobo as prede e, consequentemente, seja caçado, formando um cinturão de proteção em volta do Parque e levando educação ambiental a todas as escolas da região, ensinando crianças que “o lobo não é mau, ele é guará”, formando uma nova geração de defensores da natureza. Não por acaso, esse foi o local escolhido para uma iniciativa inédita no Brasil: a reintrodução de um lobo-guará na natureza, a Lobinha.
Reintrodução de carnívoros é quase um mito, especialmente filhotes. Como é que se ensina um filhote sem mãe a caçar, o que comer? A sobreviver na natureza? Mundo afora pesquisadores tentam responder a essa pergunta e aqui no Brasil, em uma iniciativa inédita, o biólogo Rogério Cunha de Paula e sua equipe abraçaram o desafio de propor um protocolo de reintrodução para o lobo-guará. Considerado um dos maiores especialistas na área, Rogério, que também trabalha no Centro Nacional de Grandes Predadores, o CENAP, encontrou a oportunidade de colocar essa iniciativa corajosa em prática quando, em abril de 2016, a Lobinha foi encontrada vagando por um canavial sozinha no interior de São Paulo. Resgatada por uma equipe de profissionais, e ainda filhote com quatro meses, foi levada para viver em um recinto no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra. Nascia ali a Escola de Lobos. Sem recursos, como é comum no país; ou mesmo incentivos, a equipe do Projeto Lobos da Canastra tirou dinheiro do bolso, trabalhou com afinco, construiu um recinto específico para o projeto em uma área de Cerrado próxima ao Parque e durante meses realizou o improvável: treinou a Lobinha para que ela pudesse voltar a viver na natureza.
Lobinha conquistou a todos. Uma campanha de mobilização na internet arrecadou os recursos necessários para a continuidade do projeto, crianças da região se sensibilizaram com a lobinha órfã e a transformaram em mascote na cidade de São Roque de Minas e a história repercutiu. Em campo, a equipe se empenhava ao máximo para que Lobinha aprendesse quais animais caçar, que frutos comer, tentando equilibrar a expectativa de acompanhar os resultados do treinamento com o mínimo de contato pessoal possível, para que ela não se acostumasse à presença humana e assim tivesse maiores chances de sobrevivência.
Dia 2 de dezembro, o grande dia! O portão do recinto foi aberto e Lobinha ganhou a liberdade. Logo saiu da área onde foi treinada e passou a explorar o território em volta. Muitas eram as perguntas dos pesquisadores: será que ela vai se adaptar? Vai saber o que comer? Conseguirá estabelecer seu território? Como irá reagir à presença de outros lobos?
A cada dia, Lobinha respondia a essas perguntas da única e melhor forma que podia: sobrevivendo. Explorava a região, se alimentava e continuava desbravando a região da Canastra. Em meio a natureza, Lobinha era uma sobrevivente nata!
A única coisa que a Lobinha não soube fazer foi desviar das rodas de um veículo.
Na madrugada do dia 14 de janeiro, 40 dias após ganhar os campos da Canastra, Lobinha foi encontrada morta, em um cafezal no entorno do Parque. A necropsia mostrou que fora atingida por uma motocicleta, sofrendo fratura em cinco costelas e lesões graves no pulmão. Morreu asfixiada meia hora depois de ser atingida, conforme mostram os dados registrados por seu rádio colar.
“A equipe está mais do que triste. Está devastada.” escreveu Rogerio em uma rede social. Mais que um indivíduo da sua espécie, Lobinha representava a esperança e de norte a sul, ambientalistas lamentam a perda do animal. “Como é que acontece isso com um animal reintroduzido para pesquisa? Que fim levou o condutor e que providências serão tomadas para o futuro?”, perguntou Maria Tereza Jorge Pádua, cuja consternação representa o pensamento de todos.
De todas as possibilidades de insucesso, ninguém esperava que fosse atropelada em uma estrada de terra rural. Os números do atropelamento de fauna no Brasil são brutais: segundo o Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas, cerca de 475 milhões de animais morrem atropelados todos os anos no país. Enquanto você lê esta matéria pelo menos 30 animais foram mortos. Conversei pessoalmente com o biólogo Rogerio de Paula e a reflexão que faz é: “em rodovias os números de atropelamento de fauna são estimados, mas nunca contabilizamos isso em estradas de terra. Quantas lobinhas estão morrendo hoje pelas estradas do Brasil?”, pergunta.
Se foi um um acidente ou algo proposital não sabemos, embora Rogerio duvide da segunda opção, já que há anos trabalha na região e a melhora no convívio do lobo-guará com agricultores que vivem no entorno do Parque é uma das maiores conquistas de seu projeto. Além disso, atropelar um lobo-guará traria riscos para o próprio motociclista, que poderia sofrer danos graves ou até mesmo perder a vida. A verdade, porém, nunca saberemos.
A fatalidade da Lobinha reflete a fragilidade do próprio Parque Nacional da Serra da Canastra e, de certa forma, da conservação da natureza no Brasil: houvesse mais informações, mais estruturas, mais educação, mais investimento, os brasileiros saberiam respeitar melhor a natureza. Aprenderiam a conviver melhor com nossa maravilhosa biodiversidade.
A joia do Cerrado, o Parque que guarda algumas das maiores riquezas do bioma, precisa urgentemente de apoio. Precisa ser olhado como aquilo que é: um ambiente raro e que deve gerar orgulho aos seus vizinhos, que se importem com sua biodiversidade a ponto de defendê-la e apreciá-la, de conseguirem conviver com ela.
Esse é o legado deixado pela Lobinha, e que não podemos esquecer.
*Angela Kuczach é bióloga e diretora executiva da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação

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