Não podemos nos dar ao luxo de odiar

           

Em uma entrevista Zygmunt Bauman disse que, para que a utopia nasça, são necessárias duas condições, uma das quais“é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que ‘nós, seres humanos, podemos fazê-lo’. Essa crença está articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos e ter força e coragem para extirpá-los” [1].
Essas palavras do sociólogo polonês vão na contramão da quase totalidade dos comentários postados aqui na ANDA após matérias sobre maus-tratos, em especial quando acompanhadas de vídeo ou foto de animais sendo torturados. Dois sentimentos expressados pelos leitores chamam a atenção: o primeiro é o ódio pelo torturador, pedindo, muitas vezes, que o mesmo ato violento que ele cometeu lhe venha a ocorrer. O segundo é o sentimento de desânimo com o ser humano, um desalento, uma sensação de que está tudo perdido diante de tanta barbárie.
O educador vegano confia no potencial humano de reverter o atual estado de barbárie. Sem ódio ao torturador, sem pedir sua cabeça numa bandeja. Por isso, defendemos que a primeira mudança nas nossas relações com o mundo animalizado deve ser interna, uma mudança de mentalidade, no plano conceitual. Não só defendemos, como passamos isso para nossos alunos e alunas. A libertação animal não virá da lei de talião. Libertação animal é libertação humana. Simples assim.
O educador vegano não desanima com o ser humano após ver uma cena de tortura, pois diante dele, diariamente, centenas de crianças e adolescentes precisam ser formados moral e afetivamente para que não se tornem torturadores amanhã, reificadores de toda expressão de vida.
O educador vegano não pode nutrir um sentimento tão negativo e destrutivo como o ódio a outro ser, mesmo este sendo autor de atos tão monstruosos. Ninguém nasce torturador e assassino, em algum momento de sua trajetória biográfica o indivíduo é levado a naturalizar a barbárie. Não é novidade que crianças que vivenciam diariamente cenas de torturas, seja sobre o humano ou não, tendem a reproduzi-las mais tarde. Violência se aprende por mimesis.
O educador vegano não pode se dar ao luxo de desanimar com a espécie humana. Pois somente o ser humano pode tirar os animais não humanos da atual situação em que se encontram. Uma das tarefas da educação vegana é justamente a de resgatar nas crianças e adolescentes a empatia castrada pelos pais e professores esquizofrênicos morais. Tarefa difícil e árdua, mas urgente e necessária. Precisamos formar novas gerações mais empáticas e capazes de usar o raciocínio ético ao analisar suas próprias ações e omissões nas relações com todos os animais sencientes, humanos ou não. Capazes de conceder o benefício da duvida àqueles que ainda não sabemos se são sencientes, e de buscar uma relação genuinamente ética com os ecossistemas naturais.
Os educadores veganos já sabem “o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos” num mundo especista. Eles também têm “força e coragem para extirpá-los”, força que vem da fundamentação teórica, dos estudos e mais estudos filosóficos, etológicos, nutricionais, históricos e políticos; coragem que vem do ativismo, da ação direta pedagógica constante, ininterrupta. Educadores veganos são essencialmente ativistas dos direitos animais e não hobbistas [2].
Esquizofrenia moral tem cura, e ela se chama educação vegana.
Educadores veganos são aqueles docentes que mostram para seus alunos e alunas a incoerência em pedir a cabeça dos torturadores de cães e gatos e silenciar sobre aqueles que manuseiam a pistola pneumática, os que manejam a ordenha mecânica, os que içam as redes nos rios e mares, os que degolam aves e suínos aos milhares todos os dias do ano. “Dor é dor” independente da espécie, nos ensinou Primatt, o combate aos maus tratos deve ser para benefício de todas as espécies, inclusive a humana que insiste em ignorar seu constante estado de vulnerabilidade.
Educadores veganos são docentes que ensinam para seus alunos e alunas que não se deve responder ao torturador de cães e gatos, ao caçador, ao vivissector, e a todos os somatofóbicos com a mesma violência que eles dirigem contra o corpo (e a mente) dos animais vulneráveis.
Não chegaremos à plenitude dos direitos animais baseando-nos na lei de talião. Para construirmos um mundo vegano, uma utopia os especistas dirão, precisamos confiar no potencial humano de fazer o bem.
Notas
1. OLIVEIRA, Dennis de. O caçador e o jardineiro. In: Revista Cult. Edição especial. Filosofia contra o sistema. Nº 04, janeiro/2012. p. 38.
2. Devo esse termo ao ativista dos direitos animais e nutricionista vegano George Guimarães.

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