Realengo: um furo no peito do mundo

           

A tragédia em Realengo, envolvendo seres inocentes no RJ, mexeu com todos nós.

E como tudo que a gente não elabora tende a crescer, peço licença para elaborar isso junto com quem me lê.

Proponho que, em vez de concentrarmos nossas forças em julgar esse sujeito do qual sentimos repúdio, vejamos além do que ele fez e além dos traumas irreversíveis que ele causou. Ele fez uma escolha e agora está profundamente endividado, suspenso em algum lugar muito escuro. Mas e nós, que ficamos, o que fazemos? Nós que sentimos de longe o furo no peito dessas crianças?

Nós que ainda estamos vivos precisamos fazer algo com essa tinta escura que foi vomitada não apenas nas crianças atingidas, mas em cada um de nós. O que fazemos de nossa raiva, de nossa tristeza? Pois é muito doloroso esse lugar de onde apenas olhamos para uma tragédia. Sim, estamos manchados e precisamos fazer com que isso vire uma coisa boa.

Precisamos ser inteiramente essa indignação, e ao menos deixar que nasça disso alguma coisa.

Ninguém é produto de uma só influência. O que somos vem de várias direções e nasce e cresce de acordo com nossas escolhas (conscientes ou não).

Para lidar com a vida, contamos com os recursos que temos internamente (adquiridos por meio de escola, convivências, leituras, inspirações e todo tipo de contato com obras e pessoas); com o ambiente em que vivemos; com o que recebemos constantemente; com nossa autoimagem; com o que em silêncio nos é sugerido; com influências outras que desconhecemos ainda; etc. A partir dessas elaborações, fazemos nossas escolhas e colhemos o que deriva delas.

A carta escrita pelo assassino Wellington é assustadoramente reveladora. Depois que ela foi aberta ao público, muitas pessoas pareceram se solidarizar ao assassino, convencidas de sua suposta parcela de bondade ao se referir aos animais em tom de generosidade.

Eu não vejo consistência numa suposta compaixão arbitrária, que não se estende a todos os seres vivos. No caso do assassino do Realengo, com certeza ele era dotado de distúrbios mentais e problemas psicológicos seríssimos, o que, no entanto, não lhe dava o direito de tirar vidas – sejam humanas ou não humanas.

Não consigo ver verdade no afeto ou no suposto respeito dele pelos animais. O que eu vejo nele é uma compensação e uma exacerbada identificação com a condição de vulnerabilidade em que os animais se encontram em relação a nós humanos. Ele se identificou com os animais, como poderia ter se identificado com as plantas ou com objetos de pelúcia. Animais, neste caso, ao meu ver, continuam sendo objetos usados por ele como instrumentos de compensação, cumprindo a exclusiva função de espelhar o seu sentimento de abandono, rejeição e inferioridade que a sociedade lhe impôs. Ele talvez olhasse para os animais como gostaria que olhassem para ele.

Tudo isso foi muito triste e a dor ainda está derramada por todos os cantos. É uma tragédia que trata da violência, da covardia, da impotência que sentimos diante da maluquice alheia. Mas é também uma oportunidade de olharmos para o seríssimo assunto que é o bullying sofrido pelos humanos e sofrido em um grau muito maior pelos animais. O bullying é toda agressão social dirigida repetidamente a um indivíduo.

Ele talvez tenha atirado contra o que estaria diretamente associado a tudo que lhe causou sofrimento. Na mente perturbada dele, e seguindo o fluxo do ódio calado que ele carregava, ele quis finalmente expressar sua raiva. Escolheu as meninas, pois talvez tivessem zombado de sua aparência. Mas eram outras meninas, não eram as mesmas. O que pensava, então, ele ao atirar em pessoas que nada tinham a ver com a rejeição que ele havia (supostamente) sofrido?

As ligações na mente dele são tortas, são outras. Elas agem no sentido de justificar e fortalecer atos que contraditoriamente reforcem o quanto ele é um coitado e essa condição de coitado valida então o direito que ele se dá de sair e matar. Sim, eu imagino que até na cabeça de um assassino seja necessário estabelecer uma condição de igualdade. Ele fez o que fez para dar o troco. Na cabeça dele, matar o que quer que se mexesse ainda naquelas salas de aula onde ele estudara era o outro lado da equação que faltava para ele se aniquilar por completo.

Ainda com relação aos animais, não podemos considerar que ele os olhasse com compaixão, assim como não podemos considerar que uma pessoa só porque é vegetariana/vegana olhe para os animais com respeito e um afeto incondicional. Na verdade, uma pessoa com orientação pacífica naturalmente se inclinará ao veganismo – em algum momento isso se dará com muita naturalidade. O ponto de partida é interno, transbordando então ao que se faz, ao que se come, ao que se diz. O título de “ativista”, “vegetariano”, “espírita”, entre outros, não confere valor, por si só, ao indivíduo. O que garante sua boa índole é o que vai dentro dele, e que se mostra na forma como interage com o mundo, é o que se estampa em seu olhar.

Defender os animais e maltratar os humanos é uma patologia tão nociva quanto defender os humanos e maltratar os animais (atingindo-os direta ou indiretamente).

Devemos ao mundo nossa parcela de paz. Achemos, então, o caminho.

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