A controvérsia do zoológico humano

           

Nos últimos dias os ânimos se exaltaram em uma discussão acerca das intersecções entre racismo e especismo. Um vegano postou uma imagem que mostrava uma criança negra exibida em um zoológico há cerca sessenta anos atrás. A legenda do dono da página chamava atenção para como a humanidade iria se arrepender de aprisionar os animais, assim como se arrependeu de aprisionar aquela criança. Não demorou para o caos chegar. Pessoas do movimento negro se sentiram bastante ofendidas e buscaram formas cada vez mais agressivas de se fazerem entender. Enquanto isso, do outro lado, o vegano tentava manter a compostura e a educação, desculpava-se por qualquer ofensa que tivesse feito, mas não buscava compreender o que incomodava aquelas pessoas. No frigir dos tofús, veganos ficaram com raiva do movimento negro e o movimento negro com ódio dos veganos. Cogitou-se fazer manifestações contra o veganismo e muitos entraram na discussão para exaltar as delícias dos bifes, do bacon e da crueldade. Do outro lado, os veganos caíram no lugar comum, que eu detesto, de chamar o movimento negro de “radical” e culpa-lo pela desunião nos movimentos sociais.
Odeio tomar partido em uma situação desta, mas acho que o movimento vegano errou. Não me entendam mal, entristeceu-me muito ver pessoas se vangloriarem de comer carne e quererem boicotar a luta pela liberdade dos animais. Mas, ao mesmo tempo, mesmo sem concordar, acho que vale a pena compreender porque aquelas pessoas chegaram a este ponto. Dois elementos precisam ser levados em conta nesta discussão: lugar de fala e gatilho. Para quem não sabe, gatilho é uma imagem, fala ou ação que leva alguém a acessar memórias e sentimentos que o fazem sentir profundamente fragilizado e desconfortável em função de ter sofrido alguma forma de opressão. Se alguém posta uma foto de agressão ou abuso sexual, por exemplo, uma mulher que teve experiências relacionadas àquela pode ser profundamente abalada e levar um tempo para se recuperar ou simplesmente sucumbir. A imagem pode até ter sido postada com boa intenção, mas o tiro sai pela culatra quando o oprimido, diariamente exposto à violência, é obrigado a lidar bruscamente com coisas que deveriam ser administradas com muito carinho e cuidado, e não forçadas goela abaixo. Esta situação ainda piora quando quem posta aquela imagem é justamente alguém do grupo opressor.
O lugar de fala é um fator que não pode ser ignorado pelos movimentos sociais. Eu, como homem-branco-cis-heterossexual, cometi, e ainda cometo, este erro demais: esquecer meu lugar. A experiência de vida é algo importantíssimo. O racismo, entre as outras formas de opressão, não é apenas teórico. É vivido, sentido, morrido. Um branco não sabe o que é racismo. Ele pode conhecer, estudar, discutir, mas jamais irá compreender realmente como aquilo é vivido e compreendido por dentro. Por mais que eu estude 24hs por dia, para o resto da minha vida, jamais compreenderei o sexismo como uma menina de doze anos. Ela pode não ter o mesmo preparo teórico que eu; mas ela sentiu todas aquelas coisas que me tomaram anos de leitura só para desconfiar. Por isso, não cabe a mim definir o que estas pessoas passam. Eu posso argumentar que a lógica de opressão é a mesma; que o mesmo sistema que oprime um, oprime outro; que os privilégios que fazem o homem branco marginalizar diferentes tipos de seres humanos são os mesmos que estigmatizam os animais. Mas, do meu lugar de fala, não posto fotos de mulheres sendo ordenhadas por máquinas de ordenha industriais, como se eu soubesse que é a mesma coisa para uma mulher e uma vaca. E não postaria a imagem da criança no zoológico pelo mesmo motivo.
Na minha palestra eu argumento que a idéia de humanidade mudou muito com os tempos. As pessoas negras foram, e ainda são, largamente excluídas de uma ideal hegemônico de humanidade. Contudo, de forma alguma tento dizer que a experiência de opressão de negros e animais é a mesma; mas tento mostrar como o homem branco manipulou as pessoas negras para que elas se sentissem inferiores como animais para, assim, reafirmar um ideal racista de humanidade. Mesmo assim, a partir do momento que percebi que os vídeos e imagens que mostrava eram gatilhos, retirei quase tudo.
A comparação entre negros e animais é fortemente baseada no especismo. É justamente porque existe desprezo pelos animais que ela é tão ofensiva. O especismo tem um papel inegável nesta equação. Contudo, nós não vivemos em um mundo teórico. Quando um branco compara um negro a um animal, mesmo que a pessoa negra em questão ame os animais e seja vegana, existe uma grande chance que ela se sinta ofendida. Não porque ela despreza os animais, mas porque ela foi desprezada a vida toda e não pode evitar a sensação de tristeza, raiva e rejeição. Vale a pena causar isto em uma pessoa porque achamos que estamos certos? Para se existir em um movimento social precisa-se muito mais do que razão. A empatia é muito mais importante. Tentar se colocar no lugar do outro até quando se está ouvindo ofensas desconfortáveis é vital. Não que o outro esteja fundamentalmente certo todas as vezes, mas aquela voz precisa ser ouvida.
Na discussão em questão, o vegano que fez o post, apesar de muito educado, não percebeu seu lugar de fala ou evitou os gatilhos. Acusar uma pessoa negra de especismo é chama-la de opressora. Uma mulher negra pode acusar a outra de opressora. As duas sentiram na pele. Agora não cabe a um homem-branco-cis-heterossexual dizer que mulheres negras são opressoras. Claro que elas ficarão irritadas e anti-veganas, pois sofreram a vida inteira com brancos dizendo o que elas são ou deixam de ser e qual é o lugar delas. Todo mundo deve dialogar, quem quer que seja com quer que seja, mas é importante saber de onde vem o argumento e para onde vai. O movimento vegano é sim muito elitista, branco e machista. É o mais elitista, branco e machista de todos. Mas não o é por vocação. Do ponto de vista ético, é possível que seja o mais libertário e inclusivo. No entanto, militância não é teoria, é experiência. Nós veganos, e eu me incluo nesta, temos que lutar contra nosso próprio machismo, racismo e elitismo para que o movimento cumpra sua vocação. Temos que acabar com esta auto- imagem que cultivamos, de salvadores de tudo, e nos enxergarmos como seres humanos perturbados e opressores. Precisamos aprender a escutar o outro antes de exigir que o outro nos escute.

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