Novo documentário fala dos riscos de um mundo sem abelhas

           

Por Patricia Tai (da Redação)

Foto: Kino Lorber, Inc./ MNN
Foto: Kino Lorber, Inc./ MNN

Um apicultor dos Alpes Suíços e um fazendeiro que cria abelhas na Califórnia estão notando o mesmo problema desconcertante: as abelhas estão morrendo. Na China, o desaparecimento da população de abelhas forçou os fazendeiros a importar pólen de abelhas para polinizar manualmente as suas plantas.

O desaparecimento das abelhas não se dá por um turno sinistro de eventos evolucionistas, mas consiste em algo muito mais provocado pela interferência humana. O fato é que elas estão a caminho da extinção em todo o mundo, o que pode trazer efeitos de cataclisma na economia global e na sobrevivência humana.

Em seu documentário “More Than Honey” (que significa “Mais que mel”), o cineasta Markus Imhoof busca explorar as teorias por trás do fenômeno chamado “Distúrbio do Colapso das Colônias” (“Colony Collapse Disorder” – CCD), e seu impacto sobre o planeta. Na preparação do filme, Markus examinou de perto o comportamento e a reprodução desses animais. Ele compartilhou as suas ideias com a Mother Nature Network:

MNN: O que o levou a contar essa história no cinema?

Markus: Abelhas desempenharam um papel importante na fábrica de conservas do meu avô. Sem as abelhas, ele nunca teria colhido cerejas, damascos e framboesas em seus vastos pomares. A fascinante relação entre plantas e abelhas é também a razão pela qual minha filha e meu genro se tornaram pesquisadores na Austrália. Mas agora, a história de nossa família com as abelhas se tornou subitamente um tópico de extrema importância para todos: quando as abelhas começaram a morrer no mundo, fiquei alarmado, porque sei o que elas significam na natureza.

MNN: Você concorda com a afirmação de Einstein de que “quando as abelhas desaparecerem, a humanidade irá durar apenas quatro anos”?

Markus: Há rumores de que ele tenha dito isso, e a afirmação faz sentido: 70 a 80% de todas as plantas são polinizadas por insetos e não poderiam existir sem eles. Também, um terço de tudo o que comemos não existiria; especificamente, os alimentos mais saudáveis e saborosos. O mundo seria em preto e branco.

MNN: Por que é importante mostrar os efeitos do Distúrbio do Colapso das Colônias na Alemanha, na Suíça, nos Estados Unidos e na China?

Markus: É importante pois há muitos fatores ocasionando a morte das abelhas. As causas são diferentes em cada continente, provando que o problema é global. Contudo, a situação na China, onde os homens têm tido que atuar no lugar das abelhas, mostra uma visão utópica do presente.

MNN: Como você conseguiu closes tão próximos das abelhas na colmeia e no ar?

Markus: Nós trabalhamos com mini helicópteros, balões com essências e andaimes, mas o principal segredo foi a câmera, que podia capturar 300 imagens por segundo. Isso significa que um segundo de realidade me dá 12 segundos de filme – desde que eu conseguisse o momento certo! Para o voo nupcial da abelha rainha, nós trabalhamos dez dias a partir de um andaime alto para obter 36 segundos de filme.

MNN: Há muitas teorias sobre o CCD. Quais fatores você acha mais plausíveis? Os cientistas estão próximos de descobri-los e atuar sobre eles?

Markus: O pior é a combinação de fatores, por exemplo, pesticidas e ácaros. Mas se você adicionar a monocultura (falta de comida), o stress, os remédios errados e a endogamia (falta de reprodução), são fatores demais. Os cientistas têm que trabalhar, analisar os problemas e encontrar respostas, mas nós também precisamos agir de forma politicamente correta como consumidores, uma vez que somos conscientes o suficiente. Estou esperançoso pois neste ano o parlamento europeu tomou algumas decisões importantes: banir os pesticidas mais perigosos e vincular os subsídios a obrigações ambientais. Se nós tornarmos a agricultura uma indústria, que é o plano de algumas grandes companhias internacionais, tudo entrará em colapso e nós não seremos capazes de alimentar o mundo. Nós somos o que comemos; então, como consumidores, podemos decidir o que seremos.

MNN: Que mensagem você espera que os espectadores levem consigo após verem o filme?

Markus: A curiosidade é o primeiro passo para se encontrar uma solução. Eu também espero que a audiência fique fascinada pelos fatos, percebendo o quanto tudo está interligado: plantas, insetos, humanos, comércio global, consumidores. Eu quero que cada pessoa possa se sentir uma parte dessa história de conflito crescente entre a civilização e a natureza.

MNN: O que as pessoas podem fazer para ajudar a resolver o problema?

Markus: Eu tenho uma questão fundamental: Nós, humanos, somos parte da natureza, ou nós queremos ficar do lado de fora e subjugá-la? Podemos encontrar uma forma de simbiose criativa entre todas as partes envolvidas, compondo um tipo de orquestra composta por solistas ouvindo uns aos outros e fazendo a música juntos?”.

Veja o trailler:

Não é a primeira vez que o tema é abordado em documentário. Em 2009, os cineastas ingleses George Langworthy e Maryam Henein produziram o filme “Vanishing of the Bees” (“Fuga das Abelhas”).

Cultura, veneno e interferência de celulares

As populações de abelhas estão diminuindo progressivamente há muitas décadas, mas foi a partir de 2006, quando uma doença levou ao desaparecimento de 70% das abelhas nos Estados Unidos, que o fenômeno tornou-se mais evidente.

Talvez as providências que estão sendo tomadas pelas autoridades europeias no sentido de  controlar os pesticidas estejam vindo tarde demais. Seria fundamental uma atuação conjunta das autoridades de todos os países, de modo a promover a conscientização quanto a este grave problema. Os documentários são importantes para divulgar o tema, mas pode ser que não tenham um alcance muito amplo quanto poderiam ter, por exemplo, políticas públicas e campanhas de divulgação em todos os países.

Nisso há o peso, também, da questão cultural. Se considerarmos como os insetos são tratados pelas sociedades humanas, não é difícil de se entender por que as abelhas estão desaparecendo. Os humanos em geral demonstram ter medo de abelhas; costumam matá-las e ensinam as crianças a fazerem o mesmo, assim como o fazem com formigas e outros insetos.

As abelhas entraram no mesmo rol dos insetos odiados, e foram impiedosamente envenenadas como os outros, pois o ar que dissipa a substância química que visa matar outras espécies de insetos é o mesmo ar em que elas vivem – ou viviam. Mas é também o mesmo ar em que nós vivemos.

É cada vez mais evidente que cada ser vivo pode ser visto como uma célula, e todas estas células fazem parte um mesmo organismo, embora o ser humano esteja demorando para aceitar isso e fazer mudanças radicais e urgentes a respeito.

Mas, se por um lado os humanos não souberam valorizar as abelhas, eles também souberam fazer algo que não deixam de fazer com os animais não-humanos: explorá-las. As abelhas foram e ainda são exploradas pelos humanos para produção de mel e derivados (própolis e geleia real).

Embora os principais fatores a causar a dizimação das abelhas sejam oriundos dos pesticidas e agrotóxicos utilizados na agricultura, um estudo realizado pelo Instituto Federal de Tecnologia da Suíça em 2011 revelou que os sinais de celular também causam a morte das abelhas, pois as desorientam, conforme publicado pela ANDA.

Cabe aqui a reflexão: quando não tivermos mais alimentos no mundo, não precisaremos de celulares para nos comunicarmos tanto.

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