A cruz

           

Deve ser Natal. Na noite que se extingue ainda dá pra ver as luzinhas pulsantes da cidade ao longe. Aos primeiros clarões da manhã percorro, com os olhos da imaginação, o cenário urbano embriagado pelo vinho amargo da véspera. Logo avisto a torre da Igreja e, maior do que ela, aquele pinheiro ornamentado com bolas vermelhas e uma estrela de prata pousada lá no alto. Na praça do espetáculo os sinos do campanário não resistiram ao carro de som cujo rumor pude ouvir aqui da estrada, a quilômetros e quilômetros de distância. Era gente a beber, gente a dançar, gente a comer até cair. Como diria um velho poeta quase esquecido, “tempo sagrado num espaço profano”.
Aos poucos o campo também amanhece. Sim, posso agora reconhecer as coisas ao meu redor: árvores, rochedos, planícies sem fim. Mas espere um pouco, à beira do caminho alguém largou um enorme caibro roliço em forma de T. Aproximo-me para ver melhor: são duas vigas transversais presas entre si, como uma cruz. Tábua pesadíssima, tento movimentá-la com as pernas. Não mexeu um centímetro. Agarro seu tronco para erguê-la nos braços. Esforço inútil. Quem a teria puxado até aqui? Com que forças conseguiram trazê-la para este desterro? Estaria a cruz abandonada?
Intrigado com a aparição, detenho-me a examinar a peça de madeira. Nos eixos cruzados há um apelo de transcendência. A viga menor possui buracos encravados nas extremidades. Na parte superior do tronco, junto à cabeceira, resquícios de manchas rubras sugerem o sangue coagulado dos séculos. Sinto o relevo de inscrições ininteligíveis ao deslizar as mãos pela sua superfície. Que coisa estranha, é como se um tempo remoto se fizesse aqui presente, tempo de lutas, de sofrimentos muitos, de repressões tantas. O vento assobia aos meus ouvidos. Alguma voz? Algum nome? Ecos do nada e de ninguém…
Olhando mais atentamente vejo que o caibro assume outros formatos: é uma lança pontiaguda, é um porrete de pau, é um bastão elétrico, uma corrente de ferro, é um arpão, é uma haste de prender, é um bisturi gigante, é um laço hirto, é tudo aquilo que a gente não imagina e existe, é uma corda retesada, um macabro trilho aéreo, é um chicote sanguinolento. Ouço então gritos abafados sem saber de onde vêm. Milhões de criaturas sob a angústia milenar de um peso que não alivia. Vacas, bois, galinhas, peixes, patos, porcos, baleias, perus… Será que o signo do sofrer incita a nossa capacidade de reagir? Que sei eu da dor que os outros deveras sentem?
Psssst! Não faça barulho. Aqueles arbustos estão se mexendo, eu juro, e não é o vento. Recuo alguns passos e permaneço quieto a espreitar. A folhagem se agita mais e alguém de andar calmo sai dali vindo do brejo do rio da mata sei lá de onde. Que diabos é? Aos poucos consigo vê-lo… É um ser esquálido, desgrenhado, vestido com farrapos. Um andarilho, quem sabe, na singular simplicidade do ser… O rosto barbado, a pele cor de terra, os olhos distantes. Que idade tem? Talvez mais do que verdadeiramente possui ou bem menos do que aparenta. Pouco importa, ele deve ter dormido na floresta e agora voltava para buscar o que era seu.
O homem se aproxima devagar e agacha ao lado da cruz. Olha para os lados como se procurasse uma direção pra seguir. Está indeciso. Vou ficando cada vez mais intrigado: haveria mulher ou filhos à sua espera? Carinhos de mãe, um cão amigo? Creio que não, sua estrada é de pedra, sua coroa de espinhos. Mas há uma ausência que lhe dói secretamente. Condenado ao exílio de si próprio, ele parece procurar no horizonte um mundo perdido ou imaginário que é somente seu. O sujeito então se ergue e, de modo impressionante, levanta a viga para colocá-la sobre os ombros. Eis que mãos invisíveis passam a açoitá-lo:
—Êh, desgraçado. Segue teu caminho errante! Levai a vossa cruz…
E dá-lhe chibatadas, um estalo, depois outro, outros mais, numa sequência contínua de golpes. Mas ele aguenta. Hesita, anda, para, anda de novo, converge de um lado a outro, estanca, esmorece, ajoelha, levanta, recomeça a andar. E a chibata a lhe arder nas costas. Já não sabe quem o agride, os rostos são tantos e por vezes conhecidos. Resta-lhe apenas viver, estritamente viver, acordar, comer, dormir, sonhar. E assim ele prossegue em sua caminhada, sobrevivente, a arrastar a sua cruz. Seu Natal é outro, bem longe…

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