Servidão, analfabetismo e violência

           

“Há momentos em que os homens são senhores de sua fortuna. O erro, meu caro Brutus, não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos” – Shakespeare

O Líder

É impressionante a necessidade que a grande maioria das pessoas sente em ter um líder. É preciso ter alguém para dar ordens, para ditar o que fazer, como fazer, o que pensar, como pensar, o que e como comer, etc. Na causa animal não é diferente. Seja DDA engajado ou não, a busca de alguém para ditar o que deve ser feito é senso comum.

É preciso se associar a uma entidade de proteção animal (nacional ou estrangeira), ser membro de uma ONG, ser filiado a um grupo vegetariano ou ambientalista. Quando se tem uma carteirinha com carimbo e foto, parece que até o status no movimento animalista muda.

O movimento ético em defesa dos direitos animais e o modo de vida vegano não tem líder ou lideres. Simples assim. Tem pensadores, teóricos, que pensam a melhor forma de defendermos os animais não humanos. Não são lideres, são pessoas que podem nos inspirar na busca constante por aprimoramento conceitual e prático. Temos também, DDAs que se destacaram pelas ações diretas, pelas intervenções em situações de exploração institucionalizada, que demandaram grande carga de coragem, determinação, coerência, clareza de proposito e empatia. Também não são lideres, são pessoas nas quais podemos nos inspirar, com acertos e equívocos, nada mais.
Os DDAs precisam sair da menoridade moral e intelectual que estão mergulhados. A sujeição também é uma forma de violência.

Analfabetismo funcional animalista

O analfabetismo funcional animalista nada mais é que a incapacidade que o DDA tem de fazer uso do seu próprio entendimento. É preciso esclarecer-se. O estudo dos fundamentos das ações em defesa dos animais deve fazer parte do cotidiano dos DDAs.

A preguiça intelectual é um mal, que prejudica tanto o DDA quanto o animal, que do posicionamento ético dele, depende. A covardia em não se engajar em ações que depende única e exclusivamente de sua autonomia é outro mal. Para sair da menoridade, da sombra dos “lideres” é preciso esclarecimento. É preciso ler, estudar, ler, debater, ler de novo, refletir, ler e ler novamente.

Para abolir o uso dos animais não humanos, e mudar seu status na sociedade hodierna é preciso abolir a livrofobia, a epistemofobia que assola os DDAs. Por mais que possa parecer, a travessia do rio que te leva da margem menoridade (heteronomia) a margem maioridade (autonomia) não é tão perigosa como alguns dizem. As águas desse rio não são tão agitadas como parece, e o rio não é tão profundo como os bem-estaristas querem fazer parecer.

A banalidade do mal

A falta de fundamentação teórica, de reflexão conceitual é um dos caminhos que leva ao culto ao líder. Esse culto é fundado na servidão voluntaria, que tem como motor a preguiça e a covardia. Esse estado de espirito é uma das estruturas do pensamento e das atitudes violentas dos DDAs no dia-a-dia.

A irreflexão, o vazio de pensamento, a superficialidade induz ao conformismo. É cômodo ser menor.

Uma breve passada de olhos pelos comentários de pessoas que se intitulam DDAs, aos textos de pensadores da causa animal, fica nítido que a violência que essas pessoas dizem combater ainda não foi abolida nelas mesmas. Sem o mínimo pudor defendem que se faça com o vivisseccionista o mesmo que ele faz aos outros animais no laboratório. Sem o mínimo pudor pedem para substituir os animais usados na experimentação por presidiários. Pedem que o caçador seja caçado, que o touro seja trocado pelo toureiro… Sem o mínimo pudor pedem que a mesma violência praticada contra os animais seja feita com os violentadores. A lei de Talião é a máxima que os guia.

Querem abolir a violência perpetuando a violência.

É preciso primeiro não violentar o animal que você é. Para isso é necessário conhecimento de nutrição vegetariana (ou seja, sem carnes, ovos, leite e laticínios, mel e cochonilha). DDA mal nutrido é um tiro no pé do movimento. É preciso abolir de seu espirito pensamentos violentos, desejos violentos. Para isso é preciso muita leitura e reflexão éticas. A genuína terapia abolicionista vegana demanda tempo, exige disciplina e dedicação. É necessário nutrir o corpo e a alma.

É impossível não associar a banalidade do mal, a vulgarização da violência, ou melhor, a hierarquização da violência com a irreflexão e o vazio de pensamento. A menoridade faz muito mal, aos dois animais da questão: ao DDA a ao animal que ele quer libertar da violenta exploração institucionalizada.

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