Projeto de Deseducação Nutricional

           

“O leite também pode causar sangramento do trato intestinal que, com o tempo, diminui as reservas de ferro do corpo. Os pesquisadores especulam que a perda de sangue pode ser uma reação a proteínas presentes no leite. (…) Estudos de vários países mostram uma correlação muito grande entre o uso de laticínios e a incidência de diabetes. (…) O leite contém muitos contaminantes, de pesticidas a drogas. Está provado que cerca de um terço dos laticínios estão contaminados com resíduos de antibióticos. (…) Os laticínios dão um falso senso de segurança àqueles que se preocupam com a osteoporose”.
(Robert Cohen citando Dr. Neal Barnard)

 

Durante a primeira semana do mês de outubro a escola onde leciono foi agraciada com a presença de estagiárias do departamento de suprimento escolar do Estado de São Paulo. Elas tinham por objetivo desenvolver o “projeto de educação nutricional”, com os alunos e alunas da unidade escolar.

As estagiárias passaram de sala em sala, além de observarem o que era servido aos estudantes no refeitório da escola no horário dos intervalos. Nesse passar na sala de aula para apresentar a pirâmide alimentar e a importância dos grupos alimentares, elas acabaram entrando numa sala em que eu estava revisando o conteúdo do bimestre, que era a distinção na proposta ética animalista entre Peter Singer, Tom Regan e Gary Francione.

Ao colocarem uma pirâmide alimentar no quadro, lembro-me que um aluno disse ao seu grupo: “tem leite”, ao que outro aluno respondeu, “elas vão falar das propriedades do leite”, e o primeiro retrucou, “das propriedades cancerígenas do leite?”. Saí do lugar que habitualmente o professor ocupa na frente e fui para o fundo da sala, tanto para observar melhor a apresentação delas quanto a reação dos alunos. Assim que elas concluíram, perguntaram se alguém tinha dúvidas. Os alunos em uníssono disseram que não, mas que o professor sim. Levantei a mão e as moças (até o momento, sorridentes) se prontificaram responder as minhas dúvidas. Questionei todas as afirmações sobre as carnes, leite e gorduras que elas tinham feito. A cada resposta padrão delas eu apresentava uma nova questão que demonstrava sua contradição lógica e não menos nutricional. Por fim o sorriso foi substituído pela indagação: “você é vegetariano?”. Antes que eu respondesse, os alunos bradaram: “ele é vegano”. Respondi que sim, que minha dieta é vegetariana, e tive que ouvir “tem que tomar cuidado com os minerais”, já que as carnes (= proteína) eu já tinha demolido. Como assim?, perguntei. “Tem várias pesquisas que apontam a deficiência de ferro na dieta vegetariana”, disseram. Pedi que me passassem as fontes de tal afirmação; e estou esperando até hoje. Não é necessário ser muito gênio para saber que a deficiência de qualquer mineral está presente em qualquer dieta desequilibrada, seja vegetariana ou não.

Depois que elas saíram da sala, fiquei pensando na incoerência entre o dizer e o fazer muito forte na apresentação das moças. Eis que me veio a dúvida, “será mais um exemplo do dito desconexo?”. Regan assim o define:

“Geralmente, quando dizemos alguma coisa falsa, há duas possibilidades. Ou sabemos que essa coisa é falsa, ou não sabemos. Se a primeira alternativa for verdadeira, não somos sinceros naquilo que dizemos, e contamos uma mentira quando o dizemos; se a segunda for verdadeira, somos sinceros naquilo que dizemos, mas acontece que estamos enganados. Quando os porta-vozes das grandes indústrias de exploração animal dizem uma coisa que é falsa, as mesmas alternativas se apresentam. Ou eles estão mentindo, ou estão enganados”.

Considero 99% dos nutricionistas e nutrólogos brasileiros porta-vozes das indústrias de exploração animal e adeptos da primeira alternativa. Quanto às estagiárias que foram na escola, ainda pertencem à segunda alternativa. Ainda.

Apresentação

“O projeto se destina aos alunos das escolas públicas do Estado de São Paulo e terá como objetivo principal o incentivo à alimentação saudável. Demonstrando como o equilíbrio e a variedade de nutrientes em nossa dieta são importantes para a saúde física e mental, e quanto eles são importantes no equilíbrio emocional, na prevenção de distúrbios nutricionais, como: anemia e desnutrição, bem como no tratamento de doenças como obesidade, hipertensão, diabetes etc.”

