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Morcegos não são malvados

13 de agosto de 2013
8 min. de leitura
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Por Martha Follain (da Redação)

Foto: Cortesia Lasse Jakobsen & Coen Elemans
Foto: Cortesia Lasse Jakobsen & Coen Elemans

Apesar de tudo que dizem contra eles por causa de filmes que os associaram a seres folclóricos noturnos (os vampiros), morcegos são animais extraordinários, importantes e úteis na natureza.  Enquanto o conde Drácula aterroriza o imaginário mundial, há  um super-herói inspirado no morcego que é o Batman, símbolo de generosidade, solidariedade e justiça.

Morcegos são sagrados em Tonga (Oceania – Polinésia) e na África Ocidental. Representam longevidade e felicidade na China, Polônia, Macedônia e Arábia Saudita. Em alguns países asiáticos consome-se morcegos, e esse  consumo  vem sendo proibido pelas autoridades – por causa da ameaça à existência de certas espécies,  embora ainda sejam apreciados na culinária tradicional.

Etimologicamente, a palavra “morcego” vem do latim “mure”, significando “rato cego”, (os morcegos não enxergam muito bem, mas  não são cegos e  possuem excelentes paladar, audição e olfato) e  são os únicos mamíferos que voam. Podem voar a 50 km/h e até o século XIX pensava-se que eram aves.

Dependendo da espécie, sua gestação dura de 2 a 7 meses e a maioria das  espécies tem apenas 1 filhote por gestação e de 1 a 2 gestações por ano. Os filhotes se tornam independentes aos 4 meses e com 2 anos estão sexualmente maduros, aptos a procriarem.

asa-morcegoAs asas dos morcegos são formadas por 5 ossos alongados  com uma membrana entre eles. Muitas espécies também possuem uma membrana nos membros posteriores e cauda. No verão eles expandem suas asas para baixar a temperatura do corpo e no inverno se enrolam nas mesmas, como se fossem um casaco. As cores de seu pelo curto podem variar muito: preta, cinzenta, bege, marrom, branca, vermelha e amarela. Morcegos também podem se mover no chão, mas desajeitadamente. Vivem de 4 a 30 anos dependendo da espécie.

Segundo a classificação tradicional, morcegos pertencem à ordem dos quirópteros com duas sub-ordens: a dos morcegos propriamente ditos e a das raposas voadoras, e há 1100 espécies (140 delas vivem no Brasil, sendo que 125 na Floresta Amazônica), que podem ter uma envergadura  de 3 cm a 2 m. Mas essa classificação vem sendo alterada. São animais noturnos, com exceção do subgrupo raposas voadoras, que inclui muitas espécies diurnas.

A origem desses animais não é muito conhecida, pois seus ossos pequenos e frágeis não resultam em bons fósseis, quebrando-se com facilidade. Os morcegos mais antigos foram encontrados há cerca de 50 milhões de anos.

Vivem em quaisquer ambientes, menos nos polos. Preferem habitar locais úmidos e escuros como cavernas e descansam pendurados de cabeça para baixo. Quando um grupo de morcegos sai de uma caverna, vira sempre à esquerda, não se sabe porque.

Apesar de 70% dos morcegos serem insetívoros, eles possuem a dieta mais variada entre os mamíferos, podendo consumir frutas, folhas, pólen, sementes, peixes, pequenos vertebrados e até sangue. Somente 3 espécies se alimentam exclusivamente de sangue – são os chamados hematófagos e são encontrados unicamente na América Central e América do Sul. Em torno dos hematófagos é que surgiram lendas sobre “vampiros”. Mas esses morcegos nem sugam – eles cortam superficialmente a pele de suas presas com seus dentes afiados e lambem o sangue que escorre. Os hematófagos possuem um sentido chamado “termo-percepção”, que permite que eles localizem vasos sanguíneos mais superficiais, tornando a mordida menos profunda e menos dolorida, com menor risco da presa acordar ou perceber o ataque. Ao contrário do que se pensa, morcegos não possuem anestésicos na saliva – o que  produzem é um anticoagulante, que mantém a ferida aberta por mais tempo, permitindo que se alimentem durante um intervalo maior.

Os morcegos possuem um sonar próprio, que é o sentido da ecolocalização, biossonar ou orientação por ecos para se locomoverem no escuro, utilizado para buscar alimentação, comunicação e orientação. Emitem ultrassons pela boca e narinas, sons de altas frequências, acima de 70 mil khz, que são inaudíveis para seres humanos (humanos captam sons em frequências de 20 khz a 20 mil khz). Essas ondas atingem obstáculos e voltam para os morcegos na forma de ecos – eles percebem os ecos e podem localizar um obstáculo ou  um inseto em voo. Esse sistema acústico é muito útil aos morcegos, pois necessitam se orientar à noite e em ambientes como as cavernas que são bem escuras. Mas morcegos frugívoros também contam com esse sentido, que os ajuda a localizar frutos e flores, além do reconhecimento de outros indivíduos da mesma espécie. Os morcegos têm sido estudados para desenvolvimento de aparelhos de sonar e ultrassons. Golfinhos e baleias também possuem esse sistema de eco-localização.

