Dado Dolabella e o “Veganismo deixa disso”

           

Algo que aprendi durante meus anos de doutorado é que a ética animal deve ser, no mínimo, vista com muito cuidado. Calma! Não estou defendendo a tortura e o genocídio perpetuado pelo privilégio humano; só a forma como a luta vegana se justifica. A ética animal foi muito importante nos anos setenta, ao trazer visibilidade para a causa. Mas jamais devemos esquecer que ela parte de um foro privilegiado; do monopólio do discurso por filósofos especializados que buscam, de um lugar tradicionalmente branco, masculino, de primeiro mundo, princípios universais que governem o comportamento. Esta perspectiva é problemática. Não só porque ela impede que se ouça os animais, através de suas formas de expressão particulares, mas porque ela tolhe várias manifestações não hegemônicas de veganismo, daqueles que não tem acesso a este tipo de conhecimento importado e elitizado. De longe, o principal problema da ética animal é o de problematizar a moralidade acima das relações sociais que oprimem grupos marginalizados. Isto não só deslegitima as causas destes grupos, mas impede uma real emancipação dos animais, pois os coloca eternamente sob a posição de tutelados.
A discussão em torno da famigerada figura do Dado Dolabella tem tomado contornos éticos estranhos, para dizer o mínimo. O ator tem sido representado como vítima do feminismo vegano em alguns debates recentes nas mídias sociais. Concordo com uma coisa: o feminismo não gasta muito tempo pensando em como lidar com os agressores “arrependidos”. Mas isto tem uma razão. No atual momento histórico que vivemos, há algo em curso no pensamento feminista que é muito mais importante: o empoderamento e legitimação da vítima de abuso. Não precisamos ir muito longe para entender como funciona a relação entre vítima e agressor no país (e no mundo). Basta ler os comentários nos grandes portais de notícia brasileiros, inclusive no próprio caso do Dado Dolabella. Quando uma mulher denuncia violência ou é assassinada e vira manchete, não falta quem vocifere (textualmente): “Também, ela não se dá ao respeito”; “Estava fazendo o que na rua tarde da noite?” ou mesmo “Mas aí estava pedindo”. Há uma estigmátização sistemática das mulheres que sofrem violência, o que torna extremamente difícil para várias delas denunciarem abusos. Casos como o da Luana Piovani e da última esposa de Dolabella acabam se tornando públicos, icônicos e servindo de estímulo para que outras mulheres enfrentem suas situações de violência. Da mesma forma, o questionamento e escrutínio do agressor o tiram da zona de conforto e o fazem repensar suas ações. O que o feminismo faz com Dado não é um “olho por olho”. Nunca uma feminista agrediu fisicamente ou torturou psicologicamente o sujeito. Ao contrário, elas fizeram com que este histórico de agressão fosse constantemente lembrado e questionado.
Alguns argumentam também que há no ator uma vontade de mudar, se transformar, que é desencorajada pela militância feminista. Eu, particularmente, não observei qualquer mudança no discurso de Dolabella que me faça questionar sua misoginia. Lembro que muitas pessoas culparam Luana Piovani pela violência que ela sofreu. Disseram que ela tinha um temperamento muito forte e que era metida, insuportável. No final das contas, Dolabella se colocou como vítima da justiça e da sociedade! Disse que foi uma briga na qual os dois bateram (a falácia mais usada por agressores nesta situação). Tempos depois, o cara agrediu outra mulher; desta vez sua esposa. Isso acontece frequentemente. O agressor é encoberto pela nuvem de fumaça criada por ideais misóginos socialmente aceitos e acaba repetindo comportamentos abusivos e violentos. O nível de reincidência em casos de violência doméstica é muito grande. Nunca vi Dado Dolabella sequer se desculpar por suas ações passadas. Muito provavelmente ele ainda se enxerga como vítima da situação; ideal agora reforçado pela turma do “veganismo deixa disso”. Tudo que ele fez foi declarar publicamente sua dieta e o “novo amor” pelos animais. Isso é o mesmo que automaticamente não ser mais misógino, machista e violento? Certamente não. Agora ele está em um dos movimentos sociais mais sexistas que existem. Pode usar sua posição de celebridade para exercer um comportamento predatório sobre mulheres veganas. Logo, o que cabe às feministas veganas fazerem? Serem sorridentes, compreensivas e se exporem a um sujeito com histórico de abuso e sem a menor indicação de remorso? Ou discutir e avisar sobre seu histórico de violência? As feministas não o estão agredindo. Não é “olho por olho”. Elas estão exercendo o poder democrático de denunciar, de debater. A sociedade hegemônica é compreensiva, ou no mínimo negligente, com agressores; especialmente os ricos, brancos e famosos. O feminismo, por sua vez, compreende as vítimas, as empodera; cria para elas um lugar de fala. É o papel do feminismo debater e criticar.

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