Ninguém em sã consciência questiona que uma equilibrada variedade de nutrientes é importante para nossa saúde psicofísica, mas o que vai nos dizer se a alimentação é saudável ou não é a fonte desses nutrientes. Logo abaixo analisaremos a pirâmide alimentar, sustentáculo desse projeto, onde três grupos são formados por produtos de origem animal, como carnes, ovos, leite e derivados. A primeira questão que vem à mente é: como prevenir um distúrbio como anemia, consumindo produtos que provocam ou intensificam a anemia? Estou me referindo à proteína animal. A segunda questão é: como tratar doenças como obesidade, hipertensão, diabetes, aterosclerose, artrite, pedra nos rins, instabilidade emocional, uma variedade de cânceres, depressão, entre outras, com uma dieta onde a proteína animal é vendida como essencial? Quando as estagiárias vendem a ideia de que o consumo de proteína animal é fundamental para termos uma alimentação saudável e que contribui para nosso equilíbrio emocional, negando as milhares de pesquisas desenvolvidas nas duas últimas décadas que apontam o consumo de proteína animal como a fonte de uma infinidade de doenças, pesquisas que na sua maioria esmagadora não foram realizadas por médicos e nutricionistas vegetarianos ou veganos, estou diante do dito desconexo.

Na segunda parte da apresentação temos: “faremos uma introdução à nutrição, abordando os principais pontos quanto à quantidade e qualidade, contribuindo para que esses jovens e crianças tenham as informações necessárias, claras e objetivas, dessa forma possam efetuar as escolhas alimentares na escola e fora dela de maneira assertiva, incentivando a mudança dos hábitos alimentares, que na fase escolar de certa forma é incorreta em virtude de alimentos industrializados”.

Veremos adiante que as informações passadas aos estudantes são, realmente, clara e objetivamente biocidas, tanto para os animais não humanos sequestrados, confinados, torturados e assassinados para satisfazer uma pseudonecessidade nutricional, quanto para os adolescentes que se alimentam daquilo que o raciocínio ético em conjunto com a medicina ética já demonstraram não condizer com uma alimentação saudável.

É importante ressaltar a importância das palavras “escolha” e “mudança” nessa segunda parte da apresentação. No intervalo ou recreio, só são oferecidos aos alunos duas opções: a cantina, onde são vendidas todas as maravilhas da indústria alimentícia, onde, a não ser por pura hipocrisia e cara de pau, alguém da área da saúde tem coragem de dizer que é saudável. Produtos não só ricos em ingredientes de origem animal como de uma vastidão de ingredientes químicos (Não vou tratar aqui do gigante impacto ambiental do consumo desses produtos). A segunda opção é o refeitório, onde é incogitável a ausência de carnes e leite na alimentação.

Para um adolescente ao qual desde a mais tenra idade seus pais não ofereceram outras opções além das oferecidas na escola, que mudança ele terá no seu hábito alimentar? Escolher entre o que é oferecido na cantina e o que é oferecido no refeitório é o mesmo que escolher entre seis e meia dúzia. Antes que alguém diga “no refeitório também é servida salada junto com os cárneos”, eu digo: salada (alface/tomate) não é o suficiente para alimentar um adolescente que está em fase de crescimento, que acabou de sair de uma aula de educação física ou que vai para ela em seguida.

Desenvolvimento do projeto

Durante uma semana as estagiárias permaneceram na escola seguindo a seguinte metodologia:

No 1º dia: irão observar as “situações que envolvam a alimentação como aceitação da merenda escolar e as escolhas realizadas pelos” alunos “nas cantinas”.

Penso que “a mudança de hábitos alimentares” não condiz com a “aceitação da merenda escolar”. Mudança é rompimento, desligamento, mudança só combina com aceitação quando se trata de aceitar algo novo.