Morcegos podem ser predados por corujas, falcões, algumas espécies de sapos e lacraias, gambás, cobras, e há registro de predação de morcegos menores por bem te vis. Mas um grande problema para eles são os parasitas:  pulgas e  carrapatos. Também podem sofrer infestação por fungos nas asas, o que os impede de voar.

Como a maior parte dos morcegos é insetívora, eles possuem uma substancial importância como predadores de pequenos roedores e insetos, mantendo essas populações controladas, impedindo que virem pragas. Um morcego marrom pode comer em 1 hora cerca de 900 insetos do tamanho de um mosquito. Morcegos também são importantes por seu guano,  pela polinização e dispersão de sementes que executam.
Guano é a acumulação dos excrementos de uma colônia de morcegos (ou aves), rico em fosfato e nitrogênio, sendo portanto, excelente adubo natural. O guano foi muito utilizado, e ainda é, mesmo depois  da criação de adubos industriais. Mas deve-se tomar cuidado com seu manuseio, pois  pode conter fungos causadores da histoplasmose, que é uma micose que ataca os órgãos internos causada por inalação. O guano de morcegos sustenta muitos ecossistemas, já que é a principal fonte de nutrientes em uma caverna.

Na polinização os morcegos, assim como abelhas e beija flores,  visitam flores para consumir o néctar, e levam o pólen de uma flor a outra da mesma espécie, ajudando assim na reprodução dessas flores. Mas eles não só polinizam como também dispersam sementes, quando carregam os frutos que comem. Dessa forma podem transportar as sementes por grandes distâncias, ajudando na reprodução de plantas e colonização de áreas. Um único morcego pode transportar mais de 500 sementes em uma noite, garantindo a sobrevivência de muitas florestas e regeneração de florestas degradadas.

No Brasil os morcegos são espécies silvestres, sendo portanto, protegidos pela Lei de Proteção à Fauna, Lei 5197/67, sendo proibidas sua caça, perseguição ou destruição. Esses atos constituem crimes – Art. 1º. Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha.

São também protegidos pela Lei Contra Crimes Ambientais, Lei Federal  9605 / 98 que proíbe a utilização, perseguição, destruição e caça de animais silvestres e prevê pena de prisão de 6 meses a 1 ano, além de multa para os infratores.

Morcegos são animais muito importantes, movimentando a cadeia alimentar  e contribuindo decisivamente para o equilíbrio ambiental.

Infelizmente, já há 8 espécies na lista de animais ameaçados de extinção do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA). A preservação dos morcegos é vital para a preservação de florestas, e são necessários esclarecimentos e educação da  população assim como campanhas preservacionistas.

Um fato alarmista, controvertido e mal entendido é a transmissão da raiva por morcegos a seres humanos. Sim, os cientistas afirmam que a maioria dos casos de transmissão dessa doença é causada por mordidas de morcegos. Os transmissores são os hematófagos. Mas a maioria dos morcegos não está contaminada com a raiva, e os animais portadores são identificáveis, pois perdem a capacidade de voar,  ficam desorientados, agressivos, com tremores, descoordenação motora, contrações musculares, o que faz com que possam entrar em contato com humanos. Claro está que deve-se evitar a manipulação e tê-los nos locais onde se vive, cuidados esses que devem ser aplicados em relação a qualquer animal silvestre. Caso o morcego tenha atacado alguém, a pessoa deve procurar um hospital ou o centro de saúde mais próximo, e o morcego deve ser capturado e enviado imediatamente ao Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), que orientará o indivíduo. Mesmo que o morcego tenha morrido, deve ser encaminhado ao CCZ. Um dado curioso é que, nos últimos 50 anos menos de 10 pessoas contraíram raiva de morcegos, na América do Norte.

Morcego livre

O Projeto Morcego Livre alerta:

“O morcego só morde para se defender. Ele tem muito mais medo de você do que você dele, pode ter certeza. Nunca toque num morcego principalmente se ele estiver no chão e parecer machucado. Em caso de mordida ou mesmo um arranhado por morcegos faça o seguinte:

– Lave o local com bastante água e sabão:
– Não mate nem jogue fora o animal;
– Procure orientação médica numa unidade de saúde mais próxima de sua casa imediatamente;
– Ligue para o Laboratório de Manejo de Fauna, CCZ,  para buscarem o animal, mesmo que ele esteja morto. Isso é muito importante para você e para toda a comunidade, pois o morcego tem que ser examinado.

“Nunca peque um morcego. Deixe o bicho em paz. Ele só vai morder para se defender.”

*Texto meramente informativo. Procure sempre orientação médica, veterinária e de especialistas.

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