Denúnca revela expansão de empresas de reprodução de macacos para tortura

Por Augusta Scheer (da Redação)

Foto: ChinaFotoPress/Getty Images
Foto: ChinaFotoPress/Getty Images

Num recanto tranquilo e rural no sul da Flórida, onde o faturamento vem muito mais da terra que dos bolsos de turistas, uma indústria tem passado quase despercebida – apesar de sua notável lucratividade nos últimos 15 anos. As informações são do site The Guardian.
Até recentemente, a criação de macacos vinha sendo um negócio rentável e discreto, estabelecido numa região mais conhecida por seus bosques produtores de frutas cítricas. O poder público local recebeu de braços abertos as empresas que cruzam e vendem macacos da espécie Macaca fascicularis para fins de pesquisa científica. Com três grandes fazendas em funcionamento, e autorização pendente para uma quarta, o condado de Hendry é líder mundial nesse mercado.
Mas, num escândalo que ficou conhecido localmente como “Monkeygate”, as autoridades locais e federais estão investigando as fazendas de criação de macacos do condado de Hendry, e não estão gostando nem um pouco das descobertas.
Desde o final do ano passado, uma série de acontecimentos colocaram em cheque esse lucrativo negócio, dentre eles, a revelação de um vídeo registrado por ativistas em uma das fazendas. A gravação mostraria macacos sendo fisicamente abusados por funcionários, com feridas graves e ossos expostos.
Depois da divulgação do vídeo, obtido por um ativista da organização PETA, o Departamento de Agricultura dos EUA iniciou uma inspeção da fazenda Primate Products Inc. O relatório aponta “trauma, dor, lesões e estresse” sofridos pelos macacos.
Na sequência, uma ação judicial foi movida pelo Animal Legal Defense Fund contra o condado de Hendry, em que se alega que as autorizações foram concedidas sem as audiências públicas necessárias, além de violações legais por parte das empresas, incluindo a realização de experimentos proibidos com os macacos.
Também há reação contrária da população local, que tomou ciência dessa grande indústria estabelecida no quintal de casa.
“Há pessoas que moram a poucos quilômetros das fazendas e que não têm nenhuma ideia do que estava acontecendo lá,” conta Madeleine Doran, uma das líderes de um movimento contrário cada vez mais forte, cujos membros vêm se manifestando nas ruas e nas mídias sociais.
“Agora, com os processos e inspeções, todos começam a tomar consciência. Nós queremos o fim imediato das importações de macacos para o condado e nosso objetivo final é que todos os estabelecimentos sejam fechados.”
Doran acredita que a investigação empreendida pelo condado de Hendry não passa de uma “cortina de fumaça”, para dar a impressão de que as autoridades levam a questão a sério.
“O sigilo que cerca a investigação é o mais perturbador”, diz Doran. “O condado nos deixou no escuro e não responde nenhuma pergunta sobre a investigação.”
Em pronunciamento ao The Guardian, o condado de Hendry confirmou que está investigando as violações e que aguarda documentos requeridos ao comitê de conservação de vida animal da Flórida e ao Departamento de Agricultura. “Atualmente não temos nenhum prazo para esses documentos. Assim que o condado estiver em posse dos referidos documentos, uma avaliação completa será feita e chegaremos a uma determinação,” registra o pronunciamento.
Questionada se o condado deixaria de ser tão receptivo a essa indústria, a porta-voz afirmou que o condado de Hendry “tem sido firme em sua mensagem: resguardamos os direitos dos proprietários, como lhes é garantido por lei.”
Para Doran, o condado está virando as costas ao que muitos consideram ser um negócio bárbaro, repudiado pelos milhares que assinaram uma petição contra a prática e pelos grupos de defesa dos direitos animais.
Justin Goodman, diretor de investigações da PETA, frisou que os inspetores do Departamento de Agricultura agiram rápido para demandar que a empresa Primate Products corrigisse as violações à Lei de Bem-estar Animal. Cenas particularmente angustiantes do vídeo mostram macacos sendo suspendidos de cabeça para baixo pelo rabo, ou os animais sendo violentamente puxados para fora da cerca pela cauda. Outras cenas retratam os animais se escondendo nos cantos das jaulas imundas.
“Os cidadãos de Hendry e o poder público estão sendo explorados por empresas que trazem um negócio cruel, além de riscos de saúde para a região,” disse Goodman. “Essas empresas se aproveitam de comunidades que necessitam de uma base fiscal maior, ou de localidades muito rurais que não sabem em que estão se metendo. Temos a maior concentração de criações de macacos no mundo. Essas criações não têm lugar no condado de Hendry, nem no século XXI, e nós queremos vê-las todas fechadas.”
O condado teria aprovado a abertura de um criadouro de macacos, operado pela empresa SoFlo Ag, num encontro a portas fechadas, em violação a leis estaduais. Em maio, o Animal Legal Defense Fund adicionou aos réus do processo contra o condado o nome da empresa Bioculture, registrada nas Ilhas Maurício. Bioculture também seria beneficiária das aprovações a portas fechadas, e estaria envolvida em operações com mais de 3 mil macacos.
O ALDF quer que as autorizações sejam revogadas, argumentando que as fazendas trazem sérios riscos de saúde à comunidade local, porque os macacos podem carregar o vírus Ebola, além de tuberculose e herpes B.
“Macacos exóticos que venham a fugir e o lixo produzido pelos milhares de animais nessas propriedades também poderiam danificar o ecossistema frágil da Reserva Nacional Big Cypress, a qual já está enfrentando invasões de espécies não-nativas,” segundo Megan Backus, do ALDF.
Para Doran, por outro lado, o vídeo demonstra exatamente o tipo de problemas que os defensores vêm denunciando. “Queremos que o Departamento de Agricultura venha e confisque todos os macacos. O que acontece lá é obsceno.”

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