No 2º dia: as estagiárias irão verificar “com a direção a existência de um tópico chave a ser abordado”. Não sei se esse diálogo ocorreu de fato, mas não posso deixar de destacar aqui, que esse tópico na linguagem do corpo burocrático da escola chama-se “contraponto”, que já abordei aqui na ANDA e, que foi ressaltado na palestra “A ética para com os animais no ensino médio”, proferida pela estudante Sarah Rodrigues no V Seminário de Ética e Direitos Animais na Universidade de São Paulo em setembro. O tópico que o corpo burocrático vem dizendo há anos que precisa ser abordado é o contraponto às minhas aulas de ética na alimentação. Por contraponto eles entendem a legitimação do consumo tradicionalmente naturalizado de tudo que provém da tortura e assassinato de seres outras espécies.

No 3º dia: será a apresentação do projeto nas salas de aula via explicação da pirâmide alimentar. Essa é a espinha dorsal do projeto, por isso, cuidarei desse tópico com mais cuidado abaixo.

No 4º dia: são os resultados, observa-se-á “se houve mudanças nas escolhas alimentares, melhoria na aceitação da merenda escolar etc”.

Quanto a essa análise de resultados, é interessante notar a crença de que uma apresentação de poucos minutos sobre os grupos alimentares que compõem uma pirâmide nazista será o suficiente para uma mudança de hábitos alimentares. E mudar o quê, se o que é dito para comer é o que eles já comem? E quando se busca confirmar se houve uma “melhoria na aceitação”, parte-se do princípio de que já havia uma aceitação, o que é obvio – são desmamados com secreção mamária de outra espécie e com papinha regada a pedaços de pessoas mortas liquidificados –, como disse acima, eles só têm duas opções, não existe uma boa e outra ruim, as duas são péssimas. E as alunas que demonstram mudança, escolhendo não aceitar a merenda escolar, tirariam nota 10 em ética na alimentação e zero em nutrição biocida?

Pontos positivos do projeto

O título desse tópico, “pontos positivos do projeto” não passa de piada de mau gosto. Vejamos os quatro pontos:

1. Interação com os alunos;

2. Contribuição para mudanças dos hábitos alimentares dos alunos;

3. Contribuição para melhoria do quadro de problemas críticos de saúde publica no Estado, como, por exemplo, a obesidade infantil;

4. Oferecer auxílio para as escolas na solução de problemas corriqueiros entre os alunos, relacionados à nutrição.

Será que a interação foi boa? Todos os alunos protovegetarianos e vegetarianos da escola vieram me procurar após a passagem das estagiárias em suas salas para relatar o que aconteceu. Ou os alunos no geral davam pouca importância para o que estava sendo dito ou tinha a intervenção dos protovegetarianos e vegetarianos, cuja resposta das estagiárias não passava dos batidos clichês da importância da proteína e do cálcio de origem animal ou tratavam os vegetarianos de modo pouco cortez.

Será que contribuíram para mudança de hábitos alimentares reforçando que devem comer o que já comem: muita proteína animal? Será que a mudança de habito alimentar de que trata o projeto é a troca de proteína bovina pela suína ou avícola?

Será que o Estado tem mesmo interesse em combater a obesidade infantil? Como combater a obesidade infantil legitimando o consumo de carnes, leite e derivados, além de não propor a abolição dos industrializados riquíssimos em açucares?

E por fim, a única solução que qualquer projeto sério de cunho nutricional poderia trazer para as escolas seria a proposta de adoção da dieta vegetariana, ou seja, exclusiva do reino vegetal, sem carnes, ovos, leite e derivados, mel, cochonilha e gelatina. A dieta vegetariana contribuiria na solução não só de problemas psicofísicos, mas também espirituais.

Apresentação do projeto

Eis a espinha dorsal do projeto: a pirâmide alimentar. Os grupos são divididos assim:

1. Segundo o projeto a base da pirâmide é composta por “pães, arroz, cereais, farinhas e massas em geral (6-11 porções); alimentos fontes de carboidratos complexos, vitaminas do complexo B e fibras. Fonte de energia, muito importante para a realização das nossas atividades do dia a dia”.

É interessante notar que no momento que qualquer vegetariano questiona um nutricionista, o mesmo relega os cereais e seus derivados (que deveriam ser estimulados a serem consumidos na sua forma integral) a segundo plano diante da propaganda dos componentes do terceiro grupo da pirâmide biocida; só sabem falar da fundamental importância da carne como fonte de proteína e do leite como fonte de cálcio. Se este é o grupo que deve corresponder ao maior volume de alimentos consumidos durante o dia, qual o motivo da mega propagando da proteína animal? Porque as carnes, ovos, leite e derivados, não estão na base da pirâmide se são tão essências à nossa saúde? Temos que ficar sempre atentos com o que nos é dito (desconexamente) pelos porta-vozes das indústrias da exploração animal.

