Educação sob ataque reacionário: a censura ao professor vegano em Minas Gerais

           

Chocou milhares de pessoas a notícia, nesta semana, de que o professor vegano-abolicionista de Filosofia Leon Denis foi dispensado da escola pública em que ensinava na cidade de São João Evangelista/MG, e proibido de lecionar por três anos em Minas Gerais, por motivos de censura ideológica. O caso é extremamente preocupante, já que reflete um quadro de ameaça conservadora à autonomia pedagógica e aos direitos e liberdades de professores e alunos.
Assim depõe Leon, na repercutida notícia que anunciou o golpe que ele havia sofrido:
“Fui informado pelo inspetor escolar que estou impedido legalmente de lecionar durante os próximos três anos no Estado de Minas Gerais. Está na resolução SEE n. 2741/15. No dia do professor, 15 de outubro, deixei de ser professor.
Quanta ironia e injustiça. Sou um espírito livre, e incomodo por isso. A filosofia crítica incomoda. A verdade dos fatos incomoda. E estou pagando o preço por ser adepto da veracidade como virtude. Por defender em aula todos aqueles que estão em constante estado de vulnerabilidade.
Os grandes pensadores, aqueles que são minha fonte de inspiração, na filosofia, na literatura, nas ciências, nunca foram bem vistos pela teocracia, pela oligarquia, pelos mantenedores do status quo; pelo contrário, sempre incomodaram e foram caçados pelas ideias que defendiam.”
Pelo que ficou claro, não houve nenhum outro motivo para a dispensa, fora a insatisfação dos pais de alguns jovens a quem Leon ensinava. Os adolescentes levavam para casa dúvidas sobre se é realmente ético tratar animais não humanos como coisas sob propriedade humana e consumir produtos de origem animal. E isso, pelo que foi relatado pela ANDA, enfureceu pais conservadores e assumidamente especistas, que se perturbavam com os questionamentos trazidos por seus filhos e, assim, foram à escola exigir o afastamento do professor ativista.
Sem nenhuma abertura ao diálogo por parte deles, seu pedido foi atendido, e Leon afastado, num lamentável ato de censura político-ideológica. A dispensa reservada a ele abre um perigoso precedente: outros professores de ensino básico que ousarem questionar o status quo especista acabam ficando de sobreaviso. Se forem muito longe em sua conscientização vegano-abolicionista, serão denunciados por “subversão”, e o poder público poderá atender às denúncias, jogar no lixo a liberdade constitucional de expressão, crença e consciência e chutá-los da escola.
O acontecimento tem o infeliz paralelo da ascensão de um movimento chamado “Escola Sem Partido”. De caráter ultraconservador e antiesquerdista, o ESP propõe perseguição e censura a professores que forem flagrados “promovendo doutrinação ideológica marxista” – na verdade, provendo qualquer ensinamento que envolva pensadores políticos de esquerda e ideologias emancipacionistas – a seus alunos.
A dispensa de Leon Denis pode insuflar esse movimento a passar a perseguir também professores veganos que ensinarem Direitos Animais em suas salas de aula. Isso se daria porque tem sido comum reacionários associarem o veganismo e os Direitos Animais ao chamado “marxismo cultural”, rótulo dado por extremistas a toda e qualquer iniciativa de conscientização e ação prática política progressista e emancipacionista.
Diante dessa censura imposta ao professor e da ameaça do “Escola Sem Partido”, os professores veganos de todo o Brasil e seus alunos apoiadores ficam demandados a resistir e defender o direito de prover, receber e intercambiar uma educação libertadora. A resistência é muito necessária, nesta época de ascensão conservadora e “arregos” do Estado perante os setores reacionários da sociedade.
Se quisermos uma escola democrática e aberta à conscientização, não mais uma instituição semiprisional que subjuga estudantes e docentes a um regime autoritário cheio de imposições e proibições e vazio de autonomia pedagógica e liberdade, precisamos repudiar a dispensa que Leon sofreu e impedir que isso aconteça com outras pessoas. Aprender e ensinar Direitos Animais e promover e vivenciar uma transformação de consciência são direitos nossos, e devem ser defendidos, em nome da democracia e da liberdade.

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