2. Logo acima da base temos o segundo grupo mais importante, o das “hortaliças (3-5 porções) e frutas (2-4 porções): alimentos fontes de vitaminas e sais minerais e fibras. Importante para o funcionamento normal do nosso organismo são os chamados alimentos reguladores, que ajudam o nosso intestino a funcionar de forma regular por causa da alta quantidade de fibras”.

Esse grupo, o dos vegetais e frutas, é o mais explorado pela dieta vegetariana. Por vegetais entendemos as folhas, os talos e as raízes; não entram os grãos (cereal, leguminosa e as oleaginosas) e as frutas. Estamos diante do grupo com a maior diversidade alimentar para escolhermos o que colocar no prato. No grupo das frutas, as secas também estão inclusas. Tanto para os vegetais quanto para as frutas, a variedade deve ser extremamente explorada, para que se obtenha a maior variedade de nutrientes. Em resposta ao questionamento de uma aluna vegana as estagiarias disseram que a dieta vegetariana não condiz com a realidade de milhões de brasileiros. Como assim? Qualquer pessoa que tenha tido aulas básicas de geografia e biologia na escola sabe que somos privilegiados por morar no país com a maior diversidade vegetal do planeta. É graças ao marketing promovido pelas indústrias de exploração animal, através dos seus garotos propaganda (médicos e nutricionistas biocidas), que as poucas (habituais) fontes de proteína animal tomaram o lugar da mega variedade de nutrientes de origem vegetal que temos em nosso país.

3. Nesse nível da pirâmide encontramos dois grupos, os que são fonte de proteína e os que são fonte de cálcio. Na pirâmide biocida do projeto esse nível é composto por: “leite e derivados (2-3 porções): alimentos fontes de proteína e de cálcio: são os maiores fornecedores de cálcio, mineral envolvido na formação de ossos e dentes, contração muscular e na ação do sistema nervoso. Também são fontes de proteína de boa qualidade”. (grifo meu)

É difícil de acreditar que as estagiarias não sabem que a proteína animal é uma grande fonte de aminoácidos sulfurados e que seu consumo em demasia leva a perda do cálcio pela urina. Não deveriam as estagiarias saber que o grande consumo de fibras pelos vegetarianos contribui (junto com os prebióticos, advindos do alho, alho-poró, cebola, alcachofra, chicória, escarola e nos alimentos do grupo dos cereais) para uma flora intestinal equilibrada, adequada, favorável à absorção do cálcio?

Ao insistir no consumo de leite e derivados como única fonte de cálcio (o que é uma mentira), as estagiarias “esqueceram” de mencionar que sem o consumo de magnésio o corpo só absorve 25% do cálcio ingerido e, novamente, a dieta vegetariana é rica nesse mineral (dos feijões, das verduras como a couve e dos cereais integrais). Qualquer pessoa que queira estudar seriamente essa questão terá uma literatura que cresce a cada ano confirmando que quanto mais proteína animal você consome mais cálcio você perde, e que os países que mais consomem carnes, leite e derivados são os que apresentam os maiores índices de osteoporose. A literatura medica especializada está repleta de pesquisas relacionando o consumo de laticínios a produção de muco, perda de hemoglobina, diabetes infantil, cardiopatias, aterosclerose, artrite, pedras nos rins, depressão, irritabilidade, cânceres (ovariano, pulmão, próstata, mama) e alergias. O próprio Hipocrates, pai da medicina, já relacionava naquela época o consumo de leite a reações alérgicas como a urticária e transtornos gastrointestinais.

Fico me perguntando como é que os profissionais da saúde podem ser tão bons na falta de raciocínio lógico. Somos mamíferos, todos os mamíferos se alimentam de leite somente quando são bebês, depois de desmamados buscam suas fontes de cálcio nos vegetais verde-escuros. De onde vacas, elefantes e gorilas tiram seu cálcio? Como esses animais que têm uma estrutura óssea formidável adquirem seu cálcio? Alguém já viu um rinoceronte mamando nas tetas de uma vaca na savana africana? Somos a única espécie que acredita – graças aos porta-vozes das indústrias de exploração animal – que realmente precisamos beber leite de outra espécie depois de desmamados.

Enfim, para os que não sabem, em especial as estagiarias que desenvolveram o projeto de deseducação nutricional na escola que leciono, nos vegetarianos tiramos nosso cálcio basicamente dos vegetais verde-escuros, das leguminosas, castanhas, frutas secas e do melado de cana.

No outro grupo desse nível da pirâmide biocida temos: “carnes, aves, peixes, ovos e feijões (2-3 porções): são os alimentos construtores. São necessários para a construção e manutenção dos músculos e preservação do sistema de defesa. São os alimentos que nos darão força.”

A primeira coisa que me chamou atenção nesse grupo foi a exclusão das aves e peixes das carnes. Isso é interessante, pois já virou senso comum as pessoas perguntarem: “mas você não come nem um peixinho?”, ou “frango você come, né?”. Não, nos vegetarianos não comemos nenhum tipo de carne, e até onde sei aves e peixes não dão em árvores nem brotam da terra. A segunda questão interessantíssima nesse grupo é ter a proteína animal como necessária para construção e manutenção dos músculos e como fonte de força; isso me fez pensar nos atletas vegetarianos como os fisiculturistas (e fitness) da veganbodybuilding.com, no triatleta brasileiro Daniel Meyer, no lutador do UFC Mac Danzig, Carl Lewis, Jack LaLanne, Les Brown, Lucy Stephens, Ruth Heidrich , Sally Eastall, Pat Reeves, Martina Navratilova, Mike Tayson, e muito outros, todos adeptos do modo de vida vegano. Como fisiculturistas veganos conseguem construir e manter toda aquela massa muscular sem ingerir proteína animal? Seria um milagre?

Enfim, para os que não sabem, em especial as estagiarias que desenvolveram o projeto de deseducação nutricional na escola que leciono, nos vegetarianos tiramos nossa proteína das leguminosas (feijões, lentilha, ervilha, grão-de-bico, soja e derivados) e das oleaginosas (castanhas, nozes, amêndoas e sementes como as do gergelim e do girassol). É interessante notar que o grupo das proteínas não é o que aparece em maior quantidade (ele não está na base da pirâmide). De onde então os nutrólogos e nutricionistas biocidas, e suas herdeiras, as estagiarias, tiraram a ideia que a dieta vegetariana pode ser deficiente em proteínas por não consumir a de origem animal? O marketing das indústrias de exploração animal foi tão bem feito, o dito desconexo foi tão bem aceito pela população que quando se fala de cálcio no Brasil estão falando de leite e derivados; quando falam de proteína estão falando de carnes.

É importante ressaltar que na pirâmide vegetariana a união dos grupos de proteína e cálcio representa os alimentos ricos em ferro. Ou seja, todo alimento vegetal que é rico em proteína ou em cálcio, é também rico em ferro.

4. Vamos agora para o topo da pirâmide. Na pirâmide biocida do projeto esse nível é composto por: “gorduras, óleo e açúcar: alimentos fontes de energia. Por serem muito calóricos devem ser consumidos moderadamente. Ajudam a dar sabor aos alimentos, são utilizados para fabricação de doces e salgados, e das sobremesas de modo geral, sendo assim, precisam ser utilizados de forma inteligente, não ultrapassando as quantidades recomendadas para que não comecem a causar problemas de saúde.”

Um exemplo é o sal, deve ser evitado ao máximo, pois sabemos que seu consumo exagerado contribui para não absorção de cálcio. A maneira inteligente de lidar com as gorduras processadas ou com os alimentos excessivamente industrializados é abolindo-os da dieta. A manteiga e a margarina podem ser abolidas sem problemas, a primeira por ser oriunda da exploração não-humana e não contribuir em nada para saúde humana, a segunda por ser fonte de gordura saturada. Encontramos também alimentos que podem ser consumidos, mas em pequena quantidade, como é o caso do açúcar mascavo, por ser fonte de ferro e outros minerais, No entanto, ele poderia ser abolido da dieta sem que fizesse falta do ponto de vista nutricional. Destaco que a palavra abolir não faz parte do dicionário dos nutrólogos e nutricionistas biocidas, batem sempre na tecla do equilíbrio; ignoram o fato de que quando a escolha pelo que comer envolve a abreviação da vida de pessoas não-humanas, não existe equilíbrio nutricional humano que justifique o biocidio. No topo da pirâmide vegetariana encontramos o óleo de linhaça que deve ser consumido diariamente, pois fornece boa quantidade do ácido graxo ômega-3. Segundo o médico Alberto Peribanez Gonzalez os veganos e os crudivoristas podem “‘lambuzar-se’ de gorduras em suas dietas. Em alguns casos, podem comer até mais gorduras que os que se nutrem com a dieta contemporânea. Se ingerirmos diariamente diversos óleos virgens, nozes, sementes como gergelim, grãos como quinoa e amendoim, coco, abacate, azeitonas e outras frutas ricas em gordura, estaremos – como crudivoristas vegetarianos – ingerindo impressionantes 60% ou mais de calorias na forma de gorduras”.

A abolição dos açucares industrializados pelos adeptos da dieta vegetariana crudívora é uma realidade milenar. Ainda segundo Gonzalez: “(…) existe um mar de doces ao nosso redor: melancias, laranjas, lima, tangerinas, cenouras, maçãs, morango, uvas, abacaxis, caju, abóbora, erva-doce, água e polpa de coco. Se soubermos combinar bem esses presentes da mãe natureza, não faltarão os sabores de festa, de alegria, de cálcio, de energia e de crescimento em nossas vidas. Doces são drogas que enganam o paladar de crianças em fase de crescimento. Doces são guloseimas cozidas com açúcar. Atingem sensores do paladar que estimulam centros de prazer. São os preferidos das crianças. Existe, no entanto, uma diferença fundamental entre os doces crus, a base de frutas vivas, secas, castanhas, coco e amendoim, e os cozidos, com fartas quantidades de açúcar, produtos lácteos adocicados e farinha branca. Enquanto os doces crus (com frutas e castanhas) adicionam cálcio ao sistema e estimulam a digestão e as bactérias benéficas por serem enzimáticos e probióticos, os doces cozidos na forma de chocolates, biscoitos e doces de confeitaria, de casamentos e aniversários empacam a digestão e promovem um massacre na microbiota (flora) intestinal benéfica, sobrecarregam o pâncreas e o fígado, retiram o cálcio dos ossos e dentes, enfraquecem a imunidade e causam disbiose intestinal, promovendo um bolo fecal fétido, seja compacto ou diarréico. (…) O açúcar é um impostor, que artificialmente substitui o paladar das fontes de cálcio da natureza e age no organismo de forma inversa: reduz a absorção de cálcio e furta esse mineral dos ossos e dentes. Em sua busca intuitiva e instintiva pelo cálcio, as crianças em idade de crescimento tornam-se as mais vulneráveis à dependência químico-metabólica de açúcar. Lucro certo para a assistência médico-dentária, indústria farmacêutica e alimentícia de biscoitos, chicletes e doces, e para as redes de lanchonetes”.

Uma verdadeira educação nutricional com crianças e adolescentes deveria mostrar que as melhores sobremesas são as frutas e as castanhas, fontes legitimas de energia. No projeto de deseducação nutricional logo após a apresentação da pirâmide temos a seguinte constatação: “Assim, observamos que somente com mudança de hábitos alimentares e equilíbrio da nossa dieta, de acordo como modelo proposto pela pirâmide alimentar, poderá alcançar uma alimentação com qualidade e mais saúde.”

Se os alunos da escola mudarem seus hábitos alimentares seguindo o modelo da pirâmide biocida, caíram numa tautologia gastronômica. Essa pirâmide não é mais que um modelo de desequilíbrio ético e ambiental. Como é possível para esses profissionais da saúde ignorarem o ambiente que esses produtos saudáveis (peixes e aves, por exemplo) vivem? Onde está o saudável em ambientes aquáticos contaminados com metais pesados e granjas indústrias regadas a amônia e ração a base de hormônios?

Dez passos para uma alimentação saudável

Do primeiro ao terceiro passo temos o reforço de uma alimentação baseada nos grupos dos cereais, vegetais e frutas; inclusive indicando as frutas como sobremesas e lanches. No passo oitavo pede para diminuir o sal; no nono, para tomar pelo menos 8 copos de água por dia; no décimo, para praticar pelo menos 30 minutos de atividade física por dia.
Será que houve uma mudança de consciência no final do projeto? Não, infelizmente não.

No quarto passo temos: “coma feijão com arroz todos os dias ou, pelo menos, 5vezes por semana. Esse prato brasileiro é uma combinação completa de proteínas e bom para a saúde”. Concordo plenamente. Mas porque que quando citei na sala de aula que o prato de arroz com feijão tinha mais proteína que num bife, tive como resposta da estagiaria “isso não existe”. Ela não concorda com um passo para alimentação saudável que compõem seu próprio projeto? Será que elas leram a edição da revista dos vegetarianos de setembro?

No quinto passo temos o incentivo do consumo de carnes, ovos, leite e derivados. “Retirar a gordura aparente das carnes e a pele das aves antes da preparação torna esses alimentos mais saudáveis”, diz o projeto. Vocês se lembram do dito desconexo? Estariam as estagiarias sendo sinceras naquilo que diziam, mas estavam enganadas? Penso que sim. Elas pareciam realmente acreditar nessa ideia de que retirar a gordura aparente torna o alimento mais saudável. O que as indústrias de exploração animal ainda não as deixou perceber foi que o problema não está no aparente, mas na proteína animal em si.

No sexto passo, colocam os óleos vegetais em pé de igualdade com a manteiga e a margarina, demonstrando ignorar a diferença substancial entre eles.

E por fim, no sétimo, pede para evitarmos “refrigerantes e sucos industrializados, bolos, biscoitos doces e recheados, sobremesas e outras guloseimas”. Porque não pedir para abolir esses produtos da dieta? É mais do que sabido o mal que esses produtos fazem as crianças e adolescentes. Porque insistir nessa lógica de que se você come as porções recomendadas de cereais e vegetais, tudo bem comer uma de carne e ovo? Se você come os vegetais e os laticínios, não há problemas com o consumo moderado de refrigerantes e doces industrializados. Diante de tanta literatura medica demonstrando o malefício desses produtos, a mudança de um mais calórico por um menos, mas mantendo sua origem animal, não passa de pura hipocrisia. Dito desconexo. Que mudança no habito alimentar é essa que troca o suco industrializado pela Coca Zero ou pelo toddynho? O importante é não abusar. Pode consumir, mas com moderação.
Isso é educação ou reprodução do mais do mesmo? Legitimação do culturalmente naturalizado.

Para fechar

Virá o dia em que nutrólogos e nutricionistas terão consciência que o ato de comer não é um simples colocar o que o sistema disponibiliza como comida dentro da boca. O ato de comer tem implicações éticas. As estagiarias que desenvolveram esse projeto de legitimação do consumo de vidas não humanas na escola perderam uma formidável oportunidade de desenvolver um verdadeiro projeto de educação nutricional, para além do mero alimentar o corpo, poderiam ter deixado o recado da importância de alimentar a alma. Sabemos que comer os restos de outras pessoas não é só nutricionalmente danoso para nós, como injustificável do ponto de vista ético e ambientalmente insustentável. Vira o dia em que os cursos de nutrição terão na grade a disciplina de Ética na Alimentação, matéria fundada no mais puro raciocínio ético.

Concluo com as palavras de Old MacDonald’s no prefácio de Factory Farm de C. David Coates:
“O homem não é um animal impressionante? Mata milhões e milhões de animais selvagens para proteger seus animais domésticos e sua alimentação. Isso, por sua vez, mata milhões e milhões de seres humanos, pois a ingestão de todos esses animais provoca problemas de saúde degenerativos e fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Aí o homem tortura e mata outros milhões de animais na tentativa de encontrar a cura dessas doenças. Milhões de seres humanos estão morrendo, no mundo inteiro, de fome e desnutrição, pois os alimentos que poderiam comer estão sendo usados para engordar animais domésticos. Enquanto isso, alguns morrem de rir com os absurdos do homem, que mata com tanta facilidade e com tanta violência, e que, uma vez por ano, envia cartões em nome da ‘Paz na Terra’”.

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